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TCE aponta Guto Silva como articulador de manobra de desvio de recursos da Copel

Sessão de 22 de novembro de 2023 registra fala do secretário sobre “troca de fonte” para viabilizar gastos. Relatório oficial com base em fevereiro de 2026 confirma uso de fontes diversas e desvinculação entre anúncio e execução.

Por Gazeta do Paraná

TCE aponta Guto Silva como articulador de manobra de desvio de recursos da Copel Créditos: Alep

O debate sobre o destino dos bilhões obtidos com a venda da Copel ganhou um elemento central dentro do próprio Tribunal de Contas do Estado do Paraná: a identificação de quem teria estruturado o modelo de utilização dos recursos. Em sessão do Tribunal Pleno realizada em 22 de novembro de 2023, o nome do secretário de Planejamento, Guto Silva, foi diretamente associado à lógica de aplicação dos valores por meio de substituição de fonte orçamentária — mecanismo que hoje está no centro da controvérsia.

O registro consta no Diário Eletrônico do TCE. Durante o julgamento, o conselheiro Fabio Camargo trouxe ao plenário uma declaração atribuída ao secretário, segundo a qual os recursos da venda da Copel não poderiam ser utilizados diretamente em determinadas despesas, como obras de pavimentação. Para viabilizar esse tipo de aplicação, afirmou, o governo recorreria à chamada “troca de fonte”. A fala foi reproduzida no processo nos seguintes termos: “o recurso não pode, por exemplo, bancar diretamente o asfalto de uma rua (…) para isso o governo terá que fazer a chamada de troca de fonte de receita”. 

A partir desse ponto, o conselheiro sustentou que a estratégia não altera a finalidade original do dinheiro e pode caracterizar desvio indireto. “O fato de trocar a fonte de receita não muda o fim original do recurso”, afirmou, ao defender a suspensão da aplicação dos valores e a necessidade de um plano formal de gestão aprovado pela Corte de Contas. 

O peso da declaração não está apenas na crítica técnica, mas no fato de que o próprio mecanismo é apresentado como solução concebida no âmbito do governo. Ao associar diretamente a “troca de fonte” à atuação do secretário de Planejamento, o processo indica que a modelagem não surgiu de forma difusa na burocracia estatal, mas como uma estratégia deliberada para contornar limitações de uso do recurso.

A própria tramitação no Tribunal revela o nível de envolvimento do secretário no tema. Durante o debate, a procuradora do Ministério Público de Contas, Valeria Borba, afirmou ter presenciado repetidas idas de Guto Silva ao Tribunal para tratar do assunto. “Eu vi, cinco vezes, o secretário Guto Silva vindo bater nessa porta”, declarou, ao questionar a condução do processo e a definição sobre a aplicação dos recursos.  

A fala expõe que o desenho da política não se limitou a uma construção técnica interna do Executivo, mas foi discutido diretamente com a Corte de Contas, em um contexto de dúvidas sobre o destino dos valores e a ausência de definição clara sobre sua aplicação.

Mais de dois anos depois, o que era apontado como risco no TCE aparece consolidado em documento oficial do Executivo. O painel “Investimentos Estaduais Viabilizados pela Alienação Acionária da Copel”, com base de dados em 23 de fevereiro de 2026, admite expressamente que os projetos anunciados como vinculados à venda da estatal “não necessariamente são utilizados” com esses recursos e que há uso de “fontes diversas, em especial das fontes livres do Tesouro”. 

O próprio texto do relatório esclarece que os anúncios governamentais têm caráter discricionário e que a vinculação entre planejamento e execução não é obrigatória. Isso significa que uma obra divulgada como resultado da venda da Copel pode ser paga com outra fonte orçamentária, enquanto o dinheiro da alienação é deslocado para compensações internas. Trata-se exatamente da lógica descrita no TCE em 2023.

Os números reforçam a dimensão do modelo. O painel indica 493 projetos distribuídos entre seis órgãos estaduais, com valor total de R$ 4,5 bilhões. Desses, R$ 1,9 bilhão já haviam sido empenhados e R$ 1,6 bilhão pagos até fevereiro de 2026, com execução física média de 61,6%.  A concentração setorial também chama atenção: 72,2% dos investimentos estão direcionados à infraestrutura, incluindo obras rodoviárias e intervenções urbanas, justamente o tipo de despesa que esteve no centro da preocupação levantada pelo Tribunal.

A cronologia dos gastos mostra que a movimentação dos recursos começou ainda em 2023 e se intensificou ao longo de 2024. Em 17 de maio daquele ano, por exemplo, foi registrado pagamento de R$ 150 milhões à Agência de Fomento do Paraná. Nos meses seguintes, aparecem desembolsos vinculados a obras rodoviárias, como a implantação de trechos da PR-092 e a reabilitação da PR-180, evidenciando a materialização dos investimentos em infraestrutura. 

A presença do nome de Guto Silva no centro da discussão altera o eixo da análise. O que os documentos indicam não é apenas a existência de uma prática contábil permitida ou discutível, mas a construção de um modelo de gestão dos recursos da Copel que depende, estruturalmente, da substituição de fontes para funcionar.

A questão que permanece aberta é objetiva: se o próprio governo admite que os projetos anunciados não necessariamente utilizam os recursos da venda da Copel, qual é, na prática, o destino efetivo desse dinheiro? A resposta a essa pergunta é o que determinará se o modelo adotado representa apenas uma engenharia orçamentária legítima ou um desvio indireto de finalidade, como sustentado por parte do Tribunal.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp