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Sobrecarga e invisibilidade marcam debate sobre cuidado e direitos das mulheres em Guarapuava

Ministra das Mulheres defende políticas estruturais enquanto dados expõem sobrecarga feminina e falhas na rede de proteção

Por Julia Maraschi

Sobrecarga e invisibilidade marcam debate sobre cuidado e direitos das mulheres em Guarapuava Créditos: Diretoria de Comunicação

A Câmara Municipal de Guarapuava sediou nesta quinta-feira (9) a audiência pública, com o objetivo de debater o cuidado e políticas públicas para as mulheres. O evento reuniu representantes dos governos municipal, estadual e federal,  além de movimentos sociais e universidades, em uma discussão que ultrapassou o caráter institucional e evidenciou desafios históricos ligados à desigualdade de gênero.

Estudos citados na audiência mostram que mulheres dedicam, em média, o dobro de tempo ao trabalho de cuidado em comparação aos homens, realidade que também se repete em Guarapuava. Pesquisas locais feitas pela universidade Unicentro indicam que esse trabalho é frequentemente invisibilizado e realizado em jornadas contínuas, sem descanso, lazer ou suporte adequado. Há relatos de mulheres que acumulam o cuidado de filhos, idosos e familiares doentes ao mesmo tempo em que precisam trabalhar fora, resultando em sobrecarga, isolamento social e adoecimento físico e emocional. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, relacionou em seu discurso a persistência da violência contra a mulher com a falta de políticas de cuidado. Segundo ela, são registrados 220 estupros por dia no Brasil, e 87 casos de feminicídios recentes no Paraná, além de novos casos desde o início do ano. 

“A gente não quer reduzir, quer zerar. O feminicídio é o fim de uma linha de violências que começam antes, com controle, humilhação e agressões”, afirmou.

A ministra abordou a ideia de que a violência contra a mulher é um fenômeno estrutural, sustentado por padrões sociais, e usou como exemplo homens que controlam a roupa, as amizades ou os espaços de circulação das mulheres, ela evidencia que essas práticas ainda são socialmente toleradas e, muitas vezes, nem sequer reconhecidas como violência, e incluiu violência digital, práticas como “deep fake” e disseminação de discursos de ódio, que fazem com que o feminicídio apareça como o “fim da linha”, mas não como um evento isolado. Ele é precedido por uma sequência de violências. 

Política Pública de Cuidado

Um dos principais eixos do debate foi a necessidade de transformar o cuidado, que tende a ser relacionado às mulheres, em uma responsabilidade coletiva.

No Paraná, mais de 90% dos municípios ainda não possuem um plano municipal específico para os direitos das mulheres, o que compromete a organização de políticas preventivas e evidencia a fragilidade na estrutura de cuidado em nível local. A professora Nayara Bueno, da Unicentro, apresentou dados de pesquisas realizadas em Guarapuava que evidenciam que o cuidado ainda é majoritariamente feminino, frequentemente não remunerado e associado a sobrecarga física e emocional. 
Mulheres cuidadoras relataram sentir-se isoladas, sobrecarregadas e adoecendo . Muitas exercem jornadas contínuas e sem descanso ou reconhecimento. Segundo os estudos, essa realidade se repete tanto no meio urbano quanto no rural, com agravantes como falta de infraestrutura básica em algumas regiões e acúmulo de funções dentro e fora de casa.

Adesão Nacional e Plano Municipal

Foi apresentado, durante a audiência, o processo de construção do Plano Municipal de Cuidados, com o objetivo de ser executado no ano de 2027. A proposta inclui apoio financeiro a cuidadoras não remuneradas, regulamento do trabalho de cuidado, ampliação dos serviços públicos e a valorização do cuidado como direito e trabalho.  

Foi defendido também a adesão de Guarapuava à Política Nacional de Cuidados, instituída recentemente pelo governo federal. A consulta pública para elaboração do plano está aberta até maio e permite a participação da população na formulação das propostas.

Resposta coletiva

A  audiência destacou a necessidade de integração entre diferentes setores como saúde, educação, assistência social, justiça e segurança pública no enfrentamento à violência contra mulheres. Ao evidenciar essa necessidade, o encontro aponta para uma falha recorrente nas políticas públicas, que é a atuação fragmentada, na qual muitas vezes impede que a mulher em situação de violência receba um atendimento completo e eficaz.

Foi reforçado pela Ministra que o combate depende também de uma mobilização da sociedade, “Não é só o governo que resolve. É o conjunto das nossas iniciativas. Precisamos falar, repetir, educar e transformar essa realidade”. E faz com que o combate à violência também seja pedagógico, e precisa transformar comportamentos, valores e padrões culturais que ainda naturalizam agressões.

 O evento apresentou ações locais, como campanhas educativas e projetos em escolas, além da premiação de estudantes que participaram de um concurso sobre combate à violência, que indica uma estratégia de envolver crianças e adolescentes no debate, formando desde cedo uma consciência crítica sobre respeito, igualdade e direitos. 

Ao final, os organizadores reforçaram que a audiência não se encerra no debate, mas deve servir como base para a implementação de políticas públicas no município.
A expectativa é que Guarapuava avance na estruturação de uma rede de cuidado mais ampla e integrada, capaz de reduzir desigualdades e prevenir a violência antes que ela chegue aos casos mais extremos.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp