A dobradinha que venceu nas urnas, mas levanta dúvidas
Eleitos para Assembleia e Câmara, Fão e Mecabô consolidaram uma dobradinha em Cascavel, mas a aproximação levanta dúvidas sobre os rumos políticos dos dois
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Fão do Bolsonaro e Henrique Mecabô saíram das urnas como vencedores. O primeiro foi eleito deputado estadual, pelo Partido Liberal (PL) com 48.309 votos, o segundo, eleito deputado federal pelo Partido Novo, com 65.706 votos. A dobradinha montada em Cascavel funcionou. O eleitor comprou a proposta e os dois agora terão quatro anos para mostrar o que pretendem fazer
Mas uma vitória eleitoral não transforma automaticamente uma estratégia em boa política.
Durante a campanha, Fão e Mecabô foram vistos juntos em uma espécie de dobradinha política. O discurso tinha um alvo bastante definido: Lula, PT e tudo aquilo que pudesse ser associado à esquerda. Nas redes sociais, o confronto virou ferramenta de comunicação e a indignação, combustível para o engajamento.
Fão nunca escondeu esse estilo. Seu próprio nome político, Fão do Bolsonaro, resume boa parte de sua identidade eleitoral. É um político efusivo, provocador e que parece ter compreendido perfeitamente a lógica das redes sociais: quanto mais conflito, maior a chance de virar vídeo, corte e comentário.
É uma forma de fazer política que se aproxima do chamado marçalismo, fenômeno associado ao estilo político de Pablo Marçal e à atuação da extrema-direita nas redes sociais. O adversário precisa ser transformado em inimigo, a provocação vira conteúdo e a política passa a ser tratada como espetáculo permanente. O movimento combina o conservadorismo e o anticomunismo do bolsonarismo com elementos de coaching, teologia da prosperidade, meritocracia e culto à alta performance, usando as redes sociais como principal ferramenta de mobilização e disputa política.
O problema é quando essa lógica contamina quem chegou à política prometendo fazer diferente.
Porque Henrique Mecabô já foi diferente. Ele surgiu na política apresentando-se como representante de uma nova política, com discurso moderado, jovem e uma formação acadêmica construída também fora do país. Em 2022, ao comentar a eleição presidencial, Mecabô dizia que o Brasil havia chegado ao segundo turno dividido. Criticava o radicalismo que transformava pessoas com opiniões semelhantes em inimigas e defendia decisões coletivas, construtivas e baseadas no consenso. Também pregava que os eleitores abandonassem a busca por um “salvador da pátria” e assumissem a responsabilidade pelo futuro do país.
É difícil não comparar aquele discurso com o Henrique Mecabô de 2026.
Hoje, o deputado eleito adota uma comunicação muito mais agressiva, com críticas ao STF, forte discurso antipetista e aproximação evidente com a direita mais radicalizada do Oeste do Paraná.
Depois da derrota de Flávio Bolsonaro no segundo turno, a mudança ficou ainda mais evidente.
Em vídeo publicado nas redes sociais, Mecabô questionou a legitimidade do resultado, afirmou que, para ele, “no mínimo essa eleição foi comprada com Pix” e levantou suspeitas sobre programas sociais, Bolsa Família, diesel e a atuação do Judiciário.
Acusações graves precisam de provas. Não basta a derrota eleitoral para transformar desconfiança em evidência de fraude.
E aqui está a maior contradição. O político que dizia combater a polarização parece ter descoberto que a polarização pode ser uma excelente ferramenta eleitoral. Talvez tenha descoberto também que ser moderado rende menos curtidas. E também menos votos.
Fão parece ter encontrado em Mecabô um parceiro para ampliar seu espaço político. Mecabô, por outro lado, parece ter encontrado em Fão um atalho para uma parcela do eleitorado que dificilmente conquistaria sozinho.
Os dois ganharam. Mas quem ganhou mais? Fão tem usado as redes sociais para fazer críticas frequentes à gestão do prefeito Renato Silva. Seria apenas oposição ou já existe um projeto para 2028? O vereador pode estar testando seu nome para uma eventual disputa pela Prefeitura de Cascavel? É impossível saber agora.
O que já é possível questionar é se Mecabô continua sendo protagonista da própria trajetória ou se passou a ocupar o papel de coadjuvante de um projeto político que tem em Fão uma de suas principais vitrines.
É aqui que cabe a palavra incômoda: fantoche. Henrique Mecabô se tornou um Fãotoche do próprio Fão.
O rapaz que chegou à política prometendo renovação parece cada vez mais confortável em repetir o roteiro de quem escolheu o confronto como método. Nada de soluções.
Fão sempre foi Fão. Quem mudou foi Mecabô.
E mudar de opinião é legítimo. O eleitor pode mudar, o político também.
O que não deveria mudar é a capacidade de explicar por que mudou.
Porque, se a renovação política prometida em 2022 terminou em uma dobradinha marcada pelo confronto, pelo antipetismo e pela desconfiança do resultado das urnas, talvez a pergunta mais importante não seja quem venceu a eleição.
Talvez o grande desafio de Fão e Mecabô, agora em seus novos mandatos, seja justamente fazer política para além das redes sociais e das disputas ideológicas. Apresentar propostas capazes de melhorar a vida das pessoas deveria ser prioridade, em vez de concentrar o discurso em ataques a projetos sociais, discussões sobre temas hipotéticos, Lula ou o PT. O desafio é transformar a visibilidade conquistada nas urnas em trabalho concreto. Mas fica a pergunta: isso realmente está entre os interesses dos dois? Creio que não.
As encrencas de Fão e Mecabô na Justiça Eleitoral
E não foram apenas discursos inflamados. A campanha de Fão e Mecabô também deixou rastros na Justiça Eleitoral.
O TRE-PR condenou os dois, em conjunto com uma empresa, ao pagamento de R$ 15 mil por propaganda eleitoral irregular publicada em um perfil empresarial do Instagram com cerca de 750 mil seguidores. Algumas das publicações beneficiavam Fão e outras Mecabô, inclusive por meio da ferramenta de colaboração da plataforma.
A Justiça entendeu que o aceite das publicações pelos perfis dos candidatos demonstrava ciência e anuência com a propaganda irregular. Em outro episódio, empresas foram multadas em R$ 4 mil pela distribuição de bonés com o número 22 a trabalhadores dentro do ambiente de trabalho, embora os candidatos não tenham sido responsabilizados pessoalmente por essa parte do caso.
Mecabô ainda foi condenado individualmente a pagar R$ 10 mil por um vídeo publicado durante a campanha em que afirmou que estariam sendo “importados falsos indígenas do Paraguai” e orientou produtores a “resolver por conta própria” eventuais invasões de propriedades. Para o TRE-PR, a fala estigmatizou indígenas e ultrapassou os limites da crítica política ao incentivar a autotutela em uma região marcada por conflitos fundiários. Fão, por sua vez, também foi alvo de outra condenação eleitoral por propaganda irregular relacionada ao tamanho das placas instaladas em seu comitê.
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