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TCE impõe freio ao “13º salário” de vereadores e expõe risco de manobras após eleições

Tribunal reforça que benefício só é legal com lei prévia, antes do pleito, e dentro dos limites fiscais, recado direto contra práticas oportunistas

Por Eliane Alexandrino

TCE impõe freio ao “13º salário” de vereadores e expõe risco de manobras após eleições Créditos: Divulgação

O Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) voltou a apertar o cerco sobre práticas recorrentes nas câmaras municipais ao estabelecer, com ainda mais clareza, os limites para o pagamento do chamado 13º subsídio a vereadores. Embora reconheça a legalidade do benefício, a Corte deixou evidente que o tema está longe de ser uma simples decisão administrativa e pode, sim, esconder distorções graves quando utilizado de forma oportunista.

A manifestação do Tribunal ocorreu em resposta a uma consulta formal, mas o conteúdo da decisão vai além de um caso específico. Trata-se de um recado direto a legislativos municipais que, historicamente, tentam ajustar remunerações conforme a conveniência política, muitas vezes após o resultado das eleições.

O TCE foi categórico: não é permitido aprovar ou publicar leis que instituam o 13º subsídio após o pleito eleitoral, ainda que isso ocorra antes do fim da legislatura. Para a Corte, esse tipo de conduta afronta princípios básicos da administração pública, especialmente a moralidade e a impessoalidade, ao permitir que agentes políticos legislem em benefício próprio com base no resultado das urnas já conhecido.

Na prática, a decisão busca evitar dois cenários igualmente problemáticos: o aumento de benefícios por grupos reeleitos, aproveitando a manutenção do poder, e a eventual redução ou manipulação de subsídios por grupos que perderam espaço político, em um movimento de retaliação. Em ambos os casos, o interesse público acaba subordinado a disputas internas.

Além da exigência de anterioridade, ou seja, da aprovação da lei antes das eleições para vigorar na legislatura seguinte, o Tribunal também reforçou que o pagamento só é legítimo quando atendidos requisitos rigorosos. Entre eles, está a necessidade de lei específica que fixe os subsídios, a compatibilidade com o orçamento municipal e o respeito aos limites de despesa previstos na Constituição Federal.

Outro ponto central é a obrigatoriedade de cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Isso inclui a apresentação de estimativas de impacto orçamentário-financeiro e a comprovação de que o aumento de despesa não compromete o equilíbrio das contas públicas. Sem esses elementos, qualquer ato que gere aumento de gasto com pessoal pode ser considerado nulo.

O TCE também destacou que não é permitido instituir o benefício nos 180 dias finais de mandato, período em que a legislação veda a criação de despesas que possam comprometer a gestão seguinte. A regra, muitas vezes ignorada na prática política, reforça a necessidade de planejamento e responsabilidade na condução das finanças públicas.

A decisão ainda dialoga com entendimento já consolidado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que admite o pagamento de 13º e adicional de férias a agentes políticos, desde que exista previsão em lei específica. Ou seja, o benefício não é ilegal por si só, o problema está na forma como ele é criado e aplicado.

Ao detalhar esses critérios, o Tribunal evidencia um cenário recorrente nos municípios brasileiros: a utilização de brechas legais para ampliar vantagens de agentes políticos sem o devido debate público ou planejamento financeiro. A exigência de aprovação prévia à eleição, nesse contexto, funciona como um mecanismo de contenção contra decisões tomadas sob influência direta de interesses eleitorais.

Mais do que uma orientação técnica, a posição do TCE-PR revela uma tentativa de impor limites a práticas que, embora muitas vezes formalmente justificadas, acabam desvirtuando o papel do Legislativo municipal. Ao exigir transparência, planejamento e respeito aos princípios constitucionais, o órgão reforça que o uso da máquina pública não pode servir de instrumento para autopromoção ou benefício próprio.
O recado, portanto, é claro: o pagamento do 13º subsídio pode até ser permitido, mas não há espaço para improviso, conveniência política ou decisões tomadas no calor do resultado eleitoral.

Foto: Divulgação

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