Guto Silva reforça denúncias da Gazeta sobre traições no governo Ratinho
Ex-secretário rompe meses de silêncio, diz ter se sentido “traído” e expõe bastidores de uma sucessão que começou com sua pré-campanha nas ruas e terminou com Sandro Alex escolhido para o governo
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Reprodução
Durante anos, Guto Silva foi um dos homens mais próximos de Ratinho Junior. Ocupou postos estratégicos, participou da construção política do grupo e percorreu o Paraná preparando uma candidatura ao governo. A pré-campanha avançou a ponto de apoiadores produzirem bonés e organizarem a mobilização para colocá-lo na rua. O desfecho, porém, foi outro: Guto perdeu a sucessão para Sandro Alex, tentou encontrar espaço na disputa pelo Senado e terminou o período das convenções sem candidatura.
Agora, depois de meses evitando falar abertamente sobre o episódio, Guto resolveu apresentar sua versão. Em entrevista à revista Piauí, afirmou ter se sentido “traído em todo o processo” que terminou com sua retirada da disputa pelo Palácio Iguaçu. Também revelou que não participou da decisão que sepultou seu projeto eleitoral. Segundo seu relato, foi chamado por Ratinho e comunicado de que haveria uma “mudança de rumo”.
A fala ganha dimensão porque vem de alguém que esteve durante anos no núcleo de confiança do governador. Mais do que isso, ajuda a preencher uma lacuna numa história que a Gazeta do Paraná acompanha desde o início do ano: como o nome apontado durante meses como favorito à sucessão perdeu espaço em poucas semanas e acabou fora da chapa do grupo que ajudou a construir.
Uma história
Para entender o peso da declaração é preciso voltar à maneira como o próprio Guto costumava contar o início de sua relação com Ratinho. Segundo o ex-secretário, a aproximação começou longe dos gabinetes do Palácio Iguaçu, durante uma passagem por Foz do Iguaçu. Guto relatava que, para economizar com hotel, chegou a dormir em um box de barco. Foi naquele contexto, entre peixe, cerveja e uma conversa informal com Ratinho, que começou a relação política entre os dois.

A história era apresentada por Guto como símbolo de uma parceria construída antes de ambos chegarem ao centro do poder estadual. Ele dizia ter ajudado Ratinho quando o atual governador ainda construía seu projeto político e, anos mais tarde, tornou-se um de seus principais auxiliares. A proximidade chegou a tal ponto que, durante a sucessão, Guto passou a ser conhecido nos bastidores como o “candidato do coração” do governador. Quando questionado sobre a expressão, brincou que esperava ser também o “candidato da razão”.
É essa trajetória que diferencia o episódio de uma disputa convencional entre integrantes de um partido. Guto não construiu um projeto para enfrentar Ratinho, mas para sucedê-lo. Organizou sua pré-campanha, percorreu o Estado, conversou com prefeitos, deputados e lideranças e chegou à reta decisiva acreditando que poderia receber o respaldo do governador. Até Sandro Alex, que acabou escolhido, contou à Piauí que imaginava que Guto seria o candidato.
O desgaste
O cenário começou a mudar à medida que Guto acumulava desgaste político. Ao longo dos meses que antecederam a definição, a Gazeta publicou sucessivas reportagens sobre denúncias, investigações e questionamentos envolvendo seu nome, pessoas de seu entorno ou áreas relacionadas à sua atuação política. Entre os episódios acompanhados pelo jornal estavam casos relacionados à Sanepar, ao programa Olho Vivo, a contratos públicos e a questionamentos patrimoniais.
Em fevereiro, a Gazeta já revelava avaliações existentes no entorno do Palácio Iguaçu segundo as quais Guto enfrentava dificuldades para tornar sua candidatura eleitoralmente competitiva. As controvérsias se somavam ao baixo desempenho nas pesquisas e alimentavam dúvidas sobre sua capacidade de enfrentar uma eleição estadual. Denúncias, suspeitas e investigações não equivalem a condenações, mas o efeito político daquele acúmulo já era perceptível.
A questão é que Ratinho não abandonou Guto imediatamente. Mesmo depois de meses de desgaste, ele chegou a março ainda tratado como favorito em movimentos internos do grupo. Se aqueles episódios já eram suficientes para inviabilizá-lo, fica a dúvida sobre por que sua candidatura continuou sendo alimentada. Se não eram, outros fatores necessariamente entraram na equação.
Dois pesos
As pesquisas são importantes nessa discussão porque a baixa intenção de voto de Guto foi apresentada nos bastidores como uma das razões para sua perda de força. E seus números eram ruins. Em levantamentos daquele período, aparecia abaixo dos 5% e distante dos principais adversários.
A escolha de Sandro Alex, entretanto, não resolveu imediatamente o problema eleitoral do Palácio Iguaçu. O novo candidato também demorou a emplacar.
É aí que aparece uma diferença política relevante. Ratinho deixou de esperar que Guto crescesse, mas decidiu continuar esperando que Sandro crescesse. Mesmo diante de números modestos, fechou questão em torno do novo candidato, colocou seu capital político a serviço da campanha e posteriormente reforçou a chapa com Rafael Greca na vice.
Isso não significa que pesquisas tenham sido o único critério para a troca. Significa justamente o contrário: os números, sozinhos, não explicam a decisão. Se a dificuldade para emplacar pesou contra Guto, ela não produziu a mesma consequência quando o problema passou a ser enfrentado por Sandro.
Os bonés
A velocidade da mudança ficou registrada até no material da pré-campanha. Bonés haviam sido produzidos para a mobilização de Guto e começaram a chegar aos apoiadores justamente quando circulava a notícia de que Ratinho havia escolhido Sandro Alex.
Nos grupos do chamado “time Guto”, a perplexidade apareceu imediatamente. Enquanto integrantes recebiam o material, tentavam entender como uma candidatura em estágio tão avançado havia sido interrompida. Uma das mensagens reveladas pela Gazeta sintetizou a irritação: “coloca os prefeitos todos em sintonia com o Guto e depois faz isso?”

O episódio é pequeno diante da dimensão da sucessão, mas simboliza bem aquele momento. Havia prefeitos mobilizados, lideranças comprometidas, estrutura sendo organizada e material chegando às mãos dos apoiadores. Os bonés de uma campanha que nunca chegaria às urnas estavam prontos antes que muitos dos próprios aliados soubessem que o candidato havia mudado.
A ruptura
Segundo o relato feito à Piauí, no início de abril Ratinho chamou Guto ao Palácio Iguaçu e informou que haveria uma “mudança de rumo”. O encontro foi rápido. Para o ex-secretário, a decisão já estava tomada.
Ao recordar aquele momento, Guto diz que não foi consultado no “processo de desconstrução” de sua candidatura e que apenas recebeu a comunicação. A expressão é dele e não significa, por si só, que tenha existido uma articulação irregular para derrubá-lo. Mostra, entretanto, como o próprio Guto interpreta o fim de um projeto que já estava politicamente em movimento.
A reação na base ajuda a completar o quadro. Além das mensagens de apoiadores, o desconforto chegou à Assembleia Legislativa. Luiz Claudio Romanelli mencionou “forças ocultas” atuando contra Guto, enquanto outros integrantes do grupo atribuíram o resultado aos erros e ao desgaste acumulado pelo próprio ex-secretário. Naquele momento, porém, ele preferiu não entrar publicamente na disputa de versões.
Sem espaço
Perder o governo não encerrou a história. Guto ainda tentou encontrar uma alternativa dentro da composição governista e seu nome passou a circular para o Senado. Em julho, a Gazeta mostrou que ele havia voltado ao radar para uma das vagas e que havia expectativa de nova conversa com Ratinho.
Também essa possibilidade desapareceu. A composição avançou por outro caminho e Guto terminou sem concorrer ao governo, ao Senado ou mesmo a deputado. Depois de ocupar postos estratégicos e passar anos preparando uma candidatura majoritária, ficou também fora do governo e retomou projetos pessoais, os estudos e atividades empresariais.
É nesse ponto que a dimensão da perda política fica mais clara. Guto começou o processo tentando discutir em que condições disputaria o Palácio Iguaçu e terminou sem ter o que disputar. Enquanto Sandro entrou em campanha e Ratinho manteve o controle da própria sucessão, ele passou a acompanhar a eleição de fora.
O silêncio
Guto não reagiu imediatamente. Evitou uma ofensiva pública contra Ratinho e não transformou Sandro em adversário. Mas, à medida que a chapa foi sendo fechada, começou a deixar sinais de que ainda havia uma história por contar.
Em 3 de agosto, depois da confirmação de Rafael Greca como vice de Sandro, publicou: “Silêncio também é posição. E toda posição tem prazo.” Não vinculou expressamente a mensagem à eleição, mas o momento escolhido para publicá-la provocou repercussão nos bastidores.
Dois dias depois, enviou uma mensagem aos antigos aliados e deixou grupos de WhatsApp dos quais participavam integrantes ligados ao Palácio Iguaçu. Explicou que precisava daquele período para “assimilar os acontecimentos e compreender melhor as coisas antes de falar”. Também admitiu estar triste com o desfecho de um projeto para o qual dizia ter se preparado durante 18 anos.
A entrevista à Piauí mostra o que havia por trás daquele silêncio. Guto admite que ainda tem dificuldade para explicar e contextualizar tudo o que aconteceu. E, ao resumir como se sentiu ao final do processo, escolheu uma palavra que muda o peso político de toda essa cronologia: “traído”.
Ferida aberta
A declaração não prova que tenha existido uma operação deliberada para retirar Guto da disputa nem demonstra qualquer irregularidade na escolha de Sandro Alex. Ela faz algo politicamente mais relevante neste momento: coloca no debate eleitoral a versão de quem mais perdeu com a reorganização da sucessão.
E essa versão aparece justamente quando Sandro precisa convencer o eleitor de que representa a continuidade de uma administração altamente aprovada. A popularidade de Ratinho é um dos maiores ativos da candidatura, e demonstrar unidade tornou-se parte essencial da estratégia. A reaparição de Guto recorda que a construção dessa unidade deixou feridos pelo caminho.
Há ainda uma questão que permanece sem resposta. O baixo desempenho nas pesquisas ajudou a alimentar o argumento de que Guto não conseguia emplacar. Sandro também demorou a decolar, mas recebeu algo que seu antecessor deixou de ter: tempo, respaldo e a decisão do governador de sustentar seu nome apesar dos números. Somada à mobilização já existente em torno de Guto e à própria expectativa de Sandro de que ele seria o escolhido, essa diferença torna insuficiente explicar a troca apenas pela fotografia das pesquisas.
No início de agosto, Guto avisou que todo silêncio tinha prazo. Agora resolveu falar. A relação que começou, segundo a história que gostava de contar, entre peixe e cerveja em Foz do Iguaçu atravessou anos de poder, chegou a uma pré-campanha com prefeitos mobilizados e bonés produzidos e terminou com Guto fora das urnas. A pergunta que sua entrevista devolve ao centro da campanha é simples: o que aconteceu entre uma coisa e outra?
Créditos: Redação
