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Saúde no Paraná: o que os oito candidatos prometem, o que já existe e o que não depende só do governador

Planos registrados no TSE incluem expansão de cirurgias, filas transparentes, novas formas de financiar hospitais, ampliação da atenção básica e até expropriação de redes privadas; Gazeta do Paraná confrontou as propostas com programas em vigor e as competências de Estado, municípios e União

Ana Zimermann · · 19 min de leitura
Os oito candidatos apresentam propostas distintas para a saúde pública; algumas ampliam programas existentes, enquanto outras dependem de municípios, União ou mudanças estruturais
Os oito candidatos apresentam propostas distintas para a saúde pública; algumas ampliam programas existentes, enquanto outras dependem de municípios, União ou mudanças estruturais — Crédito: Paola Acioly/Ministério da Saúde

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Os oito candidatos ao Governo do Paraná apresentam caminhos diferentes para a saúde pública entre 2027 e 2030. Há propostas de ampliar programas que já funcionam, como cirurgias eletivas, telessaúde e regionalização; outras dependem diretamente da participação dos municípios, da União ou de prestadores do SUS; e há, ainda, mudanças de maior porte que exigiriam novas leis, recursos permanentes, reorganização administrativa ou alterações profundas na forma como o Estado presta os serviços. A Gazeta do Paraná analisou os planos registrados na Justiça Eleitoral por: Sandro Alex (PSD), Sergio Moro (PL), Requião Filho (PDT), Luiz França (Missão), Alexandre Salomão (Mobiliza), Tayná Miessa (UP), Samuel de Mattos (PSTU) e Adriano Funileiro (PCO), além de confrontar as propostas com manifestações de campanha e programas atualmente mantidos pelo Governo do Paraná e pelo SUS.

A análise não atribui notas às propostas nem estabelece quais são melhores ou piores. Os marcadores utilizados indicam apenas a natureza institucional da promessa: JÁ EXISTE/É EXPANSÃO — há programa ou mecanismo semelhante em funcionamento e a proposta prevê continuidade, ampliação ou mudança de escala; DEPENDE DO ESTADO + OUTROS — o governador tem instrumentos para agir, mas a execução depende também de municípios, União, Comissão Intergestores Bipartite, hospitais, universidades ou outros integrantes do SUS; MUDANÇA ESTRUTURAL — a proposta pressupõe nova legislação, alteração contratual, reorganização do modelo existente, aquisição ou desapropriação de ativos ou uma expansão relevante e permanente de despesas.

Essa distinção é especialmente importante na saúde. Pela Lei nº 8.080/1990, cabe ao Estado coordenar e avaliar as redes regionalizadas, financiar e prestar apoio técnico aos municípios e executar ações de forma complementar. Grande parte da atenção primária, entretanto, é operacionalizada pelas prefeituras. Isso faz com que propostas sobre UBS, Saúde da Família, filas, prontuários e serviços municipais normalmente precisem ser pactuadas entre mais de um nível de governo.

Sandro Alex (PSD): ampliar o que já está em funcionamento

O plano de Sandro Alex trata a saúde dentro da política denominada “Paraná Longevo” e apresenta como eixo a continuidade e ampliação da regionalização do SUS, das cirurgias eletivas, da atenção especializada, da rede hospitalar, da telessaúde e da integração digital. Entre as propostas estão: ampliar o Opera Paraná, reorganizar a regulação das filas por risco e gravidade, criar rotas rápidas de diagnóstico inicialmente voltadas ao câncer, fortalecer hospitais públicos e filantrópicos, ampliar leitos e serviços de alta complexidade e regionalizar cuidados paliativos. Também é prevista uma unidade hospitalar de trauma em Foz do Iguaçu.

Proposta literal — página 61: “Fortalecer uma rede de saúde integrada, acessível, resolutiva e humanizada”. O documento desenvolve esse objetivo em programas de regionalização, redução de filas e integração da rede.

Cirurgias eletivas acima de 1 milhão por ano = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO

Durante a campanha, Sandro Alex transformou a diretriz de ampliação das cirurgias em uma meta numérica. Em entrevista divulgada em 22 de setembro, afirmou: “Nós vamos chegar a um milhão de cirurgias eletivas”. A candidatura relacionou a meta à abertura de novos leitos e à regionalização do atendimento. O ponto de partida já existe. O Opera Paraná realizou 786.107 cirurgias eletivas em 2025, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. O programa começou em 2022 com 488.441 procedimentos e funciona por meio de hospitais estaduais, municipais e instituições privadas contratualizadas. Assim, a promessa de ultrapassar 1 milhão não cria um programa novo: aumenta em mais de 200 mil procedimentos anuais a escala alcançada em 2025.

A principal condicionante é financeira e operacional. Mais cirurgias exigem capacidade hospitalar, equipes, anestesistas, leitos, exames e recursos para remunerar a produção adicional. Como parte dos procedimentos ocorre em hospitais municipais e contratualizados, a meta também depende da capacidade desses prestadores.

Regionalização e fortalecimento de UBS e hospitais municipais = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO, DEPENDE DO ESTADO + OUTROS

O plano prevê ampliar o apoio estadual às unidades municipais e levar consultas, exames, medicamentos e especialidades para mais perto da residência do paciente. Essa estrutura também não começa do zero. O Paraná mantém o Proaps, que transfere recursos aos municípios para a atenção primária, além do Regionaliza Mais e dos Ambulatórios Médicos de Especialidades. Em 2026, o Estado também ampliou incentivos para equipes multiprofissionais nas UBS. A limitação institucional está na divisão de responsabilidades do SUS: o Estado pode financiar, induzir e pactuar a política, mas boa parte das UBS e das equipes de atenção básica pertence às redes municipais.

Novo hospital de trauma em Foz = MUDANÇA ESTRUTURAL, DEPENDE DO ESTADO + OUTROS

O plano registrado prevê uma unidade hospitalar de trauma em Foz do Iguaçu com aproximadamente 200 leitos e 30 UTIs. Já em manifestação de campanha de 22 de setembro, Sandro Alex falou em um hospital de 300 leitos. Há, portanto, diferença entre a capacidade mencionada no documento e a apresentada posteriormente pela candidatura. Construir um hospital estadual está dentro das atribuições do Executivo, mas a implantação exige terreno, projeto, licenciamento, investimento de capital, contratação de equipes, equipamentos e recursos permanentes para custeio. Serviços de alta complexidade também precisam ser integrados e habilitados dentro da rede do SUS.

Sergio Moro (PL): Tabela SUS estadual, saúde digital e atenção básica

O plano de Sergio Moro concentra parte relevante das propostas em três frentes: complementar o financiamento pago a prestadores do SUS, reduzir filas e ampliar a digitalização e regionalização.

Criar a Tabela SUS Paranaense = MUDANÇA ESTRUTURAL

Proposta literal — página 25: “Vamos criar a Tabela SUS Paranaense.” O plano afirma que o Estado acrescentaria um pagamento padronizado aos valores da tabela federal e relaciona a medida à ampliação da oferta de procedimentos. 

Na campanha, o tema voltou a aparecer. Em 26 de agosto, Moro assinou na Associação Médica do Paraná uma carta-compromisso que incluía entre as prioridades a “Tabela SUS no Paraná”, além de regionalização, atenção primária, saúde digital e atendimento no tempo adequado. A ideia tem precedente fora do Paraná — o próprio plano cita São Paulo como referência —, mas não existe atualmente no Estado com o formato geral e padronizado proposto. O Paraná, entretanto, já utiliza pagamentos e incentivos estaduais complementares. O HOSPSUS transfere recursos a hospitais públicos e filantrópicos, enquanto o Opera Paraná remunera produção adicional de cirurgias. A mudança, portanto, estaria na criação de um mecanismo mais amplo e padronizado de complementação da tabela federal. Não há impedimento para o Estado aportar recursos próprios na assistência hospitalar, mas uma Tabela SUS estadual exigiria definir procedimentos, valores, hospitais habilitados, regras de contratualização e fonte permanente de recursos. Quanto maior a cobertura, maior o impacto recorrente no orçamento estadual.

Expandir telessaúde = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO

Proposta literal — página 26: o programa prevê “expandir teleconsultas, telediagnóstico, telemonitoramento” em todas as regiões.

A estrutura já existe em escala estadual. Em julho de 2026, a Sesa informou que a estratégia de Telessaúde atendia os 399 municípios, com suporte remoto, exames e comunicação entre profissionais. A promessa, portanto, corresponde principalmente à expansão das modalidades e da capacidade instalada.

Fortalecer postos de saúde e integrar prontuários = DEPENDE DO ESTADO + OUTROS

O plano também propõe aumentar a resolutividade da atenção primária e integrar sistemas e prontuários. O Estado tem competência para financiar a atenção básica e desenvolver infraestrutura digital, mas a maioria das UBS pertence aos municípios. A implantação uniforme depende de adesão das prefeituras, interoperabilidade entre sistemas e pactuação no SUS. A própria Lei 8.080 determina ao Estado prestar apoio técnico e financeiro às administrações municipais, e não substituir permanentemente sua gestão local.

Requião Filho (PDT): fila única, mais financiamento e hospitais regionais

O plano de Requião Filho concentra todas as principais propostas de saúde na página 5. O documento prevê aumento gradual dos recursos próprios do Estado, maior cofinanciamento da atenção primária, fila única, mutirões, expansão hospitalar, concursos, saúde mental, telessaúde, prontuário integrado, saúde bucal e hospitais especializados para mulheres e crianças.

Criar uma fila única e transparente = DEPENDE DO ESTADO + OUTROS

Proposta literal — página 5: “Fila única e transparente — Permitir que cada pessoa acompanhe exames, consultas e cirurgias”.

A proposta também apareceu na campanha. Em 2 de setembro, Requião Filho defendeu uma fila única para consultas, exames e cirurgias, organizada por prioridade clínica e com informações ao paciente sobre a situação e previsão do atendimento. O Estado já mantém sistemas de regulação e o Opera Paraná trabalha para reduzir filas cirúrgicas, mas não há hoje uma fila única estadual com todas as características descritas no plano. A principal trava é de integração: consultas e procedimentos são oferecidos por hospitais estaduais, municipais, universitários, consórcios e prestadores contratualizados. Uma fila única exige interoperabilidade dos sistemas e regras comuns de regulação, além de tratamento adequado dos dados pessoais de saúde.

Ampliar o cofinanciamento da atenção primária = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO, DEPENDE DO ESTADO + OUTROS

O plano afirma que pretende ampliar recursos para os municípios e “retomar princípios do HOSPSUS”. Já existem dois instrumentos diretamente relacionados: o Proaps Paraná, que repassa recursos estaduais às redes municipais de atenção primária, e o HOSPSUS, destinado à qualificação de hospitais públicos e filantrópicos. A ampliação está ao alcance do Estado quanto à sua parcela de financiamento, mas a execução das ações básicas continua dependendo das prefeituras.

Hospitais Regionais da Mulher e da Infância = MUDANÇA ESTRUTURAL

Proposta literal — página 5: “Criar hospitais regionais integrados ao SUS”, reunindo serviços maternos, infantis, ginecológicos, oncológicos e neonatais.

A implantação de uma rede de novas unidades exigiria definição de quantos hospitais seriam construídos ou adaptados, localização, capacidade, investimento e custeio. O plano não apresenta esses valores. O Estado tem competência para manter hospitais regionais, mas novas unidades de alta complexidade pressupõem obras, equipamentos, contratação de profissionais e integração com a rede federal e municipal do SUS.

Luiz França (Missão): “fila viva”, jornada do paciente e telemedicina

O plano de Luiz França dedica o Compromisso 14, a partir da página 73, à saúde. O eixo é denominado “Saúde sem fila escondida e perto de casa”.

Organizar uma “fila viva” = DEPENDE DO ESTADO + OUTROS

O documento propõe que a posição do paciente não seja determinada apenas pela ordem cronológica, mas também por gravidade, risco de progressão, vulnerabilidade e tempo acumulado.

Proposta literal — página 73: o plano afirma que consulta, exame, encaminhamento, cirurgia e acompanhamento “deixarão de ser eventos independentes”.

A ideia prevê acompanhar o paciente em uma jornada contínua e compartilhar informações entre serviços. Uma política estadual de regulação pode estabelecer critérios clínicos, mas a rede utilizada pelos pacientes envolve municípios, hospitais contratados e consórcios. A execução integral, portanto, depende da adesão e integração desses prestadores.

Integrar sistemas estaduais e municipais = DEPENDE DO ESTADO + OUTROS

Nas páginas seguintes, o programa atribui à Sesa e à Celepar o papel de mapear e conectar sistemas, filas e prontuários. O Paraná já exige troca de informações das redes municipais em programas como o Proaps e mantém ferramentas de saúde digital, mas transformar diferentes bancos de dados em um percurso único exigiria interoperabilidade técnica, padronização e proteção dos dados dos pacientes.

Ampliar telemedicina = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO

O plano prevê que especialistas de hospitais, universidades e diferentes regiões atendam pacientes remotamente e apoiem profissionais das unidades locais. A Telessaúde Paraná já alcança os 399 municípios. A diferença estaria na ampliação da quantidade de especialidades, capacidade e integração da oferta. 

Campanha x plano: nas fontes públicas consultadas até 29 de setembro, não foi localizada manifestação direta de Luiz França detalhando essas propostas de saúde. O Portal Comunique informou que enviou perguntas à candidatura, mas não recebeu as respostas até a publicação de sua reportagem e, por isso, apresentou as propostas a partir do próprio plano registrado no TSE. Não há, nesse material, elemento suficiente para apontar divergência entre plano e discurso.

Alexandre Salomão (Mobiliza): complementar a tabela SUS e manter cirurgias

As propostas de saúde de Alexandre Salomão aparecem concentradas na página 16 do plano.

Tabela SUS Paranaense = MUDANÇA ESTRUTURAL

Proposta literal — página 16: “Criar uma Tabela SUS Paranaense, mecanismo estadual de complementação aos valores pagos pela tabela federal do SUS”.

A prioridade declarada são Santas Casas e hospitais filantrópicos em dificuldade financeira. Assim como na proposta de Moro, o Paraná já possui mecanismos estaduais de complementação e incentivo, especialmente o HOSPSUS. O que não existe é uma tabela estadual geral nos moldes explicitados pelo candidato. A criação depende do Executivo e do orçamento estadual, além de regras de contratualização com os hospitais. Se transformada em política permanente e abrangente, produz despesa recorrente que precisaria ser incorporada ao planejamento orçamentário.

Manter cirurgias eletivas e ampliar atendimento regional = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO

Proposta literal — página 16: “Dar continuidade ao programa de cirurgias eletivas e à expansão da rede regional”.

Neste caso, o próprio texto reconhece a continuidade. O Opera Paraná já executa cirurgias eletivas, enquanto o Regionaliza Mais direciona recursos aos consórcios intermunicipais e Ambulatórios Médicos de Especialidades para reduzir deslocamentos. Reportagens de campanha consultadas reproduzem as mesmas propostas — Tabela SUS Paranaense, continuidade das cirurgias e expansão dos ambulatórios —, mas não foi localizada uma declaração direta do candidato sobre saúde que permita um confronto literal entre fala e documento.

Tayná Miessa (UP): atenção básica, concursos e UBS à noite

O plano de Tayná Miessa dá prioridade à prevenção e à ampliação da prestação pública direta. Entre as propostas estão concursos, cobertura vacinal acima de 95%, expansão da Saúde da Família, medicamentos psiquiátricos mais modernos, maior participação da atenção básica no orçamento e abertura de UBS no período noturno e aos finais de semana. As principais medidas estão nas páginas 13 e 14.

Destinar de 40% a 50% dos recursos estaduais à atenção básica = MUDANÇA ESTRUTURAL, DEPENDE DO ESTADO + OUTROS

Proposta literal — página 13: “Garantir que pelo menos 40-50% dos recursos estaduais de saúde sejam direcionados à atenção básica”.

O plano acrescenta que haveria contrapartida municipal. O Estado já financia a atenção primária pelo Proaps, com repasses fundo a fundo para todos os municípios elegíveis. O que mudaria seria a escala: reservar entre 40% e 50% de todos os recursos estaduais de saúde para essa finalidade representaria uma redistribuição expressiva do orçamento. A proposta depende do Estado para definir sua parcela orçamentária, mas a execução do dinheiro ocorreria em grande medida pelas redes municipais. Também seria necessário compatibilizar a nova distribuição com despesas estaduais já comprometidas com hospitais, média e alta complexidade, medicamentos, vigilância e outras áreas.

Terceiro turno nas UBS = DEPENDE DO ESTADO + OUTROS

Proposta literal — página 14: “Implementar ‘3ª turno’ para as UBS do estado”, com atendimento noturno e nos fins de semana.

Há uma questão institucional importante na redação. A maior parte das UBS é administrada pelos municípios. O Estado pode criar incentivos, financiar equipes e pactuar a extensão dos horários, mas não definir sozinho o funcionamento de todas as unidades municipais. A Lei 8.080 estabelece que o papel estadual inclui apoiar técnica e financeiramente os municípios e acompanhar a rede, enquanto a prestação descentralizada permanece elemento estrutural do SUS.

Fim de parcerias com entidades privadas = MUDANÇA ESTRUTURAL

O plano também propõe acabar com parcerias público-privadas com planos de saúde e fundações privadas. A aplicação concreta dependeria de quais contratos e entidades seriam abrangidos. Contratos em vigor não podem simplesmente ser ignorados: eventual encerramento teria de observar cláusulas contratuais, legislação aplicável e continuidade do atendimento. Nas fontes consultadas, as propostas divulgadas durante a campanha reproduzem os mesmos eixos do programa, especialmente ampliação da atenção básica, concursos e terceiro turno nas UBS.

Samuel de Mattos (PSTU): estatização integral e expropriação de hospitais privados

O plano de Samuel de Mattos apresenta a mudança mais ampla de modelo entre as propostas analisadas para a saúde. A seção 2.5, “Nossas Propostas para um SUS 100% Público, Estatal e sob Controle dos Trabalhadores”, prevê extinção das terceirizações e incorporação de estruturas privadas ao setor público. A versão textual indexada do documento consultado preserva a seção e o conteúdo, mas não exibe a página correspondente; o plano registrado tem 14 páginas.

Expropriar grandes redes hospitalares e de diagnóstico = MUDANÇA ESTRUTURAL

Proposta literal — seção 2.5: o programa propõe “expropriar as grandes redes hospitalares e de diagnósticos privados”.

Também prevê construção de novas UPAs, UBS e hospitais regionais, além do fim da Funeas, Organizações Sociais, PPPs e consórcios privados. Não há política estadual equivalente em vigor. A desapropriação de hospitais privados não poderia ocorrer como simples reorganização administrativa. A Constituição assegura o direito de propriedade e estabelece, como regra geral, que desapropriações por necessidade ou utilidade pública ou interesse social devem seguir procedimento legal e prever justa e prévia indenização em dinheiro, salvo exceções constitucionais específicas. Uma estatização em grande escala também exigiria recursos para aquisição ou indenização, incorporação de patrimônio, pessoal e contratos e financiamento permanente da operação.

Encerrar terceirizações e reestatizar serviços = MUDANÇA ESTRUTURAL

O Estado tem margem para rever a forma de gestão de seus próprios hospitais e contratos futuros. Já a ruptura de contratos vigentes e a extinção ou transformação de entidades instituídas juridicamente exigem análise individual, respeito às leis que as criaram e aos instrumentos contratuais existentes. Nas fontes abertas consultadas, não foi localizada declaração específica de campanha de Samuel de Mattos detalhando uma proposta de saúde diferente da plataforma registrada. O material público encontrado reproduz essencialmente o programa apresentado ao TSE. Por isso, não há base documental, até aqui, para apontar afastamento entre discurso e plano.

Adriano Funileiro (PCO): hospitais, piso de R$ 8 mil e “volta” do Mais Médicos

O plano de Adriano Funileiro é curto e apresenta propostas de alcance nacional, inclusive em uma eleição para governador. As medidas de saúde aparecem na página 5.

Construir hospitais e postos e instituir piso de R$ 8 mil = MUDANÇA ESTRUTURAL

Proposta literal — página 5: “Plano de emergência para construção de hospitais e postos de saúde em todo o País”. O mesmo item defende piso de R$ 8 mil para profissionais da saúde.

Um governador pode propor novos hospitais estaduais e reajustes ou pisos para servidores vinculados ao Estado, desde que haja base legal e orçamentária. A formulação “em todo o País”, entretanto, ultrapassa a competência de um governo estadual. Também não cabe ao governador do Paraná estabelecer sozinho um piso remuneratório nacional para todos os profissionais de saúde.

“Volta” do Mais Médicos = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO, DEPENDE DO ESTADO + OUTROS

Na mesma página, o programa propõe a “volta do programa Mais Médicos”. O programa, porém, está em funcionamento em 2026. O Ministério da Saúde publicou diversos chamamentos neste ano, incluindo seleção de médicos e adesão de municípios ao Projeto Mais Médicos para o Brasil e ao Mais Médicos Especialistas. Portanto, literalmente, não seria possível ao Governo do Paraná “retomar” um programa que já está ativo. O Estado poderia buscar maior adesão, articulação com municípios ou complementação de políticas para fixação de médicos.

O plano também propõe “validação imediata” de diplomas médicos obtidos no exterior e abertura de centenas de cursos na área da saúde. Essas medidas não estão exclusivamente sob a autoridade de um governador, pois envolvem legislação e regulação federal do ensino e do exercício profissional. Não foi localizada, nas fontes consultadas, uma fala recente de Adriano Funileiro detalhando essas medidas de saúde além do próprio programa registrado.

O que já existe antes da eleição

A comparação dos programas mostra que uma parcela expressiva das propostas apresentadas para 2027 não começa do zero. O Opera Paraná já é a principal estrutura estadual destinada às cirurgias eletivas e registrou 786.107 procedimentos em 2025. A Telessaúde Paraná já alcança os 399 municípios, com suporte remoto e exames à distância. O Proaps Paraná já transfere recursos estaduais para fortalecer a atenção primária municipal. O HOSPSUS já destina apoio estadual a hospitais públicos e filantrópicos. E o Regionaliza Mais já financia consórcios e ambulatórios especializados para aproximar consultas e exames dos pacientes do interior. Em 2026, o programa foi formalmente pactuado na Comissão Intergestores Bipartite, que reúne Estado e municípios.

Por isso, propostas aparentemente semelhantes podem significar coisas diferentes. Prometer mais cirurgias ou mais telessaúde significa ampliar uma estrutura em funcionamento; criar uma tabela estadual de pagamentos significa instituir um novo mecanismo de financiamento; abrir UBS à noite depende diretamente dos municípios; e expropriar hospitais privados alteraria de forma profunda a relação entre Estado e rede privada.

Governador tem poder relevante na saúde, mas não governa o SUS sozinho

A Constituição e a legislação do SUS desenharam a assistência à saúde como uma rede compartilhada. O Governo do Estado administra hospitais e serviços próprios, distribui recursos, regula parte da média e alta complexidade, contrata prestadores, financia municípios e coordena redes regionais. Pode, portanto, ampliar cirurgias, construir hospitais estaduais, contratar servidores, financiar novos programas e destinar mais dinheiro à saúde — desde que as despesas sejam previstas no orçamento e respeitem as regras fiscais. Mas o governador não controla sozinho as UBS dos 399 municípios, os recursos federais, hospitais municipais, universidades federais, programas do Ministério da Saúde ou todos os prestadores privados vinculados ao SUS.

A própria Lei 8.080 determina que o Estado deve descentralizar ações para os municípios, acompanhar as redes hierarquizadas, prestar apoio técnico e financeiro e atuar de forma complementar. É justamente nessa divisão que aparece a diferença entre uma promessa que pode ser executada diretamente pelo Palácio Iguaçu, outra que precisa ser negociada com prefeitos e União e uma terceira que pressupõe alteração estrutural do modelo atual. Para o eleitor, o plano registrado no TSE mostra o que cada candidatura pretende fazer. A comparação com a rede que já existe e com as competências legais mostra uma segunda dimensão: o que começa em 2027, o que apenas aumenta de tamanho e o que nenhum governador poderá entregar sozinho.

A apuração da Gazeta do Paraná considera os planos de governo registrados pelas oito candidaturas e informações públicas disponíveis até 29 de setembro de 2026. Nos casos em que não foi localizada declaração específica de campanha sobre determinada proposta, a reportagem não atribuiu falas ao candidato nem presumiu concordância além do documento registrado.

 

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