Desconfiança no STF atinge recorde e 48% dos brasileiros dizem não confiar na Corte, aponta Datafolha
Levantamento mostra que o Supremo registra o maior índice de desconfiança entre oito instituições avaliadas; percepção negativa também atinge o Judiciário e reacende o debate sobre a credibilidade da Justiça brasileira
Quase metade dos brasileiros afirma não confiar no Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo pesquisa Datafolha divulgada em setembro de 2026, 48% dos eleitores dizem não confiar na Corte, o maior percentual registrado desde o início da série histórica, em 2012. O resultado coloca o Supremo como a instituição com maior índice de desconfiança entre as oito avaliadas pelo instituto, superando partidos políticos, Congresso Nacional e Presidência da República.
O levantamento revela que o desgaste da imagem do STF não se limita à avaliação do trabalho de seus ministros. A percepção negativa também alcança o Poder Judiciário como um todo, incluindo juízes e desembargadores, e expõe um desafio institucional: preservar a confiança pública na Justiça em um ambiente de intensa polarização política, questionamentos sobre decisões judiciais e debates a respeito da atuação dos tribunais superiores.
De acordo com os dados divulgados pelo Datafolha em 21 de setembro, apenas 14% dos entrevistados afirmaram confiar muito no Supremo, enquanto 35% disseram confiar um pouco. Outros 48% declararam não confiar na instituição. Em março deste ano, o percentual de desconfiança era de 43%, até então o maior da série histórica.
A diferença de cinco pontos percentuais entre março e setembro indica um agravamento da percepção negativa em relação à Corte. O movimento ocorre em um período no qual decisões do STF, discussões sobre a conduta de magistrados e propostas de mudanças no funcionamento do tribunal passaram a ocupar espaço central no debate público.
Judiciário também enfrenta desgaste
A desconfiança não está restrita ao Supremo. Quando questionados sobre o Poder Judiciário, compreendido como o conjunto de juízes e desembargadores, 38% dos entrevistados disseram não confiar na instituição. Em março, esse percentual era de 36%.
Outros 43% afirmaram confiar um pouco na Justiça, enquanto 17% declararam confiar muito. Embora os índices sejam menos negativos do que os registrados pelo STF, os resultados indicam que a crise de credibilidade ultrapassa a atuação dos ministros da Suprema Corte.
A distinção é importante porque o STF ocupa uma posição específica na estrutura institucional brasileira. Além de exercer o controle de constitucionalidade e julgar determinadas autoridades, a Corte frequentemente decide questões de grande repercussão política e social. Já o Judiciário como um todo é responsável por conflitos cotidianos que envolvem direitos trabalhistas, relações familiares, questões previdenciárias, contratos e processos criminais.
A confiança nessas instituições não depende necessariamente da concordância com cada decisão judicial. Ela também está relacionada à percepção de imparcialidade, transparência, respeito às regras processuais e tratamento igualitário entre os cidadãos.
Quando a população passa a desconfiar das instituições encarregadas de solucionar conflitos e garantir direitos, o problema ultrapassa a imagem dos magistrados e alcança a legitimidade do próprio sistema de Justiça.
Partidos e Congresso também registram baixa confiança
A pesquisa permite comparar a imagem do Judiciário com a de outras instituições brasileiras. Os partidos políticos aparecem com 45% de entrevistados que afirmam não confiar nessas organizações. Apesar do percentual elevado, houve melhora em relação a março, quando a desconfiança atingia 52%.
A Presidência da República registra 42% de desconfiança, resultado próximo dos 43% observados na pesquisa anterior. Nesse caso, 25% dos entrevistados afirmaram confiar muito na instituição, enquanto 32% disseram confiar um pouco.
Os números mostram que o desgaste da confiança pública não é exclusivo do sistema de Justiça. Entretanto, o fato de o STF aparecer numericamente à frente de instituições tradicionalmente associadas à disputa partidária representa uma mudança significativa na série histórica do Datafolha.
A comparação também exige cautela. A percepção sobre as instituições pode ser influenciada por acontecimentos políticos recentes, identificação partidária, exposição na imprensa e experiências individuais dos entrevistados. Os percentuais medem a confiança declarada pela população, não a qualidade técnica das decisões ou o desempenho efetivo de cada órgão.
Nova pesquisa revela apoio a mudanças no STF
O debate ganhou um novo elemento nesta semana. Pesquisa Datafolha realizada nos dias 13 e 14 de outubro, com 2.520 eleitores de 153 municípios, revelou que a maioria dos entrevistados apoia mudanças no funcionamento do Supremo Tribunal Federal.
Segundo o levantamento divulgado na sexta-feira (16), 59% defendem a adoção de mandatos para os ministros do STF. Atualmente, os integrantes da Corte são nomeados pelo presidente da República, após aprovação do Senado, e permanecem no cargo até a aposentadoria compulsória aos 75 anos, salvo outras hipóteses legais de desligamento.
Outros 65% apoiam o fim das decisões individuais de ministros em assuntos considerados importantes, enquanto 52% são favoráveis a que pessoas com prerrogativa de foro sejam julgadas em instâncias inferiores.
As propostas envolvem questões distintas. A adoção de mandatos alteraria o tempo de permanência dos ministros na Corte. A limitação de decisões monocráticas ampliaria a exigência de deliberação colegiada em determinadas situações. Já a revisão do foro por prerrogativa de função modificaria as regras que definem quais autoridades são julgadas diretamente por tribunais superiores.
Nenhuma dessas mudanças decorre automaticamente do resultado da pesquisa. Sua implementação dependeria de alterações legislativas ou constitucionais, conforme a matéria, e de debates sobre os efeitos para a independência judicial e o funcionamento das instituições.
Apoio às reformas atravessa divisões eleitorais
Um dos aspectos mais relevantes do levantamento de outubro é que o apoio às mudanças aparece entre eleitores dos dois candidatos que disputam o segundo turno presidencial.
Entre os entrevistados que declaram voto em Flávio Bolsonaro (PL), 65% defendem a criação de mandatos para ministros do Supremo. No grupo de eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o percentual é de 54%.
A diferença é menor quando o assunto são as decisões monocráticas. O fim das decisões individuais em temas importantes é apoiado por 66% dos eleitores de Lula e 64% dos de Flávio Bolsonaro.
Também há proximidade nas opiniões sobre o foro por prerrogativa de função: 54% dos eleitores do candidato do PL e 51% dos apoiadores do petista defendem que autoridades atualmente submetidas a regras especiais de julgamento possam responder a processos em instâncias inferiores.
Os resultados indicam que, apesar das divergências políticas e das diferentes avaliações sobre a atuação do STF, existe apoio às propostas de reforma em parcelas expressivas dos dois eleitorados.
Isso não significa, entretanto, consenso sobre quais mudanças deveriam ser aprovadas ou como seriam implementadas. A definição dos temas considerados importantes para decisões colegiadas, por exemplo, exigiria critérios jurídicos objetivos para evitar insegurança na aplicação das regras.
Transparência e independência são desafios
A discussão sobre a confiança no Judiciário envolve um equilíbrio delicado. Por um lado, tribunais e magistrados precisam prestar contas à sociedade, observar regras de transparência e assegurar que suas decisões sejam fundamentadas e submetidas aos mecanismos de revisão previstos na legislação.
Por outro, a independência judicial é uma garantia institucional destinada a impedir que julgamentos sejam condicionados por interesses políticos, pressões econômicas ou pela popularidade momentânea de determinadas decisões.
A Constituição de 1988 estabeleceu mecanismos de proteção à atuação dos magistrados e atribuiu ao Supremo a função de guardar a Constituição. Essas garantias não afastam a possibilidade de mudanças na organização do Judiciário, mas exigem que eventuais reformas respeitem a separação dos Poderes e os direitos fundamentais.
A recuperação da confiança pública também passa por questões que ultrapassam a estrutura do STF. A duração dos processos, a dificuldade de acesso à Justiça, a linguagem jurídica pouco acessível e a percepção de desigualdade no tratamento de cidadãos e autoridades influenciam a relação da população com o sistema judicial.
Nesse cenário, os levantamentos do Datafolha apresentam dois retratos complementares. O primeiro, de setembro, mostra o crescimento da desconfiança nas instituições judiciais. O segundo, de outubro, revela que uma parcela majoritária do eleitorado considera necessárias mudanças em aspectos do funcionamento do Supremo.
O que mostram as pesquisas
Na pesquisa de setembro, 48% dos entrevistados declararam não confiar no STF, contra 43% em março. A desconfiança no Poder Judiciário chegou a 38%, enquanto partidos políticos e Presidência registraram, respectivamente, 45% e 42%.
Já no levantamento de outubro, 59% defenderam mandatos para ministros do Supremo, 65% apoiaram restrições às decisões monocráticas em assuntos importantes e 52% se manifestaram favoravelmente à revisão das regras de foro por prerrogativa de função.
A pesquisa mais recente ouviu 2.520 eleitores nos dias 13 e 14 de outubro, em 153 municípios brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-00466/2026.
Os resultados não permitem concluir que exista uma solução única para a crise de confiança, mas demonstram que a relação entre sociedade e Judiciário se tornou um dos temas relevantes do debate institucional brasileiro.
Para além das disputas eleitorais, o desafio será transformar as críticas e propostas de reforma em discussões capazes de conciliar transparência, responsabilidade, independência judicial e garantia de direitos.
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