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“Grande Sertão: Veredas” completa 70 anos como um dos romances mais revolucionários da literatura brasileira

Publicado em 1956, o clássico de João Guimarães Rosa atravessa gerações ao transformar a linguagem do sertão em uma reflexão sobre o amor, a violência, a liberdade e os dilemas da existência humana

Gazeta do Paraná · · 7 min de leitura
Grande Sertão Veredas completa 70 anos
Grande Sertão Veredas completa 70 anos — Crédito: Imagem gerada por IA

Há 70 anos, João Guimarães Rosa publicava um romance que mudaria os rumos da literatura brasileira. Lançado em 1956, Grande Sertão: Veredas transformou a experiência dos jagunços do interior do país em uma narrativa sobre os conflitos mais profundos da condição humana. Sete décadas depois, a obra continua provocando leitores, pesquisadores e artistas com uma pergunta que atravessa suas páginas: o que determina o destino de uma pessoa, suas escolhas ou as forças que parecem escapar ao seu controle?

Narrado por Riobaldo, um ex-jagunço que revisita sua trajetória diante de um interlocutor silencioso, o romance reúne memórias de guerras, disputas de poder, experiências religiosas e um amor que desafia as convenções de seu tempo. Ao longo de mais de 500 páginas, dependendo da edição, o narrador tenta compreender os acontecimentos de sua vida e encontrar explicações para decisões que continuam a atormentá-lo.

A história se desenvolve nos sertões de Minas Gerais, Bahia e Goiás, mas ultrapassa os limites geográficos da região. Em Guimarães Rosa, o sertão é simultaneamente paisagem, território de conflitos sociais e representação das incertezas humanas. A frase “O sertão é do tamanho do mundo”, uma das mais conhecidas do livro, sintetiza essa dimensão universal.

 

Uma revolução na linguagem

O caráter inovador de Grande Sertão: Veredas está tanto no que o romance conta quanto na maneira como a história é narrada. Guimarães Rosa construiu uma linguagem literária singular, combinando expressões regionais, palavras inventadas, construções sintáticas inesperadas e referências a diferentes tradições culturais.

Em vez de simplesmente reproduzir a fala dos habitantes do sertão, o escritor transformou a oralidade em matéria de experimentação artística. O resultado é uma prosa marcada por ritmo, musicalidade e imagens poéticas, que exige do leitor atenção não apenas aos acontecimentos, mas também às possibilidades de sentido de cada palavra.

A narrativa se apresenta como um longo monólogo. Riobaldo conta sua história sem uma divisão convencional em capítulos, alternando episódios de diferentes momentos da vida e interrompendo frequentemente os acontecimentos para formular perguntas, reconsiderar lembranças e refletir sobre o comportamento humano.

Essa estrutura aproxima o leitor do próprio funcionamento da memória, que não organiza necessariamente os acontecimentos em sequência cronológica. Ao mesmo tempo, coloca em dúvida a possibilidade de reconstruir o passado de maneira definitiva: Riobaldo é narrador, personagem e intérprete de sua própria história.

A linguagem também contribui para romper com uma visão limitada do regionalismo. Embora profundamente vinculado à cultura sertaneja, o romance dialoga com questões filosóficas e literárias universais, aproximando a experiência brasileira de grandes tradições da literatura mundial.

 

Riobaldo, Diadorim e os conflitos de uma época

No centro da narrativa está a relação entre Riobaldo e Diadorim, personagem que desafia as certezas do narrador e se torna uma das figuras mais complexas da literatura brasileira. O afeto que Riobaldo sente por Diadorim é atravessado por admiração, desejo, medo e dificuldade de compreender os próprios sentimentos.

Essa dimensão do romance permanece especialmente relevante diante dos debates contemporâneos sobre identidade, gênero e expectativas sociais. Sem oferecer respostas simples, Guimarães Rosa apresenta personagens cujas experiências não cabem facilmente nas categorias estabelecidas pelo ambiente em que vivem.

A atualidade da obra também aparece na representação da violência. Os bandos de jagunços disputam territórios, estabelecem alianças, seguem lideranças e participam de confrontos que expõem a fragilidade das instituições e as relações entre poder e força no interior brasileiro.

O romance, entretanto, não reduz seus personagens a vítimas ou agentes dessa violência. Ao narrar as guerras e as mortes que presenciou, Riobaldo procura compreender os limites entre o bem e o mal, a responsabilidade individual e a influência das circunstâncias sobre as decisões humanas.

Outro elemento central é a dúvida sobre a existência do diabo e a possibilidade de um pacto sobrenatural. A questão acompanha o narrador durante toda a história, funcionando também como uma investigação sobre a culpa, o desejo de poder e a necessidade humana de encontrar explicações para acontecimentos difíceis de aceitar.

 

Universidade celebra os 70 anos com novas pesquisas

O aniversário de Grande Sertão: Veredas também mobiliza pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Em setembro de 2026, a Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo (USP), publicou um dossiê dedicado aos 70 anos do romance e de Corpo de Baile, outra obra de Guimarães Rosa lançada em 1956.

A edição reúne nove ensaios de especialistas de diferentes instituições e revisita aspectos da criação literária do escritor. Entre os temas estão a experimentação narrativa, a memória, as relações entre literatura e filosofia e as diferentes possibilidades de interpretação das personagens.

O interesse acadêmico também recupera um episódio decisivo da trajetória de Rosa: a viagem realizada em 1952 pelo sertão mineiro, quando acompanhou vaqueiros durante dez dias e registrou observações em cadernetas hoje preservadas no Instituto de Estudos Brasileiros da USP.

A experiência contribuiu para a elaboração de Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile. Mais do que reproduzir acontecimentos observados, o escritor transformou a vivência em uma criação literária que combina referências concretas do sertão com questões existenciais.

Setenta anos depois, a permanência do romance nas universidades e em novas pesquisas demonstra que a obra continua aberta a interpretações. Cada geração encontra nela perguntas relacionadas ao próprio tempo, sem esgotar os sentidos construídos pela narrativa.

 

Paraná promove exposição e encontro literário

As comemorações também chegaram ao Paraná. A Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, promove durante outubro uma programação gratuita dedicada aos 70 anos do romance.

Desde quinta-feira (15), o hall do segundo andar recebe a exposição O Sertão Está em Toda Parte, composta por flâmulas bordadas individual e coletivamente, inspiradas no universo de Guimarães Rosa. As peças foram produzidas no projeto de extensão Intérpretes do Brasil: História, Literatura, Arte e Cultura Brasileira, desenvolvido na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, vinculada à Universidade Estadual do Paraná (Unespar).

A mostra permanece aberta até 30 de outubro e pode ser visitada durante o horário de funcionamento da biblioteca.

Na próxima quinta-feira (22), às 19h, o escritor, ensaísta, músico e professor aposentado de Literatura Brasileira da USP José Miguel Wisnik participa de um encontro dedicado à obra. A atividade integra o projeto Biblioteca ConVida e será realizada no Auditório Paul Garfunkel, no segundo andar da instituição.

A participação é gratuita, mediante inscrição, e o encontro contará com intérprete de Libras. A biblioteca também disponibiliza o e-mail bpp.evento@gmail.com para informações e inscrições.

 

Um clássico que continua desafiando leitores

Aos 70 anos, Grande Sertão: Veredas permanece como uma obra capaz de provocar tanto encantamento quanto estranhamento. Sua linguagem exige disposição para experimentar outras formas de ler, enquanto a narrativa convida o público a conviver com dúvidas que não encontram soluções definitivas.

É justamente essa combinação que ajuda a explicar sua permanência. Ao transformar a história de um jagunço em uma reflexão sobre memória, desejo, medo, violência e liberdade, Guimarães Rosa construiu um romance que não se limita à época em que foi escrito.

O sertão apresentado no livro continua sendo um lugar concreto, marcado por paisagens e relações sociais específicas, mas também um espaço simbólico onde se confrontam questões humanas que atravessam gerações.

Sete décadas depois de sua publicação, a travessia de Riobaldo permanece aberta a novos leitores. E a literatura brasileira continua encontrando, nas veredas de Guimarães Rosa, caminhos para compreender tanto o país quanto as contradições da experiência humana.

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