Educação no Paraná: o que os candidatos prometem, o que já existe e o que não depende só do governador
Dos colégios cívico-militares ao fim do Parceiro da Escola, passando por creches, ensino técnico, concursos, plataformas digitais, universidades e passe livre, Gazeta do Paraná confrontou os planos dos oito candidatos com políticas em vigor e os limites de atuação do próximo governador
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A educação aparece nos planos dos oito candidatos ao Palácio Iguaçu com propostas que vão da continuidade de programas atuais à reversão de políticas implantadas nos últimos anos. Outras dependem dos municípios, da Assembleia Legislativa, das universidades ou da União.
A Gazeta do Paraná analisou os programas registrados na Justiça Eleitoral por Requião Filho (PDT), Luiz França (Missão), Samuel de Mattos (PSTU), Sergio Moro (PL), Adriano Funileiro (PCO), Alexandre Salomão (Mobiliza), Sandro Alex (PSD) e Tayná Miessa (UP), confrontando as propostas com declarações de campanha e políticas já existentes.
Os selos usados na reportagem não representam avaliação das candidaturas: JÁ EXISTE / É EXPANSÃO — há política semelhante em funcionamento; DEPENDE DO ESTADO + OUTROS — a execução exige participação de municípios, Alep, universidades, União ou outros agentes; MUDANÇA ESTRUTURAL — envolve mudança legal, contratual ou institucional, concursos ou expansão relevante de despesas.
Sandro Alex (PSD): continuidade, creches e formação
O plano prevê creches, alfabetização, educação profissional, escolas bilíngues, formação docente, intercâmbio e tecnologia.
Cofinanciar creches municipais = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO, DEPENDE DO ESTADO + OUTROS
Proposta — página 52: “cofinanciar ampliação, requalificação e manutenção das creches”, além de estabelecer padrão estadual de qualidade.
O programa Infância Feliz já financia estruturas municipais. Em maio de 2026, havia 421 unidades habilitadas em 329 municípios e 110 creches em obras. Na campanha, Sandro Alex prometeu “mais creches, escolas municipais e escolas estaduais”. O Estado pode financiar as unidades, mas as prefeituras são responsáveis pela manutenção e pelas equipes.
Inteligência educacional = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO
Proposta — página 53: transformar o Observatório da Aprendizagem em “Plataforma Estadual de Inteligência Educacional”, reunindo avaliações, frequência, abandono e vulnerabilidade.
O Paraná já utiliza avaliações e sistemas de acompanhamento. A proposta amplia a integração dos dados.
Intercâmbio e formação = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO
O plano prevê ampliar o Ganhando o Mundo Professores e consolidar formação permanente. O programa já atende estudantes e profissionais da educação.
Sergio Moro (PL): cívico-militares, creches e revisão de plataformas
O programa, nas páginas 15 a 19, prevê ensino integral, formação profissional, alfabetização, expansão dos cívico-militares, creches, tecnologia e valorização docente.
Expandir colégios cívico-militares = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO
Moro propõe ampliar o modelo e, na campanha, relaciona educação a disciplina e respeito ao professor. O Paraná possui 345 colégios cívico-militares, com 190.144 estudantes.
Expandir vagas em creches = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO, DEPENDE DO ESTADO + OUTROS
Proposta literal — página 16: “Ampliar o programa de apoio à expansão da oferta de vagas em creches, em parceria com os municípios”.
A política já existe por meio de programas estaduais, mas a manutenção das vagas cabe aos municípios.
Revisar plataformas e ampliar tecnologia = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO
O plano prevê avaliar plataformas para “eliminar excessos” e ampliar internet rápida, laboratórios, robótica e inteligência artificial. A rede já utiliza plataformas, robótica e programação.
Valorizar professores = MUDANÇA ESTRUTURAL
Proposta — página 16: política permanente de valorização, formação, saúde mental, reconhecimento por resultados e melhores condições de trabalho.
Alterações de carreira e remuneração exigem orçamento e podem depender de lei.
Requião Filho (PDT): fim do Parceiro e revisão dos cívico-militares
As principais propostas estão na página 6 e incluem concursos, carreira docente, eleição de diretores, ensino integral e mudanças nos dois programas.
Encerrar o Parceiro da Escola = MUDANÇA ESTRUTURAL
Proposta literal — página 6: “Fim do Parceiro da Escola — Devolver ao poder público a gestão administrativa das unidades”.
Requião Filho reiterou na campanha que pretende acabar com a terceirização administrativa. O programa atende 95 escolas e foi instituído pela Lei Estadual nº 22.006/2024. Sua extinção integral pode exigir alteração legislativa e transição dos contratos vigentes.
Rever o modelo cívico-militar = MUDANÇA ESTRUTURAL
Proposta literal — página 6: submeter as escolas a avaliação independente e devolver à comunidade a decisão sobre o projeto pedagógico.
Na campanha, o candidato defendeu a volta das unidades ao modelo tradicional. A mudança atingiria uma rede de 345 unidades e pode exigir alterações normativas.
Concursos, carreira e diretores = MUDANÇA ESTRUTURAL
O plano prevê concursos periódicos, fortalecimento das carreiras e eleição periódica de diretores. Concursos dependem de vagas e capacidade fiscal; mudanças na direção podem exigir novas normas.
Luiz França (Missão): aprendizagem e proteção escolar
O Compromisso 13 do plano começa na página 66.
Priorizar Português e Matemática = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO
Proposta literal — página 66: “Língua Portuguesa e Matemática serão a prioridade pedagógica permanente da rede estadual.”
O próprio documento reconhece programas de avaliação, recomposição, plataformas e formação já existentes. A proposta reorganiza prioridades.
Código de Convivência e Proteção Escolar = MUDANÇA ESTRUTURAL
Proposta — página 68: padronizar respostas a bullying, ameaças, agressões, armas, tráfico e vandalismo.
Se criar novas sanções ou competências para outros órgãos, a medida poderá exigir legislação e articulação interinstitucional.
Formação técnica regional = DEPENDE DO ESTADO + OUTROS
Proposta — página 70: empresas, cooperativas, Sistema S, municípios e trabalhadores participariam da definição dos cursos técnicos oferecidos regionalmente.
O Estado já possui acordos de formação profissional. A novidade seria institucionalizar a consulta regional. Não foi localizada manifestação de campanha com transcrição verificável que detalhasse essas propostas além do plano registrado.
Alexandre Salomão (Mobiliza): PISA, contraturno e parcerias privadas
Usar o PISA como referência = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO
Proposta literal — página 9: “Vamos assumir a participação e o desempenho no PISA como meta de longo prazo”.
O Estado pode usar o exame da OCDE como referência, mas não controla sua metodologia ou aplicação.
Criar o Paraná dos Talentos = JÁ EXISTE/É EXPANSÃO, MUDANÇA ESTRUTURAL
A proposta prevê uma trilha de contraturno por escola nas áreas de ciência, esporte, artes, tecnologia ou empreendedorismo. Há programas de tecnologia e robótica, mas universalizar o contraturno exige professores, espaços e custeio.
Rever parcerias privadas = DEPENDE DO ESTADO + OUTROS
Salomão propõe avaliar as parcerias privadas antes de mantê-las, ajustá-las ou substituí-las. No Parceiro da Escola, alterações estruturais esbarram na Lei 22.006/2024 e nos contratos. Não foi localizada fala literal de campanha que modificasse essas propostas.
Tayná Miessa (UP): fim do Parceiro, cívico-militares e passe livre
As principais propostas aparecem nas páginas 7 e 8.
Encerrar Parceiro da Escola e cívico-militares = MUDANÇA ESTRUTURAL
Proposta literal — página 8: “Fim do Programa de Colégios Cívico-Militares; Reestatização da gestão privatizada das escolas incluídas no Programa Parceiro da Escola.”
A mudança alcançaria 345 colégios cívico-militares e 95 escolas no Parceiro. No segundo caso, também seria necessário tratar a Lei 22.006/2024 e os contratos vigentes.
Acabar com plataformas digitais pagas = MUDANÇA ESTRUTURAL
Proposta — página 8: encerrar contratos com plataformas pagas e desenvolver sistemas públicos com participação das universidades.
A transição exige respeito aos contratos atuais e estrutura técnica própria para desenvolver e manter os sistemas.
Passe livre estudantil = DEPENDE DO ESTADO + OUTROS | MUDANÇA ESTRUTURAL
Proposta literal — página 8: “Passe livre estudantil no transporte público municipal e intermunicipal”.
O Estado pode atuar diretamente no transporte intermunicipal. Nas linhas urbanas, precisa de municípios, convênios ou subsídios.
Cotas e fim do vestibular = MUDANÇA ESTRUTURAL
O programa prevê ampliar cotas, fortalecer restaurantes universitários, revogar a Lei Geral das Universidades e avançar para o fim do vestibular. Mudanças de ingresso precisam considerar a autonomia das universidades estaduais. As posições divulgadas na campanha permanecem alinhadas a esses eixos.
Samuel de Mattos (PSTU): ingresso universitário e cotas
Reservar 100% das vagas estaduais a alunos da rede pública = MUDANÇA ESTRUTURAL
Proposta literal — página 3: “Destinação de 100% das vagas nas universidades estaduais [...] para estudantes egressos da rede pública”.
A medida mudaria profundamente o ingresso e teria de ser compatibilizada com a autonomia universitária e princípios constitucionais, podendo gerar questionamentos judiciais.
Ampliar cotas = MUDANÇA ESTRUTURAL
Na página 6, o programa prevê ampliação de cotas raciais e criação de cotas para pessoas trans nas universidades e concursos. Parte das universidades já possui políticas de cotas; o plano amplia modalidades e abrangência.
Educação indígena, do campo e inclusão = DEPENDE DO ESTADO + OUTROS
O programa prevê escolas no campo, educação indígena, concursos para professores indígenas, intérpretes de Libras e atendimento a estudantes com deficiência. Algumas medidas dependem também da União, da Funai e das comunidades envolvidas. Não foi localizada transcrição pública que permita confrontar literalmente essas propostas com falas recentes do candidato.
Adriano Funileiro (PCO): livre ingresso, piso nacional e estatização
Fim dos vestibulares = MUDANÇA ESTRUTURAL
Proposta literal — página 8: “Fim dos vestibulares. Livre ingresso nas universidades.”
Um governador não pode abolir sozinho todas as formas de seleção universitária. Nas estaduais, também há autonomia acadêmica e limitações físicas de vagas.
Piso nacional de R$ 8,5 mil e jornada de 30 horas = DEPENDE DO ESTADO + OUTROS | MUDANÇA ESTRUTURAL
O programa propõe piso nacional de pelo menos R$ 8,5 mil para professores e jornada máxima de 30 horas. O Paraná pode mudar remuneração e jornada de sua rede. Um piso nacional exige legislação federal.
Estatização do ensino pago = DEPENDE DO ESTADO + OUTROS | MUDANÇA ESTRUTURAL
O plano defende a “estatização do ensino pago”. Uma estatização ampla exigiria fundamento legal, eventual desapropriação e indenização, além da incorporação de infraestrutura, estudantes e trabalhadores à rede pública. Não foi localizada declaração recente detalhando essas medidas além do programa.
O que já existe antes da eleição
Várias das propostas partem de políticas já implantadas. O Paraná tem 345 colégios cívico-militares. Moro propõe ampliar o modelo; Requião Filho e Tayná Miessa querem modificá-lo ou encerrá-lo. O Parceiro da Escola atende 95 unidades e tem base na Lei Estadual nº 22.006/2024. Requião e Tayná defendem sua extinção; Salomão propõe avaliá-lo antes de decidir sobre continuidade. Na educação infantil, o Infância Feliz já financia creches municipais, o que transforma as propostas de Sandro Alex e Moro principalmente em expansão do modelo. O Ganhando o Mundo e os convênios de formação profissional também já estão em funcionamento.
O que o governador pode fazer sozinho — e onde estão os limites
O próximo governo terá margem para alterar formação docente, alfabetização, tecnologia, ensino profissional, intercâmbio, infraestrutura e expansão do tempo integral. Concursos, carreira e reajustes podem exigir lei e espaço fiscal. Creches dependem das prefeituras para funcionar. O passe livre urbano depende dos municípios. Nas universidades estaduais, o governo financia e pode propor mudanças legais, mas precisa respeitar a autonomia acadêmica. O Parceiro da Escola também não desaparece automaticamente com uma mudança de governo. Como foi criado por lei e possui contratos vigentes, sua extinção integral pode exigir aprovação da Alep e uma transição contratual.
Continuidade e ruptura dividem os programas
Sandro Alex concentra propostas de continuidade e expansão. Moro preserva programas como os cívico-militares, mas propõe rever plataformas e ampliar ensino integral, tecnologia e creches. Requião Filho quer encerrar o Parceiro da Escola e revisar os cívico-militares. Luiz França prioriza aprendizagem, proteção escolar e formação técnica. Salomão aposta em contraturno e avaliação das parcerias privadas. Tayná Miessa propõe extinguir Parceiro da Escola e cívico-militares, substituir plataformas privadas e mudar políticas universitárias. Samuel de Mattos concentra mudanças no ingresso, cotas e expansão da prestação estatal. Adriano Funileiro apresenta propostas que, em vários casos, ultrapassam a competência estadual. A comparação permite separar o que o próximo governador poderá fazer diretamente, o que amplia ou desmonta políticas já existentes e o que dependerá de municípios, Assembleia Legislativa, universidades ou União.
Apuração considera os planos de governo registrados pelas oito candidaturas e informações públicas disponíveis até 29 de setembro de 2026. Quando não foi localizada manifestação literal de campanha sobre determinada proposta, a reportagem registra essa ausência sem atribuir declaração não documentada.
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