Debate da RPC: checagem confronta 12 declarações de Moro, Sandro Alex e Requião Filho com documentos oficiais
Gazeta do Paraná verificou afirmações feitas pelos três candidatos ao Governo do Paraná sobre STF, Banco Master, Copel, BR-277, educação, transplantes, Porto de Paranaguá e Ponte de Guaratuba; análise mostra o que é sustentado por registros públicos, o que exige ressalvas e o que permanece sem comprovação.
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A cinco dias do primeiro turno das Eleições 2026, o debate realizado pela RPC na noite de terça-feira (29) entre Sergio Moro (PL), Sandro Alex (PSD) e Requião Filho (PDT) foi marcado por confrontos sobre infraestrutura, educação, saúde, energia, segurança pública, Banco Master e decisões de governos estadual e federal.
Além das propostas eleitorais e das críticas entre os adversários, os candidatos apresentaram números, atribuíram decisões uns aos outros e fizeram afirmações sobre fatos passados que podem ser confrontados com documentos públicos.
A Gazeta do Paraná selecionou 12 declarações feitas durante o debate e consultou registros do Senado Federal, Câmara dos Deputados, Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Governo do Paraná, Polícia Federal, Secretaria de Estado da Educação, Secretaria de Estado da Saúde, Tribunal de Contas do Estado e Associação Brasileira de Transplante de Órgãos. Foram utilizadas seis classificações: verdadeira, verdadeira com ressalvas, imprecisa, enganosa, sem comprovação e falsa.
Sandro Alex: “Moro votou a favor de Flávio Dino para o STF”
Classificação: SEM COMPROVAÇÃO
Durante o primeiro bloco, Sandro Alex afirmou que Sergio Moro teria votado a favor da indicação de Flávio Dino ao Supremo Tribunal Federal. Moro negou e declarou ter votado contra. A indicação foi aprovada pelo Senado em 13 de dezembro de 2023, com 47 votos favoráveis, 31 contrários e duas abstenções. O problema para a checagem é que a votação foi secreta. O próprio sistema do Senado apresenta o resultado agregado, mas não revela qual voto foi dado individualmente por cada parlamentar. Por isso, não existe registro oficial que permita afirmar que Moro votou a favor de Dino. Pelo mesmo motivo, o registro oficial também não é suficiente para comprovar documentalmente a afirmação de Moro de que votou contra.
Conclusão: a acusação de Sandro Alex não pode ser comprovada pelo registro oficial da votação.
Sergio Moro: Sandro Alex priorizou estrada do Tayayá e deixou a Ponte de Guaratuba para depois
Classificação: IMPRECISA
No primeiro bloco, Moro contrapôs uma obra viária ligada ao acesso até o Tayayá Resort, em Ribeirão Claro, à demora para construção da Ponte de Guaratuba. A documentação disponível permite confirmar que houve investimentos públicos em obras viárias na região do empreendimento enquanto Sandro Alex ocupava a Secretaria de Infraestrutura.
A cronologia da Ponte de Guaratuba, porém, mostra um processo próprio. O Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental foi concluído em 2019. Entre 2020 e 2021, foram realizados estudos ambientais e o anteprojeto. O edital para construção foi lançado em julho de 2022. A obra passou posteriormente por licenciamento ambiental e disputas envolvendo órgãos de controle e o Judiciário. O que não aparece nos documentos é uma decisão administrativa demonstrando que a estrada ligada ao Tayayá tenha sido escolhida em substituição ou em detrimento da Ponte de Guaratuba. A existência das duas obras em momentos distintos não comprova, sozinha, uma relação de causa e efeito.
Conclusão: houve investimento público no acesso à região do Tayayá, mas não há prova documental de que essa obra tenha sido deliberadamente priorizada em prejuízo da Ponte de Guaratuba.
Sandro Alex: a Ponte de Guaratuba enfrentou entraves judiciais e administrativos
Classificação: VERDADEIRA
Ao responder a Moro, Sandro afirmou que a construção da Ponte de Guaratuba enfrentou entraves antes de ser executada. A cronologia oficial confirma que o projeto passou por diferentes etapas administrativas, ambientais, de controle externo e judiciais. O planejamento começou em 2019. O edital de contratação integrada foi lançado em 2022. O processo também envolveu discussões sobre licenciamento ambiental e ações judiciais. As obras começaram efetivamente em abril de 2024. A ponte foi concluída e inaugurada em abril de 2026.
Conclusão: a afirmação de que a obra enfrentou entraves judiciais, administrativos e ambientais é sustentada pelos registros públicos. A ressalva é que esses episódios não explicam, isoladamente, todos os anos anteriores ao início da construção.
Sergio Moro: resolução de 2021 autorizou o Credcesta no Paraná
Classificação: IMPRECISA
Durante a discussão sobre Banco Master e Credcesta, Moro citou uma “Resolução nº 12.057, de 2021” relacionada à entrada do produto no sistema de consignados estaduais. O núcleo da afirmação tem respaldo documental: o Credcesta, operado pela PKL One Participações, manteve relação com sistemas de consignação e convênios envolvendo servidores públicos.
O próprio Tribunal de Contas do Paraná analisou, em 2026, medidas relativas ao Credcesta e à PKL One, incluindo a possibilidade de suspensão de novas contratações e eventual denúncia do convênio. O documento também registra notícias de vínculos anteriores entre Credcesta e Banco Master. O problema está na identificação do ato. A numeração citada por Moro não corresponde ao ato que aparece nas reconstruções documentais relacionadas ao credenciamento. Além disso, a operação do produto não dependeu de uma única resolução isolada, mas de um conjunto de regras sobre consignações estaduais.
Conclusão: a relação do Credcesta com o sistema de consignações do Paraná é documentada, mas o número do ato citado no debate e a simplificação da sequência administrativa tornam a declaração imprecisa.
Sergio Moro: “Quem pediu reajuste de 20% da tarifa foi a Copel”
Classificação: IMPRECISA
Na discussão sobre energia elétrica, Moro afirmou que o reajuste próximo de 20% teria sido pedido pela própria Copel. O percentual tem correspondência com o processo tarifário de 2026. Em abril, a Aneel abriu a Consulta Pública nº 005/2026 para discutir a Revisão Tarifária Periódica da Copel Distribuição. A proposta preliminar previa: 19,15% para consumidores residenciais; 19,03% para baixa tensão; 19,55% para alta tensão; 19,20% de efeito médio para o consumidor.
A imprecisão está em dizer que a Copel simplesmente “pediu” um reajuste de 20%. A Revisão Tarifária Periódica é conduzida pela Aneel conforme metodologia regulatória. Segundo a agência, os fatores que mais contribuíram para o índice foram custos de transmissão, encargos setoriais e componentes financeiros do processo tarifário anterior. A concessionária fornece informações e custos ao processo, mas o índice não funciona como um preço definido unilateralmente pela empresa.
Conclusão: o percentual próximo de 20% existiu, mas a atribuição direta do índice a um simples “pedido da Copel” não descreve adequadamente o processo regulatório.
Requião Filho: “mais do que dobrou a fila do transplante”
Classificação: VERDADEIRA
Durante o debate sobre saúde, Requião Filho afirmou que a fila de pacientes aguardando transplantes no Paraná mais do que dobrou durante o atual governo. Os registros da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos confirmam o crescimento. Em 2019, o Paraná tinha 1.656 pacientes ativos em lista de espera, considerando todos os órgãos e córneas. Em dezembro de 2025, o número chegou a 4.481 pacientes ativos. Isso representa um crescimento superior a 100%.
Conclusão: a afirmação de que a fila mais do que dobrou está correta.
O dado, entretanto, precisa de contexto. O tamanho da lista não é, isoladamente, um indicador da eficiência do sistema. O número pode ser influenciado por mais pacientes cadastrados, capacidade de diagnóstico, envelhecimento populacional, tempo de sobrevivência enquanto se aguarda um órgão e disponibilidade de doadores. Assim, o crescimento da fila não significa automaticamente que o sistema de transplantes tenha piorado.
Requião Filho: “Hoje, a maioria dos professores no Paraná são PSS”
Classificação: FALSA
No debate sobre educação, Requião afirmou que a maioria dos professores da rede estadual seria contratada temporariamente pelo Processo Seletivo Simplificado. Os números divulgados pela própria Secretaria da Educação mostram uma composição diferente. No início de 2026, a rede estadual tinha mais de 48 mil professores efetivos e cerca de 33 mil profissionais contratados por PSS. Os temporários representam uma parcela relevante do quadro docente, mas não são maioria.
Conclusão: a afirmação é falsa. Há dezenas de milhares de professores temporários, mas o número de efetivos permanece superior ao de PSS nos dados oficiais disponíveis.
Requião Filho: “nove em cada dez professores” desaprovam o governo
Classificação: SEM COMPROVAÇÃO
Ainda no debate sobre educação, Requião afirmou que o governo estadual seria desaprovado por nove em cada dez professores. Para comprovar um percentual de 90% entre toda a categoria seria necessária uma pesquisa com informações mínimas como instituto responsável, tamanho da amostra, método de seleção, período de coleta, pergunta feita e margem de erro. Não foi localizada pesquisa pública com essas características que demonstre uma desaprovação de 90% entre os professores estaduais. Há assembleias sindicais e consultas internas nas quais percentuais elevados de participantes rejeitaram medidas específicas do governo. Esse tipo de votação, entretanto, não pode ser tratado automaticamente como pesquisa representativa de todos os professores da rede.
Conclusão: sem identificação da pesquisa ou levantamento metodologicamente representativo, a afirmação permanece sem comprovação.
Sandro Alex: “Eu serei o governador que vai entregar toda a duplicação da BR-277”
Classificação do dado verificável: VERDADEIRA COM RESSALVAS
Durante o terceiro bloco, ao falar sobre infraestrutura, Sandro Alex afirmou: “Eu serei o governador que vai entregar toda a duplicação da BR-277. Não vou permitir que parem essa obra. Nós vamos entregar 1.800 quilômetros de duplicação.” A fala reúne uma promessa eleitoral e um dado objetivo.
A primeira parte — entregar toda a duplicação da BR-277 — é uma promessa futura. Por isso, não pode ser classificada agora como verdadeira ou falsa. Em setembro de 2026 ainda havia obras futuras previstas na rodovia. Em Matelândia, por exemplo, a ANTT informou em 23 de setembro que um trecho de aproximadamente cinco quilômetros tinha entrega prevista para maio de 2028.
A segunda parte da fala — os 1.800 quilômetros de duplicação — tem origem em números oficiais. O programa das concessões rodoviárias do Paraná foi estruturado com previsão de 1.783 quilômetros de duplicações em diferentes rodovias dos seis lotes. O próprio Sandro Alex, quando era secretário estadual de Infraestrutura, já utilizava o arredondamento para “quase 1.800 km” ao falar sobre BR-277, BR-376, BR-369 e outras estradas.
A ressalva é fundamental: os 1,8 mil quilômetros não correspondem somente à BR-277, mas ao conjunto de rodovias estaduais e federais incluídas no programa. Também não representam quilômetros já concluídos.
Conclusão: o número de aproximadamente 1,8 mil quilômetros tem respaldo no planejamento das concessões, mas se refere ao conjunto das rodovias e a obras previstas ao longo dos contratos.
A promessa de Sandro de concluir toda a duplicação da BR-277 não recebe classificação factual por tratar de uma ação futura.
Requião Filho: crime organizado utiliza o Porto de Paranaguá para tráfico de drogas
Classificação: VERDADEIRA COM RESSALVAS
Durante o confronto sobre segurança pública e o Porto de Paranaguá, Requião afirmou que a estrutura portuária é utilizada pelo crime organizado para o tráfico internacional de drogas. A existência de operações de tráfico através do porto está amplamente documentada. Em agosto de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Azimute para investigar tráfico internacional de drogas mediante a estrutura logística portuária de Paranaguá. A investigação teve origem na apreensão de aproximadamente 22 quilos de cocaína. Em 24 de setembro, cinco dias antes do debate, a PF apreendeu aproximadamente 226 quilos de cocaína no Porto de Paranaguá. Os registros demonstram objetivamente o uso da estrutura portuária para operações de tráfico internacional.
Conclusão: é correto dizer que o Porto de Paranaguá é utilizado como rota para tráfico de drogas.
A ressalva é que nem toda apreensão pode ser automaticamente atribuída a uma organização criminosa ou facção específica. Essa ligação precisa ser comprovada individualmente pelas investigações. Os casos também não indicam participação ou conivência da administração do porto.
Requião Filho: bebidas com metanol entraram pelo Porto de Paranaguá
Classificação: SEM COMPROVAÇÃO
Durante o mesmo debate sobre segurança e fiscalização portuária, Requião associou bebidas adulteradas ou contaminadas por metanol à entrada de produtos pelo Porto de Paranaguá. O Paraná realmente registrou casos de intoxicação por metanol após consumo de bebidas alcoólicas. A Secretaria Estadual da Saúde confirmou casos e abriu investigação epidemiológica sobre os produtos envolvidos. Em outubro de 2025, por exemplo, havia dois casos confirmados e outros em investigação. O que os documentos públicos consultados não estabelecem é a rota de entrada dessas bebidas pelo Porto de Paranaguá. A existência de bebidas adulteradas no Estado, fiscalizações ou casos em cidades paranaenses não comprova que os produtos tenham sido importados pelo terminal portuário.
Conclusão: existem casos documentados de intoxicação por metanol, mas não foi localizado documento oficial que estabeleça o elo específico entre as bebidas investigadas e sua entrada pelo Porto de Paranaguá.
Sandro Alex: Filipe Barros apresentou projeto para elevar cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão
Classificação: VERDADEIRA COM RESSALVAS
Durante o confronto sobre Banco Master, Sandro Alex afirmou que Filipe Barros, aliado de Moro, havia apresentado projeto para ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite relacionado ao Fundo Garantidor de Créditos. O projeto existe. Filipe Barros apresentou em 14 de novembro de 2024 o PL 4.395/2024. Segundo a ementa oficial da Câmara, a proposta aumentava a cobertura do FGC para até R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ em uma instituição financeira. O texto previa aplicação da cobertura em situações como falência, intervenção, liquidação extrajudicial ou insolvência da instituição financeira. Em 3 de fevereiro de 2026, o projeto foi retirado de tramitação a pedido do próprio autor. A ressalva está na terminologia utilizada em algumas versões da discussão. Não se tratava de ampliar um “saque” do FGC. A proposta tratava do limite de cobertura da garantia, acionada em circunstâncias específicas.
Conclusão: é correto afirmar que Filipe Barros apresentou projeto para elevar o teto de cobertura para R$ 1 milhão. O projeto, porém, foi retirado antes do debate e não tratava de um saque livre de recursos.
O que a checagem mostra
Entre as 12 declarações analisadas pela Gazeta do Paraná, duas foram classificadas como verdadeiras, três como verdadeiras com ressalvas, três como imprecisas, uma como falsa e três como sem comprovação.
No caso da declaração de Sandro Alex sobre a BR-277, a classificação recai exclusivamente sobre o dado de aproximadamente 1,8 mil quilômetros previsto no programa de concessões. A promessa de concluir as obras é futura e, portanto, não recebe veredito.
A análise também mostra que parte das afirmações feitas no debate parte de fatos documentados, mas chega ao confronto eleitoral de forma resumida ou sem contexto. É o caso da revisão tarifária da Copel: o percentual próximo de 20% existiu, mas resulta de um processo regulatório da Aneel. Também ocorre no debate sobre infraestrutura: há obras previstas e contratadas, mas números referentes ao conjunto das concessões não podem ser atribuídos somente à BR-277.
Em outros pontos, existe um limite documental claro. O Senado, por exemplo, confirma o resultado da votação de Flávio Dino, mas o caráter secreto do escrutínio impede identificar oficialmente o voto individual de Sergio Moro. Da mesma maneira, os registros confirmam casos de intoxicação por metanol no Paraná, mas até agora não demonstram que as bebidas envolvidas tenham entrado no Estado pelo Porto de Paranaguá.
O objetivo da checagem não é avaliar programas de governo nem apontar qual candidato teve melhor desempenho no debate. A proposta é mostrar ao leitor o que pode ser comprovado por documentos públicos, o que exige contexto e o que permanece sem sustentação documental disponível.
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