Universidades ajudam a colocar Paraná na liderança nacional da produção orgânica
Programa oferece assistência técnica e certificação gratuita a agricultores familiares; rede envolve as sete universidades estaduais e já responde por cerca de um quarto das certificações orgânicas registradas no país
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Divulgação Unicentro
As universidades estaduais do Paraná estão transformando conhecimento produzido dentro dos campi em assistência direta a agricultores familiares. Professores, estudantes e profissionais das Ciências Agrárias acompanham propriedades rurais, orientam mudanças na produção e ajudam produtores a percorrer gratuitamente o caminho necessário para obter a certificação de alimentos orgânicos.
O trabalho ocorre por meio do Paraná Mais Orgânico (PMO), que mantém núcleos vinculados às sete universidades estaduais — UEL, UEM, UEPG, UENP, Unespar, Unicentro e Unioeste. A rede também envolve o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) e o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar).
A dimensão desse trabalho cresceu nos últimos anos. Entre 2023 e 2025, foram realizadas mais de 13,9 mil ações de assistência técnica, além de 1.989 auditorias, 787 certificações e mais de 1.250 acreditações. O número de auditorias passou de 495, em 2022, para aproximadamente 1.200 em 2025 — crescimento superior a 140%.
A nova etapa do programa, iniciada neste ano e prevista para continuar até 2028, amplia essa presença das instituições no campo. Serão 97 bolsas na área de Agronomia, dentro de um investimento total de R$ 14,7 milhões. Cerca de R$ 10 milhões serão destinados às bolsas, enquanto parte dos demais recursos permitirá, entre outras atividades, que as equipes se desloquem até as propriedades.
Da universidade para dentro da propriedade
O papel das universidades começa muito antes da emissão de um certificado. Quando um agricultor procura um dos núcleos, as equipes analisam a propriedade e identificam o que precisa ser modificado para que a produção possa atender às normas brasileiras para os orgânicos.
Esse processo pode envolver mudanças no manejo do solo, substituição de insumos, adequações na propriedade e organização dos registros referentes à produção. Técnicos e bolsistas acompanham o produtor durante esse percurso.
Somente depois das adequações ocorre a etapa de verificação necessária à certificação. O Tecpar participa do processo como organismo responsável pela certificação por auditoria. Para os agricultores familiares atendidos pelo Paraná Mais Orgânico, a assistência técnica e a certificação são gratuitas.
O modelo faz com que a extensão universitária deixe de ser apenas uma atividade realizada dentro das instituições. Os estudantes trabalham com situações concretas, enquanto o agricultor recebe conhecimento técnico que, no mercado privado, poderia representar um custo adicional para a propriedade.
Unioeste leva programa ao Oeste e Sudoeste
A presença das universidades também descentraliza o atendimento. A Unioeste mantém dois núcleos, localizados em Marechal Cândido Rondon e Francisco Beltrão, aproximando o programa dos agricultores do Oeste e Sudoeste.
Na etapa anterior, os dois núcleos receberam conjuntamente cerca de R$ 1,18 milhão para as atividades do Paraná Mais Orgânico: aproximadamente R$ 600 mil para Francisco Beltrão e R$ 582 mil para Marechal Cândido Rondon.
Em Francisco Beltrão, o trabalho vai além do processo de certificação. O núcleo desenvolve atividades relacionadas à produção orgânica e agroecologia, cooperativismo e comercialização, além do apoio aos mecanismos utilizados para garantir a conformidade da produção.
A distribuição dos núcleos entre as universidades é justamente uma das características da política. Em vez de concentrar a estrutura em Curitiba, o conhecimento técnico está instalado nas diferentes regiões produtoras do Paraná.
Quase 2 mil auditorias em três anos
Os números mostram que essa estrutura universitária e técnica ganhou escala. Entre 2023 e 2025 foram realizadas 1.989 auditorias vinculadas ao programa, das quais resultaram 787 certificações.
O aumento é significativo quando observado ano a ano. Em 2022 haviam sido realizadas 495 auditorias. Três anos depois, em 2025, eram aproximadamente 1.200.
Mas chegar à auditoria é apenas uma parte do trabalho. Antes disso, estão as milhares de ações de assistência técnica realizadas nas propriedades. É justamente nessa etapa que a participação das universidades ganha maior importância, porque a transição para o sistema orgânico pode exigir mudanças na forma como o agricultor produz.
Para o produtor, conquistar a certificação significa poder comprovar que os alimentos atendem às regras estabelecidas para a produção orgânica e acessar canais de comercialização que exigem esse reconhecimento.
Formação também acontece fora da sala de aula
Há outro resultado menos visível. Ao colocar estudantes de Agronomia e áreas relacionadas em contato direto com agricultores, as universidades transformam as propriedades em espaços de formação profissional.
Os bolsistas acompanham sistemas produtivos reais, identificam problemas e participam da busca por soluções. O agricultor, por sua vez, passa a ter acesso ao conhecimento técnico e científico produzido nas instituições públicas.
A nova etapa prevê 97 bolsistas, o que amplia simultaneamente a capacidade de atendimento e a formação de profissionais especializados em produção orgânica e agroecologia.
Certificar é só parte do desafio
O crescimento das certificações, entretanto, não significa que todos os obstáculos estejam resolvidos. Os documentos que orientam a nova fase do programa apontam dificuldades de comercialização, infraestrutura para processamento, acesso ao crédito e às compras públicas, além da necessidade de mais profissionais especializados.
Também permanece o desafio de fazer a expansão da produção chegar ao consumidor. Produzir mais alimentos orgânicos não resulta automaticamente em preços menores se continuarem existindo gargalos de processamento, transporte e comercialização.
É justamente nesse ponto que a presença das universidades pode ter um papel mais amplo. O trabalho não termina necessariamente quando o certificado é emitido: núcleos também atuam em áreas como organização dos produtores, cooperativismo e comercialização.
Criado em 2009, o Paraná Mais Orgânico mostra, assim, uma dimensão da universidade pública que muitas vezes fica distante da rotina de quem não frequenta um campus. Nesse caso, ensino, pesquisa e extensão atravessam os portões das instituições e chegam diretamente às propriedades rurais — com estudantes aprendendo no campo e agricultores utilizando o conhecimento universitário para transformar a maneira de produzir e conquistar novos mercados.
Créditos: Redação
