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Trevo Cataratas: quem pagou, quem escolheu e quem pode reivindicar participação na obra

Projeto apresentado à Assembleia em 2017 levou anos para sair do papel; recursos de R$ 82 milhões vieram de acordo de leniência, enquanto Governo do Paraná, Prefeitura, deputados e entidades do Oeste atuaram em etapas diferentes

Por Ana Zimermann

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Trevo Cataratas: quem pagou, quem escolheu e quem pode reivindicar participação na obra Créditos: site Sintropar

Transformado em uma das principais vitrines da infraestrutura do Oeste do Paraná, o Trevo Cataratas voltou ao centro do debate político durante a campanha eleitoral de 2026. Candidatos e aliados passaram a citar a obra como exemplo de atuação administrativa, capacidade de articulação ou resultado do grupo político ao qual pertencem. O problema é que, ao longo desse discurso, três fatos diferentes acabam frequentemente apresentados como se fossem a mesma coisa: a origem dos R$ 82 milhões, a decisão de destinar parte desses recursos ao Trevo Cataratas e a posterior execução e fiscalização da obra.

A reconstrução documental mostra que não existe um único “pai” para o novo Trevo Cataratas. O projeto é anterior ao atual governo estadual, o dinheiro utilizado na intervenção não saiu originalmente de uma emenda parlamentar nem de uma dotação criada pelo Governo do Paraná, e a escolha do Trevo como destino de parcela dos recursos envolveu uma mobilização que reuniu Executivo estadual, Prefeitura de Cascavel, parlamentares e entidades empresariais do Oeste.

A importância da obra também ajuda a explicar a disputa política em torno dela. Localizado na entrada de Cascavel, o complexo reúne a BR-277, nos sentidos Foz do Iguaçu e Guarapuava; a BR-369, ligação com o Norte do Paraná; a PRC-467, em direção a Toledo; e a Avenida Brasil, principal acesso urbano da cidade. Antes da intervenção, cerca de 45 mil veículos circulavam diariamente pelo local, em um sistema em nível marcado por semáforos, congestionamentos e conflitos entre fluxos rodoviários e urbanos.

Mais do que uma questão de trânsito de Cascavel, o Trevo é a passagem de caminhões ligados às cadeias de grãos, carnes e produtos industrializados da região e integra a conexão entre o Oeste, o restante do Paraná, a fronteira com o Paraguai e corredores que levam ao Porto de Paranaguá. Por isso, ainda em 2017, antes do governo Ratinho Júnior, a Assembleia Legislativa já destacava o papel do entroncamento no escoamento da safra e na ligação da região com a capital e estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. O projeto já estava pronto, mas faltava descobrir quem pagaria.

Em 13 de junho de 2017, a Frente Parlamentar para o Desenvolvimento da Região Oeste realizou, na Assembleia Legislativa, uma reunião para apresentação das soluções projetadas para o complexo. Representantes do Departamento de Estradas de Rodagem e da Ecocataratas participaram do encontro. Segundo o registro oficial da Alep, o estudo havia levado cerca de dois anos para ser desenvolvido. A estimativa era de aproximadamente R$ 80 milhões e havia previsão de até quatro viadutos.

Na ocasião, a pergunta central já era justamente a que anos depois se tornaria fundamental para compreender a obra: quem pagaria a conta?

Uma das alternativas aventadas era incluir o investimento em operação de crédito do Estado. Outra hipótese implicaria impacto na tarifa do pedágio, ideia rejeitada por deputados da região. Participaram daquela etapa parlamentares como: André Bueno, Adelino Ribeiro, José Carlos Schiavinato, Ademir Bier, Professor Lemos e Márcio Pacheco. A presença na reunião, por si só, não permite atribuir a nenhum deles a autoria do projeto, mas comprova que a discussão política e técnica sobre a reestruturação estava instalada na Assembleia pelo menos desde 2017.

Ou seja: quando a gestão Ratinho Junior assumiu o Estado, em janeiro de 2019, a necessidade do Trevo era antiga e já havia solução de engenharia em discussão. O que ainda não existia era uma fonte financeira definida capaz de bancar a intervenção completa.

2019: o acordo de leniência muda a história da obra

A solução financeira apareceu em agosto de 2019, mas por um caminho completamente diferente de uma emenda parlamentar ou de uma verba convencional do orçamento estadual.

Em 12 de agosto daquele ano, a força-tarefa da Lava Jato do Ministério Público Federal no Paraná firmou um acordo de leniência de R$ 400 milhões com a Ecorodovias, controladora das concessionárias Ecocataratas e Ecovia. A empresa reconheceu o pagamento de propinas para obter alterações contratuais favoráveis desde o ano 2000, além de outros atos investigados de corrupção e lavagem de dinheiro.

A divisão dos R$ 400 milhões ajuda a eliminar uma das principais confusões presentes hoje no discurso político. Foram estabelecidos R$ 30 milhões em multa e R$ 370 milhões como reparação de danos. Destes, R$ 220 milhões seriam devolvidos aos usuários por meio da redução de 30% das tarifas de pedágio e R$ 150 milhões seriam transformados em obras rodoviárias.

Dentro dos R$ 150 milhões para obras, R$ 130 milhões caberiam ao trecho administrado pela Ecocataratas e R$ 20 milhões ao da Ecovia. O próprio Ministério Público Federal registrou que as intervenções seriam definidas pelo DER-PR e pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, o DNIT.

É nesse ponto que se deve separar a origem do dinheiro da escolha política da obra.

O dinheiro não foi criado por Sandro Alex, Ratinho Junior, Leonaldo Paranhos, Gugu Bueno, Márcio Pacheco ou qualquer outro parlamentar. A obrigação financeira nasceu do acordo de leniência celebrado pelo MPF com a Ecorodovias, como forma de reparação pelos ilícitos reconhecidos pela companhia. A própria Ecorodovias registrou, posteriormente, em seus demonstrativos, que a Ecocataratas ficaria responsável por R$ 130 milhões em obras e R$ 120 milhões em redução tarifária.

Outra questão, porém, era decidir onde aplicar os R$ 130 milhões destinados ao trecho da Ecocataratas. É aí que começa a disputa legítima pela participação política.

Oeste se mobiliza para transformar o Trevo em prioridade

Dois dias depois da assinatura do acordo, em 14 de agosto de 2019, deputados do Oeste protocolaram pedido para que os recursos fossem direcionados ao Trevo Cataratas. O documento foi assinado por: Marcel Micheletto, Márcio Pacheco, Coronel Lee e Élio Rusch e encaminhado aos então secretários de Planejamento, Valdemar Bernardo Jorge, e de Infraestrutura e Logística, Sandro Alex.

A movimentação não ficou restrita aos políticos. Em 23 de agosto, representantes do G8, Programa Oeste em Desenvolvimento e Caciopar se reuniram em Cascavel com integrantes da bancada regional para fechar posição em torno de uma reivindicação: usar a maior parcela possível dos recursos disponíveis na readequação do Trevo.

Entre os protagonistas do setor produtivo estava o engenheiro Edson Vasconcelos, que coordenava a Câmara Técnica de Infraestrutura e Logística do Programa Oeste em Desenvolvimento. Naquele momento, Vasconcelos discutia inclusive como o projeto poderia ser dividido em etapas para caber dentro dos recursos disponíveis.

A Prefeitura de Cascavel também entrou na articulação. Leonaldo Paranhos, então prefeito, afirmou, posteriormente, que a administração agiu política e tecnicamente para convencer o Estado e as instituições da importância do Trevo, entregando ao governador um dossiê com informações sobre o fluxo e o peso logístico do entroncamento. Segundo ele, cidades ao longo da BR-277 também disputavam intervenções bancadas pelo acordo.

Portanto, Paranhos pode sustentar documentalmente que participou da articulação para que Cascavel fosse escolhida, mas não que tenha fornecido os R$ 82 milhões.

O mesmo vale para Márcio Pacheco, Micheletto, Coronel Lee, Élio Rusch e representantes das entidades empresariais. Existem registros concretos de atuação para priorizar o Trevo, não para originar o dinheiro.

E qual foi o papel de Sandro Alex e do Governo do Paraná?

Sandro Alex ocupava justamente a Secretaria de Infraestrutura e Logística quando a escolha das obras precisava ser feita. Antes mesmo da mobilização de 23 de agosto, ele já havia informado que o Estado pretendia pedir a inclusão do Trevo Cataratas entre as intervenções do acordo.

Em dezembro de 2019, o Governo do Paraná finalmente anunciou que o Trevo seria contemplado. O pacote estadual utilizaria os R$ 150 milhões previstos na leniência, sendo R$ 130 milhões no trecho da Ecocataratas.

Em 2020, ao autorizar a obra, Ratinho Junior agradeceu ao Ministério Público Federal por ter aceitado a indicação do Paraná para execução do Trevo. O governador também afirmou, em outra agenda oficial, que a inclusão da intervenção havia sido uma exigência do governo durante as tratativas.

Isso dá fundamento para que Ratinho Junior e Sandro Alex reivindiquem participação política e administrativa no processo de priorização. Mas há uma diferença importante entre dizer “participamos da negociação que colocou o Trevo Cataratas entre as obras” e afirmar “conseguimos ou colocamos R$ 82 milhões no Trevo”. A primeira afirmação encontra respaldo documental. A segunda, se interpretada como origem dos recursos, distorce a forma como a obra foi financiada.

Os R$ 82 milhões não eram da Itaipu

Outra confusão recorrente decorre do fato de várias obras rodoviárias de Cascavel terem sido executadas praticamente no mesmo período. O Governo do Paraná mantinha uma parceria bilionária com a Itaipu Binacional, que financiou outras intervenções no Oeste, como duplicações da BR-277, mas esse não é o caso dos R$ 82 milhões do Trevo Cataratas.

Na ordem de serviço assinada em 10 de agosto de 2020, a própria Agência Estadual de Notícias definiu de maneira inequívoca: “Investimento da concessionária é de R$ 82 milhões”. O texto explica, logo depois, que o dinheiro integrava o acordo de leniência da Ecorodovias com o MPF.

Também não se trata dos R$ 5,28 milhões repassados pelo Estado para a reurbanização da Avenida Brasil até o Trevo, nem da contrapartida municipal de R$ 277 mil naquela intervenção. Essa era uma obra complementar e possuía fonte de recursos distinta.

Quem executou e quem fiscalizou

Após a definição do Trevo como prioridade, houve revisão de projeto, licenciamento ambiental, preparação de desvios, obras complementares e acompanhamento técnico. A Ecocataratas, responsável pela obrigação financeira estabelecida na leniência, contratou a Construtora JL, de Cascavel, para executar os serviços. Os trabalhos começaram em 2020. Já o acompanhamento e a fiscalização ficaram a cargo do Departamento de Estradas de Rodagem do Paraná. Em maio de 2022, quando a obra atingiu 80%, o próprio DER informou oficialmente que o andamento era “acompanhado e fiscalizado” pelo órgão.

É nessa etapa que o Governo do Estado também teve responsabilidade administrativa concreta. A Secretaria de Infraestrutura e o DER acompanharam projeto, cronograma, adequações técnicas e execução; o IAT atuou no licenciamento ambiental e órgãos municipais e policiais participaram da organização do trânsito durante as intervenções. As novas pistas e os viadutos foram liberados ao tráfego em 21 de agosto de 2022, quase dois anos após o início dos trabalhos.

Assim, a diferença entre as três etapas fica clara: o dinheiro surgiu da leniência entre MPF e Ecorodovias; a decisão de usar R$ 82 milhões no Trevo passou pela mobilização regional e pela definição de DER/DNIT e do Governo do Paraná; e a execução coube à concessionária e à empresa por ela contratada, com acompanhamento e fiscalização do DER.

Quem pode, de fato, reivindicar participação

É possível reconhecer a participação de diferentes personagens, mas em graus e momentos distintos. Márcio Pacheco estava na apresentação do projeto na Assembleia em 2017; assinou, em 2019, o pedido para destinar os recursos da leniência ao Trevo; participou da mobilização com entidades do Oeste e, em abril de 2020, assinou, com Coronel Lee e Marcel Micheletto, um requerimento cobrando da Secretaria de Infraestrutura informações sobre o início dos trabalhos.

Naquele período, Pacheco adotava, inclusive, uma formulação que talvez seja a mais compatível com os documentos disponíveis: disse que “essa obra não tem pai”, atribuindo a conquista ao conjunto de lideranças e entidades envolvidas.

Leonaldo Paranhos, hoje candidato a deputado federal pelo PSD, também tem participação verificável, sobretudo na fase de priorização. Como prefeito, atuou junto ao Estado, defendeu o Trevo como prioridade e relatou ter apresentado um dossiê técnico para demonstrar os motivos pelos quais Cascavel deveria receber parte do dinheiro. 

Sandro Alex, hoje candidato do PSD ao Governo do Paraná, pode reivindicar atuação na etapa estadual de negociação, escolha e condução administrativa. Era o secretário de Infraestrutura e Logística quando o Trevo foi selecionado, quando o projeto avançou e quando a ordem de serviço foi autorizada. Fontes oficiais mostram que o Estado indicou a obra e participou do processo com MPF, DER e demais envolvidos.

Edson Vasconcelos, candidato a vice-governador na chapa de Sergio Moro, também tem participação anterior à entrada na política partidária. Como representante do setor produtivo e dirigente de entidades de Cascavel, esteve diretamente na mobilização de 2019 e nas discussões técnicas sobre como enquadrar o Trevo nos R$ 130 milhões disponíveis. 

Gugu Bueno, candidato à reeleição para deputado estadual, aparece em atos oficiais posteriores, como a assinatura da ordem de serviço e vistorias da obra, e pode falar em participação política durante sua implementação. Entretanto, nos principais documentos encontrados sobre a mobilização imediatamente posterior à leniência, em agosto de 2019, seu nome não aparece entre os quatro deputados que formalizaram o pedido inicial de destinação dos recursos.

Isso não significa ausência absoluta de atuação, mas impõe uma diferença de peso documental entre acompanhar e apoiar a obra e ter sido protagonista comprovado da mobilização que definiu seu financiamento e prioridade.

Trevo entra de vez nas Eleições de 2026

A disputa pela memória da obra ganhou força neste ano principalmente dentro da campanha de Sandro Alex. Em maio, durante encontro político em Cascavel, Gugu Bueno fez a declaração mais explícita até agora. Ao elogiar o candidato governista, afirmou que o Oeste poderia chamá-lo de “senhor Trevo Cataratas”, além de associá-lo ao Contorno Oeste, à duplicação da BR-277 e à trincheira do Cascavel Velho.

Em agosto, o próprio Sandro Alex ampliou essa narrativa. Ao comentar acordos relacionados às antigas concessionárias, declarou que foi o “seu time” que “organizou os acordos de leniência” responsáveis por tirar do papel o Trevo Cataratas e outras intervenções no Paraná. Em entrevista publicada no fim de agosto, Sandro apresentou uma versão ainda mais detalhada. Disse que o acordo originalmente não previa determinadas obras físicas, que o Trevo teria sido inicialmente recusado e que ele colocou sua inclusão como condição para o Governo do Paraná aceitar o acordo.

Há elementos históricos que sustentam a participação do Estado nessa negociação: documentos de 2019 e 2020 registram que o Paraná indicou a obra e que o governo afirmava ter condicionado seu apoio à inclusão do Trevo. O cuidado necessário está na expressão “organizou os acordos de leniência”. Formalmente, o acordo de R$ 400 milhões foi celebrado entre a força-tarefa do Ministério Público Federal e a Ecorodovias. DER e DNIT tinham participação na definição das obras a serem executadas. Assim, o governo participou da negociação sobre como aplicar parte da reparação, mas não foi a instituição que celebrou ou criou juridicamente a leniência.

Gugu Bueno também passou a usar o Trevo em sua própria campanha. Em material divulgado em agosto, afirmou que trabalhou ao lado de Ratinho Junior e Sandro Alex para “tirar obras importantes do papel”, citando o Trevo Cataratas entre os investimentos recebidos por Cascavel. Nesse caso, os documentos comprovam sua presença e apoio durante a implantação, mas são menos fortes para lhe atribuir papel central na origem do recurso ou na mobilização inicial de agosto de 2019.

Homero Marchese contesta a narrativa governista

Do outro lado da disputa eleitoral, Homero Marchese, candidato a deputado federal pelo Novo, não reivindicou autoria da obra para si. Entrou no debate justamente para contestar a forma como Sandro Alex vem apresentando o Trevo. Depois de um debate eleitoral em agosto, Marchese classificou como enganosa a tentativa de apresentar a obra como realização exclusiva do governo e lembrou que o financiamento estava ligado ao acordo de leniência firmado pelo Ministério Público Federal com a concessionária.

Na questão estrita da origem financeira, a crítica é sustentada pelos documentos: os R$ 82 milhões efetivamente vieram da obrigação assumida pela Ecorodovias/Ecocataratas na leniência. Mas seria igualmente incompleto afirmar que o governo estadual nada teve a ver com o Trevo. DER e DNIT foram chamados a definir as obras, o Paraná fez a indicação, o Executivo estadual colocou o Trevo entre suas prioridades e o DER posteriormente fiscalizou a execução.

Edson Vasconcelos também leva a participação para a eleição

Perfis publicados depois da confirmação da entrada de Vasconcelos - candidato a vice-governador pelo PL - na disputa passaram a apresentar entre suas credenciais a participação na articulação para execução do Trevo Cataratas. Diferentemente de uma reivindicação construída apenas anos depois, há registros contemporâneos de 2019 que mostram Vasconcelos nas discussões do setor produtivo sobre a destinação do dinheiro da leniência e, posteriormente, no acompanhamento do projeto pelo Instituto de Planejamento de Cascavel. Nesse caso, a definição mais adequada é participação técnica e institucional da sociedade organizada na defesa do Trevo como prioridade, e não captação dos R$ 82 milhões.

Paranhos e Márcio Pacheco têm histórico, mas levantamento não encontrou a mesma ofensiva de autoria

Paranhos e Márcio Pacheco também disputam uma vaga de deputado federal em 2026. Ambos possuem documentação histórica suficiente para reivindicar participação na mobilização, mas, no levantamento de declarações públicas indexadas desta campanha feito até 1º de setembro, não foi localizada uma ofensiva semelhante à adotada por Sandro e seus aliados atribuindo individualmente a eles a “autoria” da obra.

No caso de Paranhos, as declarações mais detalhadas encontradas são anteriores à campanha atual e reconhecem justamente a característica coletiva da conquista. Na liberação do Trevo, em 2022, ele afirmou que entidades e lideranças políticas haviam trabalhado conjuntamente e colocou Ratinho Junior como intermediador junto à Justiça. No caso de Pacheco, os registros de 2019 são até mais explícitos em rejeitar a ideia de paternidade individual: “essa obra não tem pai, mas é uma vitória de todos nós”, afirmou naquele período.

A obra tem participantes; não tem um único dono

Passados nove anos da apresentação do projeto na Assembleia Legislativa, a linha do tempo permite uma conclusão menos eleitoral e mais precisa: o projeto e a reivindicação são anteriores a 2019, a solução técnica já estava sendo discutida em 2017 e a necessidade da intervenção vinha de décadas anteriores.

Não foi uma emenda de deputado, não foi dinheiro da Itaipu e não foi uma dotação originalmente criada pelo Governo do Estado para construir o Trevo. A escolha da obra como prioridade, por outro lado, teve forte componente político. Deputados do Oeste formalizaram pedidos, entidades empresariais se organizaram, a Prefeitura defendeu tecnicamente Cascavel e o Governo do Paraná, por meio da Secretaria de Infraestrutura e do DER, participou das tratativas que terminaram com a indicação do projeto. Nesse campo, há participação comprovada de várias pessoas e instituições.

Por fim, a execução e fiscalização constituem uma terceira etapa: a obrigação financeira e a condução da contratação estavam vinculadas à concessionária, a Construtora JL realizou os serviços e o DER acompanhou e fiscalizou a obra até sua conclusão.

É justamente essa divisão que deve orientar qualquer checagem das declarações eleitorais de 2026: Sandro Alex pode dizer que participou da articulação do Estado que priorizou e conduziu administrativamente o Trevo; Paranhos, Márcio Pacheco e Edson Vasconcelos têm elementos concretos para reivindicar participação na mobilização regional; outros parlamentares, como Gugu Bueno, acompanharam e apoiaram fases da implantação. Nenhum deles, porém, pode individualmente se apresentar como a origem dos R$ 82 milhões ou como único responsável por uma obra construída ao longo de vários anos, instituições e governos.

A história documental do Trevo Cataratas é, portanto, menos simples do que o slogan eleitoral: o dinheiro veio da reparação imposta à antiga concessionária; a prioridade foi resultado de uma disputa e articulação política; e a obra saiu do papel por meio de uma cadeia de decisões, execução privada e fiscalização pública.

 

Créditos: Ana Zimermann Acesse nosso canal no WhatsApp