Copom mantém Selic em 13,75% e interrompe ciclo de cortes nos juros
Banco Central citou incertezas sobre o câmbio, o El Niño e a inflação acima da meta para justificar a decisão unânime
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano. A decisão foi unânime e interrompeu o ciclo de reduções iniciado em abril de 2026. O comitê justificou a manutenção pelo aumento das incertezas econômicas, pelas expectativas de inflação acima da meta e pela instabilidade no cenário internacional.
Em comunicado divulgado após a reunião, nesta quarta-feira (4), o Banco Central afirmou que o cenário exige cautela na condução da política monetária. Entre os fatores de preocupação estão as oscilações cambiais, os efeitos do fenômeno climático El Niño e o agravamento da guerra no Oriente Médio.
A decisão contrariou a expectativa de parte do mercado financeiro, que projetava um corte de 0,25 ponto percentual. Outra parcela das instituições, porém, já esperava que a taxa permanecesse no mesmo patamar.
O Copom não indicou qual será o comportamento dos juros nas próximas reuniões. Segundo o comitê, as incertezas aumentaram nas últimas semanas, enquanto a atividade econômica doméstica apresenta desaceleração mais acentuada.
Histórico da taxa de juros
A Selic permaneceu em 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026, no maior patamar em quase duas décadas. A partir de abril deste ano, o Banco Central iniciou uma sequência de cinco cortes, em um período de desaceleração da inflação.
A decisão desta quarta-feira interrompe esse movimento. O cenário internacional, especialmente a intensificação do conflito no Oriente Médio, além das incertezas relacionadas ao câmbio e ao El Niño, passou a dificultar a avaliação sobre os próximos passos da política monetária.
O Copom também está com duas vagas abertas na diretoria. Os mandatos de Renato Gomes, responsável pela área de Organização do Sistema Financeiro, e de Diego Guillen, da Política Econômica, terminaram no fim de 2025. Até o momento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não encaminhou ao Congresso as indicações para substituí-los.
Inflação continua acima da meta
A taxa Selic é o principal instrumento utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Em outubro, o IPCA-15, considerado a prévia da inflação oficial, registrou alta de 0,32%. Apesar da desaceleração mensal, o indicador acumulado em 12 meses passou de 4,5% para 4,62%, acima do limite máximo da meta estabelecida pelo governo.
O objetivo definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) é manter a inflação em 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Dessa forma, o intervalo permitido vai de 1,5% a 4,5%.
Desde janeiro de 2025, o Banco Central utiliza o sistema de meta contínua. Nesse modelo, a inflação acumulada em 12 meses é avaliada mensalmente, em vez de ser considerada apenas no fechamento de cada ano.
As projeções do mercado também apontam dificuldade para o cumprimento da meta em 2026. Segundo o boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, as instituições financeiras estimam que o IPCA termine o ano em 5,22%. Antes do agravamento da guerra no Oriente Médio, a expectativa era de 3,95%.
No último Relatório de Política Monetária, publicado em setembro, o Banco Central projetou inflação de 5,2% para 2026. Uma nova estimativa será divulgada no fim de novembro.
Juros influenciam crédito e consumo
A Selic serve de referência para as demais taxas de juros da economia. Quando o Banco Central aumenta a taxa, empréstimos e financiamentos tendem a ficar mais caros, o que reduz o consumo e ajuda a conter a pressão sobre os preços.
Quando os juros caem, o crédito tende a ficar mais barato. A medida estimula o consumo e os investimentos das empresas, mas também pode aumentar a demanda e dificultar o controle da inflação.
O cenário de juros elevados também influencia as perspectivas de crescimento econômico. No relatório divulgado em setembro, o Banco Central reduziu para 1,8% a previsão de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026.
A projeção do mercado financeiro é um pouco menor. De acordo com o boletim Focus, os analistas estimam crescimento de 1,76% neste ano. Há quatro semanas, a expectativa era de 1,85%.
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