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Ratinho estudou na EJA, mas modalidade encolheu durante seu governo

Registros e relatos localizados pela Gazeta do Paraná apontam que governador concluiu a formação básica no CEEBJA Paulo Freire; passagem não consta na biografia da Câmara e contrasta com fechamento de turmas e redução da oferta da EJA no Estado

Por Gazeta do Paraná

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Ratinho estudou na EJA, mas modalidade encolheu durante seu governo Créditos: Reprodução

Antes de chegar à Assembleia Legislativa, à Câmara dos Deputados e ao Palácio Iguaçu, Carlos Massa Ratinho Junior passou por uma modalidade da escola pública criada justamente para oferecer uma segunda oportunidade a quem não concluiu os estudos no percurso regular. Registros que circulam há anos nas redes sociais, relatos de pessoas que afirmam ter trabalhado na instituição e diferentes reconstruções biográficas apontam que o atual governador do Paraná concluiu sua formação básica no CEEBJA Paulo Freire, em Curitiba.

Essa parte da trajetória, porém, não aparece na biografia de Ratinho Junior mantida pela Câmara dos Deputados. No currículo parlamentar, o “Segundo Grau” é associado ao Colégio Ideal, em São José dos Pinhais, e ao ano de 1998. Não há menção ao Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos.

Mais de duas décadas depois, já como governador, Ratinho passou a comandar justamente a rede estadual responsável pela Educação de Jovens e Adultos. E foi durante seus mandatos que a modalidade sofreu sucessivos cortes de oferta. Levantamentos da APP-Sindicato apontam que, desde 2019, primeiro ano de sua gestão, a oferta de EJA para o Ensino Médio foi encerrada em 27 escolas e a do Ensino Fundamental em outras 54 unidades.

O contraste é inevitável: a política educacional que ofereceu ao jovem Carlos Massa Junior um caminho para concluir a educação básica passou a perder espaço quando aquele aluno chegou ao comando do Estado.


O histórico

A Gazeta do Paraná teve acesso a uma imagem que circula nas redes sociais desde pelo menos 2019 e é atribuída ao registro escolar de Ratinho Junior no CEEBJA Paulo Freire. Nela aparecem o nome completo “Carlos Roberto Massa Junior”, o estabelecimento “CEEBJA Paulo Freire”, a identificação “Processo do Ensino Médio” e dados pessoais compatíveis com os do governador.

O documento traz ainda um número de cadastro escolar e registra “Data Cadastro” em 2 de março de 2002. As disciplinas exibidas, entretanto, aparecem como concluídas ao longo de 1999, quando Ratinho tinha 18 anos. Entre elas estão Arte, Biologia, Física, Geografia, História, Inglês, Língua Portuguesa e Literatura, Matemática e Química, todas identificadas no registro como concluídas.

A Gazeta do Paraná não conseguiu atestar de forma independente a autenticidade do registro reproduzido abaixo. A imagem circula publicamente nas redes sociais desde pelo menos 2019 e é apresentada como parte do histórico escolar de Carlos Roberto Massa Junior no CEEBJA Paulo Freire. A verificação direta é limitada pelas próprias regras da Secretaria de Estado da Educação: o serviço oficial informa que o histórico escolar só pode ser solicitado pelo próprio aluno ou por seu responsável legal. No caso de Ratinho Junior, portanto, a reportagem não tem acesso autônomo ao documento oficial para confrontá-lo com a versão que circula nas redes. O registro publicado a seguir deve ser compreendido nesse contexto: é um documento atribuído ao governador e difundido publicamente, cuja autenticidade ainda depende de confirmação oficial ou do próprio Ratinho Junior.

Ela, porém, não está sozinha.


“Eu vi”

Em publicações antigas localizadas pela Gazeta nas redes sociais, pessoas que afirmam ter trabalhado no CEEBJA Paulo Freire comentaram publicamente a passagem de Ratinho Junior pela instituição. Os nomes são preservados nesta reportagem porque o objetivo é proteger pessoas que fizeram as declarações em discussões de redes sociais e não foram procuradas originalmente na condição de fontes jornalísticas.

Uma delas foi categórica ao afirmar que teve contato com a documentação escolar atribuída ao atual governador. “Eu trabalhei lá no CEEBJA Paulo Freire. Eu vi o processo histórico dele”, declarou.

Outra pessoa também afirmou ter trabalhado na instituição e fez uma observação ainda mais específica. Disse não guardar lembrança pessoal de Ratinho como estudante, mas afirmou que os registros escolares indicavam sua participação na conclusão: “Não me lembro dele […] mas consta que a conclusão foi comigo”.

A distinção é importante. A fonte não afirma lembrar de Ratinho frequentando suas aulas. O que relata é a existência de um registro que a vinculava à conclusão escolar do então estudante.

Essas manifestações são anteriores em vários anos à reportagem publicada pela revista piauí em abril de 2025, que também reconstruiu a juventude de Ratinho e afirmou que ele “só concluiu o ensino médio em 2002, aos 21 anos”, no CEEBJA Paulo Freire.

Ou seja, a informação sobre a passagem pela Educação de Jovens e Adultos não surgiu recentemente. Ela já circulava acompanhada de uma imagem atribuída ao registro escolar e de relatos de pessoas ligadas à instituição pelo menos desde 2019.

 

Ideal ou CEEBJA?

É justamente aí que aparece uma diferença importante em relação ao currículo parlamentar de Ratinho Junior. A biografia da Câmara dos Deputados informa “Segundo Grau, Colégio Ideal, São José dos Pinhais, PR - 1998”, sem qualquer referência ao CEEBJA Paulo Freire.

Os elementos encontrados pela Gazeta indicam uma trajetória mais longa. Ratinho teria estudado no Colégio Ideal, mas posteriormente passado pelo CEEBJA Paulo Freire, onde teria concluído a educação básica. Outras reconstruções biográficas disponíveis publicamente apresentam exatamente essa sequência: passagem pelo Ideal entre 1996 e 1998 e finalização do Ensino Médio no CEEBJA.

A reportagem encontrou ainda, nas discussões antigas em redes sociais, um relato segundo o qual um professor que teria dado aulas a Ratinho afirmava que o então estudante havia sido expulso do Colégio Ideal. A Gazeta não conseguiu localizar esse professor nem confirmar de forma independente a alegação e, por isso, não a apresenta como fato. O relato é relevante apenas como uma das versões que circulam sobre a interrupção da passagem do governador pelo ensino regular.

Há ainda uma questão de datas a esclarecer. Enquanto as disciplinas exibidas no registro atribuído a Ratinho têm datas de conclusão em 1999, o documento apresenta cadastro em março de 2002. A Piauí, por sua vez, situa a conclusão do Ensino Médio naquele mesmo ano. Não está claro se 2002 corresponde à certificação definitiva, à inclusão do processo em determinado sistema ou a outra etapa administrativa.


De aluno a governador

Se o CEEBJA representou uma alternativa para que Ratinho concluísse a educação básica, a trajetória da modalidade durante seus governos apresenta números que caminham na direção oposta à ampliação dessa oportunidade.

Segundo levantamento da APP-Sindicato, a oferta da EJA de Ensino Médio foi encerrada em 27 escolas desde 2019. No Ensino Fundamental, 54 estabelecimentos deixaram de oferecer a modalidade. Os números não significam o fechamento de 81 CEEBJAs, já que incluem escolas que deixaram de oferecer determinada etapa da EJA, mas revelam uma redução significativa da presença da modalidade na rede estadual.

Outro recorte mostra o impacto da militarização. Em levantamento sobre escolas transformadas em colégios cívico-militares, a APP apontou o fechamento de 129 turmas do período noturno, das quais 43 eram de Educação de Jovens e Adultos. Essas 43 turmas reuniam 731 matrículas antes da mudança.

A redução também aparece nos dados de matrículas divulgados ao longo dos últimos anos. Levantamentos baseados no Censo Escolar registraram forte queda da EJA no Paraná durante o período. A comparação bruta entre 2019 e 2023 chegou a apontar redução de 125.881 para 31.743 matrículas. A própria Secretaria da Educação, entretanto, já explicou que houve mudança de metodologia: no modelo anterior, um mesmo estudante podia aparecer matriculado em diferentes disciplinas. Por isso, os números não podem ser tratados simplesmente como uma redução de 75% no número de pessoas atendidas.

Mesmo com a ressalva metodológica, a própria Seed informou, em levantamento divulgado em 2024, 41.705 estudantes matriculados no segundo semestre daquele ano. Professores, entidades sindicais e integrantes do Fórum Paranaense de EJA vêm atribuindo parte da redução da oferta ao fechamento de turmas, turnos e pontos de atendimento, além de regras para abertura de novas classes.

 

Outra oportunidade

A Educação de Jovens e Adultos existe justamente para atender pessoas que, pelas mais diferentes razões, não conseguiram concluir a educação básica na idade convencional. Trabalho, dificuldades familiares, abandono escolar, reprovações e uma série de outras circunstâncias fazem com que milhares de brasileiros recorram posteriormente à modalidade.

É exatamente por isso que a trajetória de Ratinho Junior torna o debate sobre a EJA particularmente simbólico. Segundo os elementos reunidos pela Gazeta, ele próprio precisou dessa segunda oportunidade.

Em 2002, ano em que a conclusão de seu Ensino Médio é situada pela Piauí, Ratinho tinha 21 anos e começava sua carreira política. Naquele ano, foi eleito deputado estadual com a maior votação do Paraná. Em entrevista publicada logo depois da eleição, afirmou que pretendia “retomar” no ano seguinte a faculdade de Comunicação Social.

Duas décadas depois, aquele estudante chegaria ao segundo mandato como governador apresentando a educação paranaense como uma das principais vitrines de sua administração. O governo destaca, entre outros resultados, a liderança do Paraná no Ideb e investimentos em tecnologia, programação e novos componentes curriculares.

A EJA, entretanto, conta outra parte dessa história.

 

O que ficou fora

Não há demérito algum em concluir os estudos pela Educação de Jovens e Adultos. Pelo contrário: a modalidade existe para garantir um direito que não pôde ser exercido integralmente no ensino regular. Justamente por isso chama atenção que essa passagem não esteja registrada na biografia de Ratinho Junior disponível na Câmara dos Deputados.

O documento parlamentar conduz o leitor diretamente do “Segundo Grau” no Colégio Ideal, em 1998, para a formação superior. Quem consulta apenas esse currículo não fica sabendo da passagem posterior pelo CEEBJA Paulo Freire apontada por registros, relatos e outras reconstruções biográficas.

Também não é possível afirmar, a partir dos elementos disponíveis, quem forneceu à Câmara as informações que constam da biografia ou por que o CEEBJA não aparece nela. A Gazeta, portanto, não atribui ao governador uma intenção comprovada de ocultar essa etapa de sua vida escolar.

Mas a ausência ganha relevância pública diante do que ocorreu depois. O aluno que encontrou na Educação de Jovens e Adultos um caminho para concluir os próprios estudos tornou-se o governador de um Estado no qual dezenas de escolas deixaram de oferecer etapas da EJA e dezenas de turmas da modalidade foram fechadas.

A história de Ratinho Junior mostra, na prática, por que a EJA existe. A história de seu governo coloca outra pergunta sobre a mesa: quantos paranaenses continuam encontrando hoje a mesma porta aberta que ele encontrou no passado?

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp