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Tortura, execução e silêncio: operação contra PM “Sancho Loko” escancara o que mães denunciam há anos no Paraná

Investigação do Gaeco contra três policiais militares em Curitiba, entre eles o influencer Junior Sancho Cambuhy, coincide com audiência na Alep em que mães relataram execuções, tortura, intimidação e dificuldades para romper o ciclo de impunidade

Por Gazeta do Paraná

Tortura, execução e silêncio: operação contra PM “Sancho Loko” escancara o que mães denunciam há anos no Paraná Créditos: Alep

Junior Sancho Cambuhy não era um policial desconhecido que o Ministério Público encontrou por acaso no meio de uma investigação. Conhecido nas redes como “Sancho Loko”, ele construiu uma persona pública em torno da farda, da arma e do comentário agressivo sobre criminalidade. Nascido em Curitiba, hoje com 44 anos, ele acumula mais de 260 mil seguidores no Instagram, virou figura amplamente conhecida na capital paranaense e chegou a disputar uma vaga de deputado federal em 2022 pelo Pros. Nas redes, costuma publicar vídeos opinando sobre casos de grande repercussão e, segundo reportagens desta quarta-feira, há postagens em que comemora mortes de suspeitos em confrontos com a PM.  

Foi esse policial, com rosto conhecido e discurso público consolidado, que acabou atingido pela operação deflagrada pelo núcleo de Curitiba do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado. A ação foi cumprida na terça-feira, 7 de abril de 2026, e apura o possível cometimento reiterado dos crimes de tortura, fraude processual, lesão corporal e falsidade ideológica por três policiais militares. Ao todo, foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão, expedidos pela Vara de Auditoria da Justiça Militar do Paraná: três nas residências dos investigados e um na unidade militar em que eles estão lotados, na capital. A operação teve apoio da Corregedoria-Geral da Polícia Militar.  

As apreensões deram ainda mais peso ao caso. Segundo as informações divulgadas, os investigadores recolheram telefones celulares e outros dispositivos de armazenamento eletrônico. Nas casas de dois dos investigados, foram encontradas munições irregulares e dinheiro em espécie. Já em armários sem identificação na unidade da PM, foram localizados simulacros de arma de fogo, munições irregulares e porções de maconha, crack e cocaína. Sancho Loko acabou preso. A defesa, feita pelo advogado Claudio Dalledone, sustenta que ele é inocente e que os materiais apreendidos seriam compatíveis com a atividade de instrutor de tiro. A PM afirmou que instaurará o procedimento administrativo cabível e declarou que não compactua com condutas que afrontem os princípios da corporação.  

A operação já seria grave por si só. Mas ela ganhou outro significado poucas horas depois, quando a Assembleia Legislativa do Paraná abriu espaço para uma audiência pública sobre violência policial. Proposto pela Bancada de Oposição e liderado pelo deputado Arilson Chiorato, o encontro foi realizado na noite de terça-feira, 7 de abril, no Plenarinho da Casa, com a participação, entre outros, de Maurício Dieter, Marcel Jeronymo, José Carlos Portella Junior, Augusto Rodrigues, Haydee Melo, Cleusa Maria Pereira e Amanda Caroline da Silva. Também serviu para lançar a campanha “É seguro pra você, e é seguro pra mim”, ligada ao Projeto de Lei 448/2019, que trata da obrigatoriedade de câmeras em viaturas e uniformes.  

O que a audiência fez foi retirar a violência policial do terreno abstrato. Ali, ela apareceu em primeira pessoa.

Não foram falas genéricas sobre segurança pública. Foram mães, tias e familiares descrevendo como os corpos de seus filhos e sobrinhos apareceram, o que ouviram das testemunhas, o que viram nos laudos e como, depois da morte, começou outra batalha: a de enfrentar a versão oficial.

Haydee Melo, do movimento Justiça por Almas, de Londrina, levou para a tribuna uma denúncia que misturava número, memória e revolta. Tia de uma vítima da letalidade policial, ela afirmou que Londrina segue entre as cidades mais letais do Paraná e citou a chamada “Noite Sangrenta”, de março de 2016, quando 12 jovens foram executados e 14 ficaram feridos, sem que, dez anos depois, houvesse responsabilização dos policiais. Em seguida, puxou o foco para o presente. Disse que, entre 2019 e 2025, o Paraná registrou 2.844 mortes decorrentes da ação do Estado e resumiu o que, para ela, está em jogo: “Isso é uma geração inteira sendo enterrada”. Na fala, ela insistiu que a tragédia não termina na morte. “Os nossos morreram ali. Mas e nós, familiares, que estamos aqui morrendo aos poucos?”, questionou.

O relato de Cleusa Maria Pereira foi ainda mais devastador porque veio costurado por datas, horários e sequências. Ela contou que o filho foi abordado em 9 de janeiro de 2024 por uma equipe da Rone perto do Habib’s da Avenida João Leopoldo Jacomel, em Pinhais. Segundo ela, o rapaz e o primo foram colocados na viatura e levados para o Parque das Águas, onde ele teria sido torturado por mais de duas horas. Quando voltou para casa, por volta das 19h40, estava, nas palavras da mãe, “todo machucado”, com a boca cortada, o pescoço lesionado e os pés feridos por cacos de vidro. Cleusa disse ainda que os policiais foram à sua casa, quebraram objetos no interior do imóvel e, dias depois, voltaram a entrar na residência. Na terceira vez, afirmou, simularam um confronto e mataram seu filho. “Foi uma execução”, disse, detalhando que ele levou tiros “na fonte, na cabeça e no coração” e que havia pólvora grudada em seu rosto. O ponto mais brutal de sua fala veio quando reconstruiu, a partir do que ouviu de testemunhas, os últimos instantes do rapaz: “É muito duro para uma mãe ver o filho sem camiseta e mão para cima falando ‘socorro, mãe, socorro’ e eu não poder fazer nada”.

Joelma de Lara, mãe de Jônatas Davi, também falou a partir de uma certeza construída contra a narrativa oficial. Ela contou que, desde o início, intuía que a história de confronto não se sustentava. Disse ter gritado para os policiais que descobriria a verdade e relatou a busca pelas imagens que, segundo ela, acabaram mostrando o filho rendido, com as mãos para cima, sendo levado para um canto antes dos disparos. “Graças a Deus a gente conseguiu essas imagens para provar que o meu filho realmente estava rendido, com as mãos para cima, levaram ele para o canto e atiraram”, afirmou. A fala dela deixou claro que, para essas famílias, a luta já não é apenas por justiça no sentido jurídico. É também pela preservação de uma verdade básica: a de que os mortos não reagiram como a versão oficial diz que reagiram.

Marilene Ferraz levou outro tipo de dor para a audiência: a dor burocraticamente insultada. Mãe de Davi Gregório Ferraz dos Santos, morto aos 15 anos em Londrina, em 15 de junho de 2022, ela não falou apenas da execução, mas da forma como o Estado e parte da mídia reescreveram a biografia do adolescente depois de morto. Disse que o filho era coroinha, bom aluno, estudava inglês, fazia curso técnico e buscava vaga como menor aprendiz. Contou que, após a morte, chegou a receber telefonemas convocando Davi para entrevistas de emprego. Em contraste com essa vida interrompida, descreveu a versão policial segundo a qual o rapaz teria apontado uma arma para os agentes. Marilene contestou essa narrativa em detalhes: afirmou que Davi foi alvejado pelas costas, sofreu ferimentos defensivos nas mãos e nos braços, teve dedos decepados por disparo de arma de fogo e que um revólver calibre .38 apresentado depois pela polícia apareceu “intacto e limpo”, sem sangue e sem impacto. Sua fala cresceu à medida que desmontava a linguagem oficial. Chamou o boletim de ocorrência de “boletim criminoso”, o laudo do IML de “laudo sujo, vergonhoso”, e resumiu o mecanismo que enxerga por trás dos casos: “Aqui no Paraná, o que existe é um grupo de extermínio que julga, condena e executa os nossos filhos debaixo dos olhos das autoridades do Ministério Público”.

Mari Rodrigues Pereira, da Rede Nenhuma Vida a Menos e mãe de Lorenzo, levou a audiência para outro ponto sensível: o que acontece com as famílias que continuam vivas. Disse que não queria mais “dois ou três ou cinco minutos” para repetir informações que o Estado já conhece. Em seguida, relatou que uma equipe da Rone invadiu sua casa, comeu a comida da sua geladeira e a ameaçou para que ela não prosseguisse com a ação penal pela morte do marido. A certa altura, deixou de falar em “policial bandido” e adotou um termo ainda mais duro: “Quem usa recurso, farda, armamento do Estado para matar é miliciano”. Depois, apontou para o coração do problema, na avaliação dela: “Eles vão lá e atiram, mas quem mata é o Ministério Público”. O raciocínio foi retomado quando descreveu a peregrinação atrás de laudos que, segundo disse, estavam prontos, mas não eram juntados ao inquérito porque “a promotora não pede”.

Fernanda Carvalho, irmã de Vladimir, morto em 19 de março de 2024, puxou a audiência para o terreno do luto permanente. Contou que o pai estava presente no Plenarinho e que, para os dois, era difícil estar ali. Disse que o irmão e um amigo estavam em um Gol na entrada de Campo Magro quando foram colocados por policiais da Rone dentro do carro e depois apareceram em um “teatro” montado no Parque Tingui. Segundo ela, os meninos estavam com sinais evidentes de violência, e seu irmão tinha os braços quebrados. “A gente não vai deixar que a memória deles seja apagada”, afirmou.

Também houve relatos de mulheres periféricas que ampliaram o foco do debate para além dos casos de morte. Amanda Caroline da Silva, do Núcleo Periférico, disse que as mulheres negras não lidam apenas com o luto, mas com uma “espécie de morte em vida”. Falou de jovens levados para áreas isoladas, agredidos, com dentes quebrados e documentos queimados, “isso quando sobrevivem”. Carol Silva, do Fórum Paranaense de Pessoas Trans, lembrou que a violência policial também se manifesta quando delegacias se recusam a registrar crimes contra pessoas trans ou quando mulheres trans em situação de prostituição são coagidas e expulsas dos espaços públicos. Edneia de Fátima Santos, da população em situação de rua, afirmou que pessoas nas ruas sofrem violência policial cotidiana, têm pertences levados e até animais de estimação agredidos.

Os especialistas e representantes institucionais que falaram antes e depois dessas mães acabaram, em grande medida, nomeando o que elas já haviam mostrado. Maurício Dieter, professor da USP, afirmou que a pesquisa criminológica aponta para a necessidade de um Ministério Público mais proativo, de maior controle civil sobre a polícia ostensiva e da instalação de câmeras corporais. José Carlos Portella Junior, advogado e integrante do coletivo Filhos Roubados, Mães Dizimadas, chamou a lógica descrita pelos depoimentos de “metodologia da morte” seguida por uma “metodologia da impunidade”. Augusto Rodrigues, da Comissão de Direitos Humanos da OAB-PR, disse que o desafio é fazer o Ministério Público assumir de fato a função de investigar casos de possível violência ou letalidade praticada por policiais. Marcel Jeronymo, ouvidor-geral externo da Defensoria Pública, sustentou que o problema não pode ser reduzido a um agente isolado, porque envolve um Estado que “escolhe certos corpos para serem assassinados” e depois produz histórias judiciais para culpabilizar as vítimas.  

A força da audiência, no entanto, não esteve na formulação técnica. Esteve no encaixe quase perfeito entre o que as mães contaram e o tipo de crime agora atribuído, em tese, aos três policiais investigados pelo Gaeco: tortura, fraude processual, lesão corporal e falsidade ideológica. A operação não prova automaticamente tudo o que foi dito na Alep. Mas, ao atingir um PM conhecido justamente por transformar a farda em plataforma de influência, ela torna muito mais difícil tratar os relatos das famílias como exagero, ressentimento ou militância.

No fim da noite, a Assembleia anunciou encaminhamentos: cobrança ao Ministério Público e ao Tribunal de Justiça, mobilização pela aprovação do projeto das câmeras corporais, criação de uma comissão permanente e articulação para pressionar o Estado a adotar mecanismos mais duros de controle. O problema é que, para as mães, o relógio da política corre em outro ritmo.

Elas já contam o tempo em corpos. Em laudos. Em processos que não andam. Em noites que não acabam.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp