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Flávio Bolsonaro em live: Gazeta checou as declarações do candidato na reta final da campanha

Candidato do PL usou transmissão na noite de quinta-feira para criticar Lula, falar sobre economia, apostas, fome, violência contra mulheres e o cancelamento do debate da Globo

Ana Zimermann · · 8 min de leitura
Flávio Bolsonaro durante live realizada na noite de 1º de outubro, após desistir de participar do debate presidencial da TV Globo
Flávio Bolsonaro durante live realizada na noite de 1º de outubro, após desistir de participar do debate presidencial da TV Globo — Crédito: Divulgação

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A três dias do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para domingo, 4 de outubro, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) realizou, na noite desta quinta-feira (1º), uma transmissão ao vivo pelas redes sociais em substituição à participação no último debate presidencial que seria promovido pela TV Globo. A live ocorreu depois de uma sequência de decisões judiciais que alteraram regras previstas pela emissora para o encontro. Horas antes do programa, Flávio anunciou que não compareceria, atribuindo sua decisão ao que chamou de “censura”. Posteriormente, a Globo cancelou o debate e afirmou que decisões judiciais de última hora haviam criado insegurança jurídica e interferido no formato acertado previamente com os partidos.

Durante a transmissão, Flávio recebeu aliados e candidatos de diferentes estados. Para esta checagem, a Gazeta do Paraná considerou exclusivamente afirmações pronunciadas pelo próprio candidato à Presidência, deixando de fora declarações feitas pelos demais participantes. As falas foram confrontadas com dados do TSE, legislação federal, informações do Senado, indicadores sociais e registros públicos.

1. “Nós estamos no Rio de Janeiro e fomos impedidos [de ir ao debate] por causa de uma censura”

Classificação: falsa

Flávio Bolsonaro não foi formalmente impedido pela Justiça de participar do debate. O próprio candidato anunciou, às 19h24 de quinta-feira, que havia decidido não comparecer ao programa. A Globo anunciou o cancelamento posteriormente, às 20h39. Antes disso, o TSE havia proibido a emissora de exibir o púlpito vazio destinado a Lula, que já havia informado que não participaria, e o STF determinou a inclusão de Renan Santos (Missão) no evento. Nenhuma das decisões proibiu Flávio Bolsonaro de comparecer. Portanto, houve interferência judicial sobre as regras do debate — algo que a própria Globo criticou —, mas não uma decisão que impedisse Flávio de participar.

2. “O debate da Globo foi censurado”

Classificação: imprecisa

Não houve decisão judicial determinando a proibição ou o cancelamento do debate. O TSE modificou uma das regras ao impedir a exibição do púlpito vazio de Lula. Pouco depois, o STF determinou que Renan Santos fosse incluído entre os participantes. Flávio então desistiu do encontro e a Globo decidiu cancelá-lo.

A emissora afirmou que as decisões representavam interferência indevida na liberdade de organização dos debates e que o cenário havia gerado insegurança jurídica. Assim, é correto dizer que houve decisões judiciais interferindo no formato originalmente planejado, mas não que a Justiça tenha censurado ou proibido a realização do debate.

3. “32 milhões que não votaram nas últimas eleições [presidenciais]”

Classificação: verdadeira

Os números correspondem aos registros do Tribunal Superior Eleitoral. No primeiro turno das eleições de 2022, 32.770.982 eleitores deixaram de votar, o equivalente a 20,95% do eleitorado apto. No segundo turno, a abstenção ficou em aproximadamente 32,2 milhões de pessoas. A referência de Flávio a “32 milhões” é, portanto, compatível com os dados oficiais.

4. “Você [Lula] que deixou o povo brasileiro endividado”

Classificação: verdadeira com ressalvas

Os dados mostram um crescimento expressivo da inadimplência durante o atual governo, mas atribuir todo o fenômeno a Lula desconsidera que a tendência já existia antes de janeiro de 2023. Quando Lula iniciou o mandato, em janeiro de 2023, o Brasil tinha aproximadamente 70,09 milhões de pessoas inadimplentes. Em agosto de 2026, esse número havia alcançado 83,9 milhões, segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa. O aumento, porém, não começou no atual governo. Em dezembro de 2022, último mês da gestão Jair Bolsonaro, já havia cerca de 69,4 milhões de brasileiros com contas atrasadas. Além disso, “endividamento” e “inadimplência” não são exatamente a mesma coisa: uma pessoa pode possuir dívidas e continuar pagando-as normalmente. Os números utilizados nessa comparação são de consumidores inadimplentes.

5. “Você [Lula] que deixou o povo brasileiro (…) com fome”

Classificação: enganosa

Os indicadores disponíveis não sustentam a ideia de que o Brasil terminou o atual mandato em trajetória de aumento da fome. Em julho de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) informou que o Brasil havia voltado a ficar abaixo do limite utilizado para integrar o chamado Mapa da Fome: menos de 2,5% da população em situação de subalimentação no período considerado pelo levantamento.

O país havia retornado ao Mapa da Fome durante o período da pandemia e voltou a deixar a lista na atual administração. Indicadores do IBGE também apontaram redução da pobreza nos primeiros anos do mandato. Isso não significa que a fome ou a insegurança alimentar tenham desaparecido do Brasil. Ainda existem brasileiros em diferentes níveis de insegurança alimentar. O problema da declaração é atribuir ao atual governo uma piora generalizada incompatível com a direção mostrada pelos principais indicadores nacionais disponíveis.

6. “[Nos últimos quatro anos o Brasil teve] recorde de mulheres assassinadas”

Classificação: imprecisa

A afirmação mistura dois indicadores diferentes. O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios da série recente, com 1.571 casos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Por outro lado, o número total de mulheres vítimas de homicídio não atingiu recorde. Foram 3.934 assassinatos de mulheres em 2022 e 3.539 em 2025, uma redução no período.

Portanto, a afirmação seria sustentada se Flávio tivesse falado especificamente em feminicídios. Ao utilizar a expressão mais ampla “mulheres assassinadas”, a declaração não corresponde aos dados.

7. “Lula, você que é o pai do Tigrinho”

Classificação: enganosa

A expressão atribui a Lula a criação do mercado brasileiro de apostas on-line, mas a cronologia legislativa começa antes de seu atual mandato. A modalidade de apostas de quota fixa foi instituída pela Lei nº 13.756, sancionada em dezembro de 2018 pelo então presidente Michel Temer. A norma permitiu sua exploração em ambiente concorrencial e estabeleceu prazo para regulamentação. 

Durante o governo Jair Bolsonaro, a regulamentação prevista na legislação de 2018 não foi concluída. Já no governo Lula, o Congresso aprovou e o presidente sancionou a Lei nº 14.790/2023, que estabeleceu regras de autorização, tributação e fiscalização do mercado. Assim, o governo Lula teve participação decisiva na regulamentação e estruturação do mercado atualmente autorizado, mas não foi responsável por criar a modalidade legal no Brasil. A autorização original ocorreu no governo Temer.

8. “Assinei uma PEC e eu vou cumprir essa PEC para acabar com a reeleição”

Classificação: verdadeira com ressalvas

Flávio Bolsonaro efetivamente apresentou ao Senado a PEC nº 4/2026, em 2 de março. A proposta modifica a Constituição para impedir que quem ocupe a Presidência da República concorra ao mandato presidencial imediatamente subsequente. A ressalva é que o texto apresentado por Flávio trata diretamente da reeleição para presidente. Ele não elimina, na redação original apresentada pelo senador, a possibilidade de reeleição de governadores e prefeitos. Além disso, uma PEC não pode ser “cumprida” unilateralmente pelo presidente. Para entrar em vigor, precisa ser aprovada em dois turnos pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, com o apoio de três quintos dos parlamentares em cada votação.

9. “Eu tenho um irmão exilado nos Estados Unidos”

Classificação: imprecisa

Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos, mas a palavra “exilado” exige contexto. O ex-deputado anunciou em março de 2025 que permaneceria voluntariamente nos Estados Unidos e inicialmente se licenciaria do mandato para atuar politicamente no país. Naquele momento, não era alvo de ordem judicial que o obrigasse a deixar o Brasil nem havia impedimento para seu retorno.

Posteriormente, Eduardo passou a ser investigado no Brasil e, em 2026, foi condenado pelo STF. Também recebeu autorização de residência permanente nos Estados Unidos. Não há, contudo, indicação nos registros consultados de que ele tenha sido formalmente expulso do Brasil ou obrigado pelo Estado brasileiro a viver no exterior. Por isso, a caracterização como “exilado” não descreve com precisão a forma como sua permanência nos Estados Unidos começou.

10. “Não tinha corrupção [no governo de Jair Bolsonaro]”

Classificação: falsa

A afirmação é absoluta e não corresponde aos próprios registros oficiais do período. A Controladoria-Geral da União registra dezenas de operações especiais de combate à corrupção e desvio de recursos federais realizadas durante os quatro anos do governo Bolsonaro: foram 59 operações em 2019, 96 em 2020, 64 em 2021 e 46 em 2022. Parte dessas ações envolvia recursos federais administrados por estados e municípios, portanto os números não significam que todos os casos fossem esquemas instalados diretamente dentro dos ministérios. Eles demonstram, contudo, que houve ocorrências e investigações de corrupção envolvendo dinheiro público federal durante aquele período.

Também houve investigações diretamente relacionadas a integrantes ou estruturas da administração federal. No caso do Ministério da Educação, por exemplo, foram abertas apurações sobre a atuação de pastores na intermediação de recursos do MEC; o caso chegou ao STF no Inquérito 4.896. Outras suspeitas, como a relacionada à negociação da vacina Covaxin, foram investigadas por órgãos de controle e posteriormente tiveram procedimentos arquivados, circunstância que precisa ser mencionada para não confundir suspeitas com corrupção comprovada. Dessa forma, a afirmação genérica de que “não tinha corrupção” não encontra respaldo documental.

O que ficou fora desta checagem

A live contou também com declarações sobre juros, falências empresariais, carga tributária, criminalidade e falas anteriores de Lula. Parte delas foi pronunciada por outros participantes da transmissão, entre eles integrantes e apoiadores da campanha. Essas afirmações foram excluídas desta reportagem para manter o levantamento restrito exclusivamente ao que foi dito por Flávio Bolsonaro. 

 

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