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Pix já responde por 55,2% dos pagamentos no Brasil; veja o que mudou

Sistema criado pelo Banco Central já é usado por mais de 150 milhões de pessoas e ganhou novas funções, mas também trouxe desafios contra golpes

Gabriel Porta · · 8 min de leitura
Pix
Pix — Crédito: Reprodução Redes Sociais

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O Pix deixou de ser apenas uma alternativa para transferir dinheiro entre contas e passou a ocupar o centro da rotina financeira dos brasileiros. No primeiro semestre de 2026, o sistema respondeu por 55,2% das transações de pagamento realizadas no país. Foram quase 44 bilhões de operações, crescimento de 19,4% em relação ao mesmo período de 2025.

Os números mostram uma mudança de hábito em pouco menos de seis anos desde o lançamento do sistema pelo Banco Central. No primeiro semestre, foram registradas 79,7 bilhões de transações de pagamento no Brasil, que movimentaram R$ 71,9 trilhões. O Pix liderou em quantidade, enquanto a TED permaneceu à frente quando considerado o volume financeiro.

A expansão continua. Em setembro, mais de 150 milhões de pessoas físicas já haviam utilizado o Pix. No mesmo mês, foram realizadas mais de 7,8 bilhões de transações, com volume superior a R$ 3,8 trilhões. O BC também registrou um recorde de 318,1 milhões de transações em um único dia, em 4 de setembro.

Mas o que explica uma mudança tão rápida no comportamento de pagamento?

Em entrevista a reportagem da Gazeta do Paraná, Murilo Rabusky, especialista em tecnologias financeiras e diretor de negócios da Lina Open X, o sucesso do Pix não está ligado a apenas uma característica. A combinação entre tecnologia, facilidade de uso, disponibilidade e custo ajudou a criar um sistema que rapidamente ganhou escala.

O sucesso está relacionado a uma combinação de infraestrutura tecnológica eficiente, baixo custo para pessoas físicas e uma experiência simples de pagamento

Uma mudança no jeito de pagar

Antes do Pix, uma transferência bancária dependia, em muitos casos, de horários de funcionamento, tarifas e procedimentos que tornavam a operação menos prática. O sistema criado pelo Banco Central mudou essa lógica ao permitir transferências em segundos, a qualquer hora e em qualquer dia.

Para Rabusky, essa mudança reduziu barreiras que existiam nos meios tradicionais de pagamento.

O especialista destaca ainda que o Banco Central estabeleceu um padrão comum para diferentes instituições financeiras. Isso permitiu que bancos, fintechs e outras empresas oferecessem o mesmo sistema, aumentando rapidamente a quantidade de pessoas e estabelecimentos que aceitavam Pix.

Na prática, quanto mais pessoas passaram a utilizar o sistema, maior ficou a sua utilidade. O consumidor encontrou mais lugares para pagar com Pix e os estabelecimentos passaram a ter mais motivos para oferecer a modalidade.

“Mais pessoas e estabelecimentos utilizando o sistema aumentam sua utilidade, criando um efeito de rede”, explica o especialista.

O resultado foi uma mudança que ultrapassou a simples transferência entre contas. O Pix passou a aparecer em compras presenciais, pagamentos por QR Code, vendas pela internet, transferências entre pessoas e cobranças de empresas.

No primeiro semestre de 2026, as transações de pessoa para pessoa, conhecidas como P2P, representaram 40% da quantidade de operações feitas pelo Pix.

Pix é melhor que cartão, débito ou dinheiro?

Apesar da liderança em quantidade de operações, o Pix não eliminou os outros meios de pagamento. E, segundo Rabusky, não existe uma modalidade que seja melhor em todas as situações.

A escolha depende do tipo de operação, da necessidade de liquidez, dos benefícios oferecidos e do perfil financeiro de cada consumidor.

O Pix ganhou força justamente por reunir velocidade, disponibilidade e facilidade. Para o consumidor, pode ser interessante em transferências, pagamentos à vista e compras em que o estabelecimento oferece desconto. Para o comerciante, o recebimento imediato também pode facilitar o fluxo de caixa.

O cartão de crédito, por outro lado, continua tendo uma função importante para quem precisa organizar o pagamento ao longo do tempo. O parcelamento pode ajudar no planejamento financeiro, desde que o consumidor consiga pagar a fatura integralmente.

O dinheiro em espécie também não desapareceu. Ele continua sendo uma alternativa quando não há conexão disponível ou quando o estabelecimento não oferece meios eletrônicos.

“Não existe um único meio de pagamento melhor. A escolha depende da operação, do custo, da necessidade de liquidez e do perfil financeiro”, afirma Rabusky.

Os números do Banco Central ajudam a mostrar essa convivência. Embora o Pix tenha concentrado 55,2% das transações em quantidade no primeiro semestre, os cartões de crédito, débito e pré-pagos somados representaram 30,8%. Já quando o critério é o dinheiro movimentado, a liderança muda: a TED respondeu por 32,7% do volume financeiro, contra 28,1% do Pix.

A diferença ocorre porque os meios de pagamento são utilizados em operações de tamanhos muito diferentes. O valor médio de uma transação Pix no semestre foi de R$ 459. Na TED, a média chegou a R$ 60,7 mil.

A facilidade também trouxe novos desafios

A popularização do Pix criou um problema paralelo: quanto mais dinheiro circula rapidamente, maior é a preocupação com golpes.

Rabusky chama atenção para um ponto importante. Em muitos casos, o sistema não é tecnicamente invadido. O criminoso utiliza engenharia social para convencer a própria vítima a autorizar a transferência.

São situações como falsos atendentes de banco, pedidos de dinheiro feitos por criminosos que se passam por familiares, cobranças fraudulentas ou mensagens que criam uma situação de urgência.

“O principal risco está na engenharia social, quando o criminoso manipula a vítima para que ela mesma autorize a transferência”, explica.

Isso não significa que o sistema dispense mecanismos de segurança. O Pix possui autenticação e rastreabilidade, mas nenhuma tecnologia elimina completamente a possibilidade de fraude.

Por isso, o especialista recomenda cuidados básicos antes da confirmação de qualquer operação. O usuário deve conferir o nome do destinatário, desconfiar de pedidos inesperados, verificar cobranças pelos canais oficiais e nunca compartilhar senhas, códigos de autenticação ou acesso ao aplicativo bancário.

Outro cuidado está no próprio momento da transferência. Como o Pix acontece em poucos segundos, um erro de digitação pode levar o dinheiro para outra conta antes que o usuário perceba o problema.

E se o Pix for enviado por engano?

Quando a transferência está relacionada a uma fraude, existe o Mecanismo Especial de Devolução, o MED. O recurso permite que as instituições analisem a situação e, quando os critérios são atendidos, adotem procedimentos para tentar bloquear e recuperar os valores.

Mas o mecanismo não representa uma garantia de devolução em qualquer situação.

Em um golpe, a orientação é procurar imediatamente a instituição financeira de onde o Pix saiu e contestar a operação. A rapidez pode ser importante para aumentar a possibilidade de bloquear o dinheiro antes que ele seja movimentado novamente.

A situação é diferente quando o próprio usuário informa uma chave errada e envia o dinheiro para uma pessoa que não participou de nenhuma fraude. Nesse caso, a operação não é automaticamente considerada um golpe e o MED não funciona simplesmente como um mecanismo para desfazer qualquer transferência equivocada.

“Uma transferência feita para a chave errada não é necessariamente uma fraude”, explica Rabusky. Nessa situação, a orientação é procurar a instituição financeira e buscar uma solução com o destinatário.

Para o especialista, o desafio do sistema financeiro é fazer com que prevenção, identificação e recuperação de valores acompanhem a velocidade dos pagamentos instantâneos.

A transferência pode acontecer em segundos, mas uma investigação de fraude exige análise, troca de informações e cooperação entre instituições. Por isso, o avanço da tecnologia precisa ser acompanhado pelo aprimoramento dos mecanismos de monitoramento e prevenção.

O Pix está deixando de ser apenas uma transferência

A próxima etapa dessa transformação passa por ampliar o que pode ser feito com a infraestrutura já criada.

O próprio Banco Central vem incorporando novas funcionalidades ao ecossistema. O Pix Automático, por exemplo, permite pagamentos recorrentes, como mensalidades e assinaturas. No primeiro trimestre de 2026, foram 4 milhões de transações nessa modalidade, somando R$ 2,3 bilhões. No segundo trimestre, o número subiu para 9,5 milhões de operações, com R$ 3,5 bilhões movimentados.

A evolução também envolve a integração com o Open Finance. Segundo Rabusky, o compartilhamento autorizado de dados e a possibilidade de iniciar pagamentos a partir de diferentes instituições podem tornar a experiência financeira mais integrada.

“O pagamento passa a fazer parte de jornadas mais amplas de consumo e gestão financeira”, avalia.

Nesse cenário, o consumidor pode deixar de pensar apenas em qual instituição mantém o dinheiro e passar a escolher onde realizar uma determinada operação, levando em conta experiência, segurança, custo e facilidade.

O Open Finance, porém, depende de consentimento e de regras de governança. O compartilhamento de dados não representa uma autorização genérica para que instituições tenham acesso irrestrito à vida financeira do cliente.

O que o Pix mudou no Brasil

O sucesso do Pix não significa que dinheiro, débito ou crédito deixarão de existir no curto prazo. Cada modalidade atende a uma necessidade diferente.

A principal mudança foi outra: o pagamento ficou mais rápido, digital e integrado ao cotidiano.

Em menos de seis anos, o Pix passou de uma novidade lançada pelo Banco Central para uma infraestrutura utilizada por mais de 150 milhões de pessoas físicas. O sistema já supera metade das transações de pagamento em quantidade e continua incorporando novas funções.

Para Rabusky, o próximo desafio será transformar essa eficiência em uma experiência financeira cada vez mais integrada, sem deixar de lado segurança, transparência e confiança.

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