Cataratas do Iguaçu chegam a 15,5 milhões de litros por segundo; veja o que acontece na cheia
Vazão é mais de dez vezes superior à média e levou à retirada das grades da passarela e à interdição de atrações no parque
As Cataratas do Iguaçu chegaram a uma vazão de 15,5 milhões de litros de água por segundo na madrugada desta quarta-feira (14), após o aumento das chuvas no Paraná. Diante da força da correnteza, o Parque Nacional do Iguaçu retirou as grades da passarela e interditou atrações para reduzir os riscos durante a cheia.
A vazão registrada é mais de dez vezes superior à média das Cataratas, que fica em torno de 1,5 milhão de litros por segundo. O volume elevado exige medidas específicas de segurança para proteger tanto os visitantes quanto as estruturas instaladas próximas às quedas.
Segundo a MetSul Meteorologia, o Paraná deve ser o estado com maior volume de chuva no restante de outubro. As projeções apontam acumulados entre 100 e 300 milímetros na maior parte do estado, com possibilidade de volumes de até 500 milímetros em alguns pontos.
É a chuva que alimenta o aumento da vazão do Rio Iguaçu e, consequentemente, das Cataratas.
Por que as grades da passarela são retiradas?
A retirada das grades não é uma medida para interromper a passagem de visitantes, mas uma forma de diminuir a resistência oferecida pela estrutura à água durante períodos de cheia.
Em entrevista ao Portal iG, o engenheiro civil Luiz Fernando Bernhoeft explicou que as grades também podem funcionar como uma espécie de peneira, retendo troncos, galhos e outros materiais carregados pela correnteza.
Durante uma cheia, a estrutura precisa suportar a pressão da água sobre os pilares, o impacto de objetos transportados pelo rio e a erosão da rocha próxima às fundações. O trabalho de manutenção ainda ocorre dentro de um parque nacional, onde o acesso é restrito e há limitações ambientais para o uso de equipamentos e métodos de construção.
Como as estruturas resistem à força da água?
Entre as soluções de engenharia utilizadas em locais com condições geológicas difíceis estão as chamadas estacas raiz. A técnica consiste em fazer perfurações de pequeno diâmetro no terreno até alcançar a rocha. Depois, os espaços são preenchidos com argamassa e recebem armadura de aço.
O método é adequado para áreas de acesso limitado porque utiliza equipamentos relativamente compactos. A técnica também permite perfurar rochas resistentes, como o basalto encontrado na região das Cataratas do Iguaçu.
Outro fator considerado é a baixa vibração durante a execução, característica importante em uma área ambientalmente sensível. Quando corretamente dimensionadas e executadas, as estacas ajudam a ancorar a estrutura na rocha e a suportar as forças laterais provocadas pela água.
Cataratas já tiveram vazões muito maiores
Apesar dos 15,5 milhões de litros por segundo registrados nesta semana, o volume ainda está abaixo de algumas das maiores vazões já medidas nas Cataratas.
O recorde ocorreu em junho de 2014, quando o Rio Iguaçu chegou a transportar 46,3 milhões de litros por segundo, cerca de 30 vezes a vazão considerada normal.
Em 1983, durante um episódio de El Niño, a vazão chegou a 35 milhões de litros por segundo. Em 2023, após uma sequência de chuvas intensas, as Cataratas registraram 24,2 milhões de litros por segundo.
Quando a passarela é fechada?
O Rio Iguaçu é monitorado diariamente por equipes técnicas. Quando a vazão ultrapassa 8,5 milhões de litros por segundo, a passarela das Cataratas é fechada para visitação.
Se o volume chega a 9 milhões de litros por segundo e continua subindo, as grades são retiradas para permitir que a água passe com menos resistência pela estrutura.
A reabertura ocorre somente depois que a vazão volta à média de 8,5 milhões de litros por segundo e um engenheiro especializado realiza uma avaliação técnica.
Mesmo com os protocolos, as estruturas estão sujeitas ao desgaste causado pelas condições do local. Entre os riscos estão a corrosão de componentes metálicos, a erosão na base dos pilares e os danos provocados por troncos e pela força da água durante cheias mais intensas.
A umidade constante e a névoa das quedas também exigem atenção à conservação dos materiais. Por isso, são necessárias inspeções periódicas das estruturas e das fundações, além de intervenções preventivas quando identificados problemas.
O engenheiro ressalta que não existe risco zero na engenharia. A estratégia é manter os riscos dentro de limites considerados aceitáveis por meio de projetos, manutenção e protocolos de interdição.
Lado brasileiro e argentino têm procedimentos diferentes
As estruturas dos lados brasileiro e argentino das Cataratas podem adotar medidas diferentes porque foram construídas a partir de projetos e condições específicas.
Em outubro de 2023, uma cheia intensa levou parte da passarela argentina. A estrutura permaneceu fechada por oito meses. Neste ano, as autoridades argentinas retiraram grades e outras estruturas metálicas, mas mantiveram os pilares de concreto.
No lado brasileiro, a retirada temporária das grades também ajuda a preservar esses componentes e diminui a possibilidade de que sejam danificados ou carregados pela correnteza. Depois, eles podem ser recolocados quando as condições forem consideradas seguras.
Atrações estão fechadas
A Urbia+Cataratas, concessionária responsável pela gestão da visitação turística do parque em conjunto com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), informou que os procedimentos de segurança são realizados pelas equipes do parque e pelos bombeiros civis.
Além da passarela, estão interditados o Mirante Inferior do Espaço Naipi, o Circuito São João, o Espaço Usina, o Caminho do Poço Preto e a Trilha da Canafístula.
O Caminho das Bananeiras já estava fechado para obras. Com as interdições provocadas pela cheia, somente a Trilha das Cataratas está disponível para visitação.
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