Vorcaro perguntou a Alexandre de Moraes se deveria deixar o Brasil antes de ser preso
Mensagens reveladas pelo Estadão mostram que o fundador do Banco Master questionou Alexandre de Moraes sobre a possibilidade de deixar o país dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal
Créditos: Reprodução/Rosinei Coutinho/STF
O banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, perguntou ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), se deveria deixar o Brasil dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal, em novembro de 2025. As mensagens fazem parte da investigação sobre o Banco Master e foram reveladas nesta terça-feira (1º) pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Em 15 de novembro, Vorcaro enviou a Moraes a seguinte pergunta: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. De acordo com o Estadão, a mensagem estava relacionada ao avanço da Operação Compliance Zero e à possibilidade de o banqueiro deixar o país.
Dois dias depois, em 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de São Paulo. Ele estava prestes a embarcar em um jato particular. O destino inicial seria Malta e, depois, Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Na época, investigadores levantaram a suspeita de que o banqueiro tentava deixar o Brasil.
As mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram que ele e Moraes mantiveram conversas nos dias que antecederam a prisão. Segundo o Estadão, os diálogos tratavam do avanço das investigações e de possíveis medidas contra o fundador do Banco Master.
Investigadores avaliaram que parte das conversas pode indicar que Moraes teria repassado informações sobre a investigação, inclusive relacionadas a possíveis datas e horários de ações da Polícia Federal. O conteúdo recuperado no celular, porém, não permite reconstruir todas as conversas. Em vários casos, as respostas enviadas pelo ministro não foram recuperadas.
Na véspera da prisão, em 16 de novembro, Vorcaro perguntou: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.
Naquele momento, ainda não havia uma ordem de prisão preventiva contra o banqueiro. A decisão só foi assinada pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, às 15h29 de 17 de novembro, poucas horas antes da prisão.
As mensagens vieram a público depois que o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, retirou nesta terça-feira (1º) o sigilo da ação que reúne as conversas entre Vorcaro e Moraes.
Vorcaro fez pedidos a Moraes
As mensagens mostram que Vorcaro procurou Moraes diversas vezes para perguntar sobre possíveis medidas relacionadas à investigação.
Em 15 de novembro, depois de receber uma mensagem do ministro cujo conteúdo não foi recuperado, o banqueiro respondeu: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo”.
Naquele período, Vorcaro negociava a venda do Banco Master para um grupo formado pela Fictor Holding Financeira e investidores dos Emirados Árabes Unidos. A operação não avançou depois da prisão do banqueiro e da liquidação do Master pelo Banco Central, em 18 de novembro.
Na mesma conversa, Vorcaro perguntou: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o (Gabriel) Galípolo (presidente do Banco Central) tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”.
No dia da prisão, às 17h26, o banqueiro voltou a perguntar a Moraes se havia “alguma novidade” e acrescentou: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
Perguntas sobre busca e quebra de sigilo
As conversas relacionadas à investigação começaram, pelo menos, em 4 de novembro de 2025. Naquele dia, Vorcaro perguntou ao ministro: “médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?”.
Na sequência, insistiu: “Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?”.
Segundo investigadores e peritos ouvidos pelo Estadão, as mensagens podem indicar que Vorcaro tinha conhecimento de possíveis medidas cautelares que poderiam ser adotadas contra ele.
Em outro trecho, o banqueiro escreveu: “Só vai saber qdo ele chamar né”.
Também foram encontradas mensagens que mostram contato entre Walfrido Warde, advogado de Vorcaro na época, e o juiz horas antes da prisão. “Estamos infernizando o cara”, disse Warde ao banqueiro.
Vorcaro demonstrava preocupação com os possíveis efeitos de uma medida judicial sobre os negócios do banco. “conseguem medida contra agora, vai tudo por água abaixo”, escreveu. Depois, acrescentou: “Essa minha maior preocupação”.
Às 19h09, enviou outra mensagem: “Vou ficar acordado então aqui pra te aguardar.”
Cerca de uma hora e meia depois, voltou a procurar Moraes:
“Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade. Como eu disse não temos nada, nem o Banco Central abriu sequer um processo administrativo, e eles me auditam todos os dias. Estou pronto pra ir em qualquer um explicar qualquer coisa, mas uma medida drástica agora literalmente quebra o banco de modo irreversível. Se puder me deixe uma mensagem após falar com ele”, escreveu.
Na sequência, acrescentou: “Se fosse possível saber o que é, entramos imediatamente”.
“Conseguiu bloquear a maldade?”
Em 6 de novembro, Vorcaro enviou uma série de perguntas ao ministro. “Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade? Isso é Brasília? Sabe o tema? Está seguro ou tem que entrar agora urgente?”, escreveu.
O banqueiro também citou uma iniciativa de seu então advogado, o criminalista Pierpaolo Cruz Bottini, para tentar levar o caso a uma determinada vara.
“Ele disse que teria que justificar pq estaria pedindo tá. Eu falei pra fazer de toda forma”, afirmou Vorcaro.
Depois, acrescentou: “O Píer acha que se entrar do nada pode acelerar algo, sem justificativa. Ele fez pedido macro, e acredita que vão jogar pra essa vara. O que acha?”.
Procurado pelo Estadão, Bottini não se manifestou.
No dia 7 de novembro, Vorcaro afirmou que não tinha “qualquer preocupação para tratar da parte técnica” da investigação. Segundo ele, o problema seria “se sair algo mesmo”. Em outra mensagem, escreveu: “Amanhã vamos ver se conseguimos puxar do lado de cá”.
Mensagens no dia da prisão
Na manhã de 17 de novembro, Vorcaro informou a Moraes que tentava antecipar investidores para concluir parte da negociação envolvendo o Banco Master.
O banqueiro também disse ter recebido informações de que o caso poderia estar vazando.
“De outro lado, acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhes. Mas a turma do brb me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. E que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas lá. Se vazar algo será péssimo mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo.”
A menos de 24 horas da prisão, Vorcaro escreveu: “Se tiver alguma novidade vamos falar”.
Mensagens não permitem reconstruir toda a conversa
A investigação não conseguiu recuperar integralmente os diálogos entre Vorcaro e Moraes.
Segundo o Estadão, os dois utilizavam mensagens em modo de visualização única. Vorcaro escrevia textos no aplicativo de notas do celular, fazia capturas de tela e enviava as imagens ao ministro.
Com esse método, a extração do aparelho conseguiu recuperar as mensagens enviadas por Vorcaro, mas não necessariamente as respostas de Moraes.
A investigação sobre o Banco Master começou na primeira instância e foi encaminhada ao STF em dezembro de 2025 por determinação do ministro Dias Toffoli. A mudança ocorreu depois da identificação de transações imobiliárias envolvendo Vorcaro e o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que possui foro privilegiado.
Toffoli posteriormente deixou a relatoria do caso, que passou para André Mendonça.
Vorcaro voltou a ser preso em 4 de março de 2026. Antes disso, ele havia sido solto em 29 de novembro de 2025 por decisão da Justiça Federal.
O Poder360 informou que procurou Alexandre de Moraes e a defesa de Daniel Vorcaro para comentar as mensagens e o relatório da Polícia Federal. Até a publicação da reportagem, não havia recebido resposta. O veículo informou que o texto seria atualizado caso houvesse manifestação.
