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Dois em cada três argentinos dizem ficar sem dinheiro antes do dia 20

Pesquisa aponta que 65,3% dos entrevistados esgotam a renda antes do fim do mês; Milei questionou resultado e provocou reação de economistas

Gabriel Porta · · 4 min de leitura
Economia, supermercado
Economia, supermercado — Crédito: Tânia Rêgo

Dois em cada três argentinos afirmam que o dinheiro acaba antes do dia 20. É o que aponta uma pesquisa da consultoria Zentrix, que ouviu 1.438 pessoas em diferentes regiões do país. Entre os entrevistados, 65,3% disseram não conseguir fazer a renda durar até o fim do mês.

A situação é ainda mais frequente entre os argentinos de menor renda. Nesse grupo, mais de 83% afirmam ficar sem recursos antes do dia 20. O problema também aparece entre os mais ricos: segundo o levantamento, somente 61,9% conseguem chegar ao fim do mês e ainda guardar algum dinheiro.

Entre os menores de 40 anos, o percentual de pessoas que dizem ficar sem dinheiro antes do fim do mês chega a 72%.

O estudo, chamado “Monitor de Opinião Pública”, resume a diferença entre renda e duração do mês com uma frase: “A desigualdade é vivida no calendário”.

Milei questiona pesquisa

Os números provocaram reação do presidente Javier Milei. Ao comentar o levantamento, ele questionou como os argentinos conseguiriam passar os últimos dez dias do mês caso realmente ficassem sem dinheiro no dia 20.

“Se realmente ficam sem dinheiro no dia 20, como vivem dez dias sem comer nem beber?”, perguntou.

Claudio Montiel, diretor da Zentrix, afirma que a resposta está no endividamento. Segundo ele, os argentinos recorrem a empréstimos para manter despesas básicas. Mais da metade dos participantes da pesquisa afirmou ter pegado dinheiro emprestado nos seis meses anteriores.

“As pessoas se endividam”, disse Montiel em entrevista à DW. Segundo ele, o crédito é utilizado para bancar gastos correntes.

A economista Mercedes D'Alessandro também aponta outras formas encontradas pelas famílias para atravessar o restante do mês. Entre elas estão comprar fiado, pedir ajuda a familiares, deixar contas em aberto e reduzir a qualidade da alimentação.

Dificuldade financeira também aparece no histórico de Milei

D'Alessandro lembrou que o próprio Milei relata, no livro El camino del libertario, ter enfrentado dificuldades financeiras após perder o emprego. Segundo o relato, ele precisou administrar uma indenização durante quatro anos e restringir seus gastos ao equivalente a uma pizza por dia.

Para a economista, há uma contradição entre essa experiência narrada pelo presidente e a forma como ele reagiu ao levantamento da Zentrix.

Montiel também defendeu os dados da pesquisa e afirmou que existe uma distância entre a realidade econômica vivida pela população e a interpretação feita por Milei.

Economistas divergem sobre o levantamento

A discussão não se limita à resposta do presidente. O economista Martín Kalos, da consultoria EPyCA, considerou a reação de Milei uma forma de negar uma realidade enfrentada pela população.

Para Kalos, o reconhecimento do problema é necessário para que políticas públicas consigam enfrentá-lo.

Já o economista Juan Massot afirma que é preciso separar a percepção das famílias dos indicadores econômicos. Na avaliação dele, dizer que o dinheiro acaba no dia 20 pode representar a sensação de chegar ao restante do mês sem margem para gastos, mesmo que a renda continue entrando.

Segundo Massot, muitas famílias chegam ao fim do mês “no limite”, abrindo mão de determinados gastos e enfrentando restrições no orçamento.

O economista, porém, ressalta que isso não significa ignorar as dificuldades econômicas. Para ele, os dados precisam ser interpretados com cuidado para evitar diagnósticos equivocados.

Inadimplência quase dobrou em um ano

Um dos indicadores que ajudam a dimensionar a pressão sobre o orçamento das famílias é a inadimplência. Dados do Banco Central da Argentina mostram que 12,94% do crédito bancário concedido às famílias estava em situação irregular em julho.

O percentual representava quase o dobro dos 6,6% registrados em agosto de 2025. Em agosto de 2026, a taxa recuou levemente para 12,81%.

Outro indicador citado na discussão é o custo da cesta básica alimentar. Montiel, no entanto, questiona a metodologia utilizada para definir sua composição.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC), os padrões de consumo considerados no cálculo têm como base uma pesquisa de despesas familiares realizada entre 1996 e 1997, posteriormente validada com informações de 2004 e 2005. Os preços são atualizados mensalmente, mas a composição utilizada como referência é baseada em dados de décadas anteriores.

Problema econômico vem de antes do governo Milei

Massot ressalta que as dificuldades econômicas argentinas não começaram na atual administração. Segundo ele, o PIB per capita do país apresenta tendência negativa há cerca de 15 anos.

Para o economista, parte dos problemas enfrentados atualmente pelas famílias está ligada a esse processo de longo prazo.

As perspectivas para os próximos meses também são motivo de preocupação entre especialistas. Kalos afirma que não há, no horizonte analisado, uma perspectiva clara de melhora.

Segundo ele, mesmo que a renda das famílias tenha algum aumento temporário, parte desse dinheiro poderá ser direcionada ao pagamento de dívidas acumuladas, em vez de ampliar o consumo.

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