Lula no Flow: declarações do presidente passam por checagem da Gazeta
Entrevista alcançou cerca de 1,65 milhão de espectadores simultâneos e 10 milhões de visualizações no YouTube nas horas seguintes; confrontamos as principais afirmações com dados e documentos
🎧 Ouça esta matéria — narrado por IA
Na reta final do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escolheu um formato diferente daquele que tradicionalmente concentra as atenções nessa fase das eleições. Em vez de participar do debate marcado (e depois cancelado) pela TV Globo para a noite de quinta-feira (1°), o presidente participou de uma entrevista de aproximadamente 1h40 no Flow Podcast, transmitida pelo YouTube. Lula havia comunicado antecipadamente que não participaria do debate. No Flow, justificou a decisão afirmando considerar o modelo de debates com vários candidatos “infrutífero”, com pouco tempo para discussão de propostas e espaço excessivo, segundo ele, para provocações e tentativas de repercussão nas redes sociais.
O Flow registrou cerca de 1,65 milhão de espectadores simultâneos no pico, segundo acompanhamento publicado pelo Notícias da TV, com média próxima de 1,5 milhão ao longo da entrevista. Em 2022, a participação de Lula no mesmo podcast havia atingido pico de aproximadamente 1,087 milhão.
Um levantamento pontual da Veja, às 22h40, encontrou 1.640.193 pessoas assistindo ao Flow, além de outras 153.683 na retransmissão pelo canal de Lula. Naquele mesmo instante, a live de Flávio Bolsonaro registrava 534.560 espectadores. O alcance continuou crescendo depois do encerramento. Na manhã desta sexta-feira, 2 de outubro, a entrevista havia atingido 10 milhões de visualizações no YouTube, enquanto a transmissão de Flávio acumulava aproximadamente 5 milhões, segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo.
A opção pelo Flow colocou Lula diante de uma audiência digital numerosa e produziu uma entrevista longa, sem o limite de um ou dois minutos típico dos debates. Isso também ampliou o número de afirmações verificáveis feitas pelo presidente. A Gazeta do Paraná selecionou 20 declarações com maior possibilidade de verificação documental, priorizando números, acontecimentos históricos, registros funcionais e informações que podem ser confrontadas com bases oficiais.
1. “Tomaram metade do Orçamento da União"
CLASSIFICAÇÃO: FALSA
Durante a entrevista, Lula afirmou que, no governo Bolsonaro, congressistas “sequestraram o Orçamento” e “tomaram metade do Orçamento da União”, ao criticar o crescimento das emendas parlamentares. A afirmação não corresponde ao Orçamento da União tomado em seu sentido literal. A Lei Orçamentária de 2022, último ano completo do governo Bolsonaro, fixou despesas de R$ 4,826 trilhões. Desse montante, cerca de R$ 1,885 trilhão correspondia ao refinanciamento da dívida pública.
Naquele mesmo orçamento, foram destinados cerca de R$ 10,93 bilhões às emendas individuais, R$ 7,54 bilhões às emendas de bancada e R$ 16,5 bilhões às então chamadas emendas de relator, as RP9. Mesmo somando essas rubricas, chega-se a algo próximo de R$ 35 bilhões, muito distante de metade dos R$ 4,8 trilhões do Orçamento federal. É possível sustentar que as emendas passaram a representar parcela relevante das despesas discricionárias — aquelas sobre as quais o governo possui maior liberdade de decisão —, mas isso é diferente de dizer que o Congresso passou a controlar metade de todo o Orçamento da União.
A expressão “metade do Orçamento da União” não encontra respaldo nos números da LOA de 2022. Para que uma proporção próxima disso apareça, seria necessário utilizar um subconjunto muito mais restrito das despesas federais e explicitar qual é o denominador utilizado.
2. STF estaria obrigando parte das emendas a seguir programas federais
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA COM RESSALVAS
Lula afirmou que o Supremo “está ajudando” ao estabelecer que parte das emendas deve ser inserida em programas do governo federal, especialmente na saúde. A descrição tem fundamento, mas simplifica um processo mais amplo. Desde 2024, o STF vem impondo exigências de transparência, rastreabilidade, identificação dos beneficiários, planos de trabalho e compatibilidade com políticas públicas para a execução das emendas parlamentares.
A Constituição também determina que metade do limite destinado às emendas individuais seja aplicada em ações e serviços públicos de saúde. A Lei Complementar 210/2024 e decisões posteriores do STF reforçaram critérios para a destinação dos recursos.
Está correto dizer que o Supremo estabeleceu restrições e exigências que vinculam a execução de determinadas emendas às políticas públicas. A ressalva é que essas decisões não devolveram genericamente ao Executivo o poder de decidir o destino das emendas.
3. Emendas Pix estão hoje sujeitas a controle e rastreabilidade
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA
Ao tratar das emendas, Lula citou as intervenções do STF sobre mecanismos que anteriormente permitiam repasses com pouca rastreabilidade. As chamadas emendas Pix são transferências especiais feitas diretamente a estados e municípios. O STF determinou que esses recursos sejam submetidos a requisitos de transparência e rastreabilidade, incluindo plano de trabalho e conta específica.
Em agosto de 2026, o ministro Flávio Dino também determinou que a Polícia Federal apurasse possíveis crimes relacionados a transferências após auditoria do TCU identificar problemas em 100 emendas Pix que somavam R$ 198,1 milhões. O próprio STF informou que, entre 2020 e 2024, estados e municípios receberam mais de R$ 17,5 bilhões nessa modalidade. É correto afirmar que as emendas Pix passaram a sofrer controles mais rígidos de rastreabilidade, planejamento e fiscalização. Isso não significa que todas as falhas tenham desaparecido.
4. Tarifas dos EUA provocaram queda de 9,7% no comércio com o Brasil
CLASSIFICAÇÃO: IMPRECISA
Lula afirmou que as medidas tarifárias americanas provocaram uma queda de 9,7% na relação comercial com os Estados Unidos. O percentual depende do período e da variável analisada. O MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) informou que, no primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 13% na comparação com igual período de 2025. A corrente de comércio bilateral — exportações mais importações — caiu 12,8%.
O percentual próximo de 9,7% aparece em recortes posteriores relacionados às exportações brasileiras, mas não equivale automaticamente a uma queda de 9,7% em toda a “relação comercial”. O próprio MDIC confirmou que as trocas comerciais perderam dinamismo em 2026 e relacionou esse movimento ao ambiente de sobretaxas e incerteza comercial. A redução do comércio é real, mas a maneira como Lula apresentou o percentual mistura indicadores diferentes. O correto é informar período e variável — exportações ou corrente de comércio.
5. Estados Unidos não têm déficit comercial com o Brasil
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA
Lula contestou a justificativa americana de déficit comercial e afirmou que ocorre justamente o contrário. Dados oficiais americanos mostram que os Estados Unidos possuem saldo favorável relevante na relação bilateral quando considerados bens e serviços. Em 2025, os americanos registraram superávit no comércio de bens com o Brasil e também saldo positivo ainda maior em serviços. A essência da declaração está correta: no recorte abrangente de bens e serviços, os Estados Unidos possuem superávit comercial com o Brasil, e não déficit.
6. EUA acumularam mais de US$ 400 bilhões de superávit com o Brasil
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA COM RESSALVAS
Lula citou um superávit americano acumulado próximo de US$ 415 bilhões. Cálculos oficiais apresentados pelo governo brasileiro com base nos dados do Bureau of Economic Analysis dos Estados Unidos apontam saldo acumulado de aproximadamente US$ 424,5 bilhões entre 2011 e 2025, considerando bens e serviços. A diferença em relação aos US$ 415 bilhões citados por Lula pode decorrer do intervalo temporal e da atualização da série utilizada. A ordem de grandeza está correta. A ressalva é que o valor muda conforme o período adotado; no recorte atualizado de 2011 a 2025, chega a aproximadamente US$ 424,5 bilhões.
7. Estados Unidos dependem do nióbio brasileiro
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA
Lula utilizou o nióbio como exemplo de produto estratégico brasileiro necessário aos Estados Unidos. O US Geological Survey aponta que os Estados Unidos dependem integralmente de importações para atender ao consumo de nióbio. O Brasil é o principal fornecedor americano e concentra a maior parte da produção mundial do mineral. A afirmação central é sustentada pelos dados: os Estados Unidos possuem forte dependência do nióbio importado e o Brasil ocupa posição dominante nesse mercado.
8. “O Brasil só cresceu acima de 3% quando eu voltei”
CLASSIFICAÇÃO: FALSA
A série histórica do IBGE mostra crescimento superior a 3% em outros governos depois do segundo mandato de Lula. Em 2011, o PIB cresceu 3,9% e, em 2021, 4,8%. Além disso, já no atual governo Lula, o crescimento de 2025 foi de 2,3%, abaixo dos 3%. O país registrou crescimento superior a 3% entre os governos Lula. Portanto, tomada literalmente, a afirmação não corresponde à série oficial do PIB.
9. Alimentos subiram cerca de 56% no governo Bolsonaro
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA COM RESSALVAS
Lula afirmou que a inflação dos alimentos chegou a aproximadamente 56% durante o governo Bolsonaro. É possível chegar a um percentual próximo de 56% utilizando o IPC-Fipe. Entretanto, o IPCA do IBGE — indicador oficial da inflação brasileira — produz resultado diferente para Alimentação e Bebidas no período entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022. O percentual citado existe em uma medida de inflação, mas Lula não explicou qual índice estava usando. Como o resultado varia de acordo com o indicador, a informação necessita dessa ressalva.
10. No atual governo, alimentos teriam subido somente 13%
CLASSIFICAÇÃO: IMPRECISA
Lula contrapôs os aproximadamente 56% anteriores a uma inflação dos alimentos próxima de 13% em seu atual mandato. Até agosto de 2026, os principais cálculos acumulados para alimentação desde janeiro de 2023 estavam mais próximos de 16% do que de 13%. A diferença não é apenas arredondamento e exige identificar qual índice e período Lula utilizou. A trajetória mostra inflação de alimentos significativamente inferior à registrada em alguns recortes de 2019 a 2022, mas os 13% não correspondem ao acumulado dos principais indicadores disponíveis para todo o período citado.
11. “A primeira reforma do Poder Judiciário fui eu que fiz”
CLASSIFICAÇÃO: IMPRECISA
A chamada Reforma do Judiciário foi promulgada em dezembro de 2004, durante o primeiro governo Lula, por meio da Emenda Constitucional 45. A proposta, porém, começou muito antes. A PEC 96/1992 foi apresentada em 26 de março de 1992 pelo então deputado Hélio Bicudo e já propunha modificações na estrutura do Judiciário. A própria Câmara registra que essa proposição foi transformada na EC 45/2004. A matéria passou por mais de uma década de tramitação antes da promulgação. Lula presidia o país quando a reforma foi concluída e promulgada, mas a proposta que lhe deu origem começou a tramitar 12 anos antes de sua chegada à Presidência.
12. Pacto Brasil contra o Feminicídio foi criado pelos três Poderes
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA
Lula citou a articulação nacional contra o feminicídio envolvendo Executivo, Legislativo e Judiciário. O Pacto Brasil contra o Feminicídio foi efetivamente lançado em 4 de fevereiro de 2026, com participação formal dos três Poderes. O pacto prevê integração de políticas de prevenção, proteção às mulheres, responsabilização de agressores e fortalecimento da rede de atendimento. A existência do pacto, a data de lançamento e sua natureza tripartite são documentalmente comprovadas.
13. O pacto já produziu redução do feminicídio
CLASSIFICAÇÃO: IMPRECISA
O governo apresentou balanços dos primeiros meses indicando ampliação de ações de prevenção, fortalecimento da rede de proteção e mobilização institucional. Isso não equivale a demonstrar que o pacto tenha provocado redução nacional do número de feminicídios. Para estabelecer essa relação seria necessário analisar séries completas de ocorrências, diferenças entre estados, tendências anteriores e o intervalo muito curto desde o lançamento do pacto em fevereiro de 2026. Há resultados administrativos e ações concretas documentadas, mas ainda não há base suficiente para atribuir ao pacto uma eventual redução nacional dos feminicídios.
14. Lula recebeu ministérios “desmontados” em 2023
CLASSIFICAÇÃO: IMPRECISA
Lula afirmou ter encontrado áreas e ministérios do governo federal desmontados quando assumiu a Presidência em janeiro de 2023. O relatório final da transição de 2022-2023 apontou problemas de orçamento, estrutura, pessoal, estoques e execução de diversas políticas públicas e utilizou a expressão “desmonte” para descrever parte da situação encontrada. Entretanto, esse documento foi elaborado pela equipe do governo eleito. Além disso, a situação não era uniforme. Algumas políticas haviam perdido recursos ou capacidade operacional; outras permaneceram em funcionamento. Há evidências documentais de redução ou deterioração em políticas e estruturas específicas, mas transformar isso na afirmação de que os ministérios, de forma geral, estavam “desmontados” generaliza situações diferentes.
15. Minha Casa, Minha Vida estava parado e foi retomado
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA COM RESSALVAS
O Minha Casa, Minha Vida foi substituído pelo Casa Verde e Amarela em 2020. Segundo o Ministério das Cidades, as novas contratações da modalidade habitacional fortemente subsidiada para as famílias de menor renda já haviam sido interrompidas anteriormente, enquanto financiamentos e obras contratadas continuavam. Em fevereiro de 2023, o governo Lula relançou oficialmente o Minha Casa, Minha Vida. É correto falar em retomada do Minha Casa, Minha Vida e das contratações subsidiadas. A ressalva é que não houve ausência completa de política habitacional entre 2019 e 2022, já que o Casa Verde e Amarela e financiamentos continuaram existindo.
16. O governo atingiu dois milhões de moradias no Minha Casa, Minha Vida
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA COM RESSALVAS
A meta do governo para 2023-2026 foi alcançar pelo menos dois milhões de operações habitacionais. Documentos oficiais de 2026 informam que a meta foi atingida considerando as diversas modalidades de contratação do Minha Casa, Minha Vida. Isso não significa, porém, que dois milhões de novas residências tenham sido concluídas e entregues às famílias. Os números incluem contratos, financiamentos, empreendimentos em diferentes estágios e modalidades do programa. O marco de dois milhões é sustentado quando entendido como contratações/operações habitacionais. Apresentá-lo como dois milhões de casas novas já entregues produziria interpretação errada.
17. Governo investigou as fraudes do INSS durante dois anos
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA COM RESSALVAS
Lula afirmou que seu governo passou cerca de dois anos investigando o esquema antes da Operação Sem Desconto. Registros da CGU apontam que as apurações sobre o crescimento dos descontos associativos e das entidades envolvidas começaram em 2023. A Operação Sem Desconto foi deflagrada em 23 de abril de 2025, e a própria CGU registra oficialmente essa data em sua relação de operações especiais. Há, portanto, aproximadamente dois anos entre o início das apurações administrativas e a operação. A cronologia geral sustenta a fala. A ressalva é que isso não significa que Polícia Federal e CGU tenham conduzido durante exatamente dois anos uma investigação criminal única, ininterrupta e com o mesmo escopo.
18. “Cerca de 5 milhões de aposentados” foram lesados
CLASSIFICAÇÃO: IMPRECISA
Lula disse que aproximadamente cinco milhões de aposentados teriam sido atingidos pelo esquema de descontos. As investigações encontraram um universo de milhões de beneficiários submetidos a descontos associativos e valores de bilhões de reais movimentados pelas entidades. Mas nem todos os descontos realizados eram necessariamente fraudulentos. Com a abertura do sistema de contestação, o governo passou a individualizar quem reconhecia ou não ter autorizado as cobranças. O número pode ser utilizado como estimativa do universo potencialmente atingido em determinadas etapas da apuração, mas não equivale a cinco milhões de vítimas individualmente comprovadas de fraude.
19. Frei Chico não estava pessoalmente envolvido na fraude do INSS
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA COM RESSALVAS
Na entrevista, Lula defendeu a distinção entre a investigação do Sindnapi e eventual responsabilidade pessoal de seu irmão José Ferreira da Silva, o Frei Chico. Frei Chico ocupa cargo de direção no Sindnapi, uma das entidades investigadas no caso dos descontos associativos. O sindicato foi alvo de medidas da Polícia Federal. Entretanto, nos atos públicos conhecidos das investigações, Frei Chico não aparecia formalmente como alvo pessoal das medidas que atingiram a entidade e outros dirigentes. É correto distinguir a investigação da entidade de uma imputação criminal individual ao irmão de Lula. A ressalva é que sua posição de dirigente do Sindnapi constitui vínculo institucional relevante e pode ser objeto de apuração, sem que isso represente prova de participação nas irregularidades.
20. “Hoje o Brasil tem 25 milhões e meio [de pessoas com diploma universitário no mercado de trabalho]”
CLASSIFICAÇÃO: VERDADEIRA
Lula afirmou que atualmente existem cerca de 25,5 milhões de brasileiros com diploma universitário inseridos no mercado de trabalho. Os dados disponíveis do IBGE confirmam a ordem de grandeza mencionada pelo presidente. Em 2025, havia aproximadamente 29,2 milhões de brasileiros com 25 anos ou mais e ensino superior completo. Desse total, cerca de 25,5 milhões estavam ocupados e recebendo renda, de acordo com levantamento baseado nos dados do instituto. A comparação histórica também mostra uma expansão expressiva da população ocupada com ensino superior. Em 2003, aproximadamente 5,8 milhões de brasileiros possuíam diploma universitário. Considerando a taxa de desocupação entre esse grupo naquele ano, cerca de 5,5 milhões estavam ocupados. O número de 25,5 milhões de pessoas com diploma universitário ocupadas no mercado de trabalho é compatível com os dados mais recentes utilizados na comparação.
Matérias relacionadas
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.