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Ratinho diz que Celepar pode "virar um Correios", mas lucro da companhia contradiz argumento

Empresa acumula resultados financeiros positivos, reconhecimento em inteligência artificial e foi apresentada a investidores como estratégica e altamente lucrativa

Por Gazeta do Paraná

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Ratinho diz que Celepar pode Créditos: Roberto Dziura/AEN

A defesa da privatização da Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar) voltou a ganhar força no discurso do governador Ratinho Junior (PSD). Em entrevista concedida nesta quarta-feira (22) ao Jornal da Manhã Paraná, da Jovem Pan News Paraná, o governador afirmou que manter a empresa como estatal significaria condená-la ao mesmo destino dos Correios. "Ela vai virar um Correios", disse, ao justificar a venda da companhia.

A declaração, entretanto, contrasta com os próprios indicadores financeiros da estatal e com documentos produzidos pelo Governo do Paraná durante o processo de desestatização.

Diferentemente dos Correios, frequentemente citados em debates sobre dificuldades financeiras de empresas públicas, a Celepar não apresenta um cenário de crise. Pelo contrário. A companhia encerrou 2024 com receita líquida de R$ 495 milhões e lucro de R$ 132 milhões. Em apenas três anos, a margem de lucro cresceu 26,8%, segundo informações apresentadas pelo próprio governo a investidores interessados na aquisição da empresa.

Mais do que uma empresa financeiramente saudável, a Celepar foi descrita nesse material confidencial como uma companhia "estratégica", "lucrativa", "inovadora" e com "fortes vantagens competitivas". O documento também destaca que a estatal possui lucratividade superior à de empresas comparáveis do setor e administra sistemas considerados essenciais para o funcionamento do Estado, como Nota Paraná, Detran, prontuários digitais da saúde, plataformas da educação e sistemas de segurança pública.

O mesmo relatório apresenta a privatização como uma oportunidade de investimento justamente porque a empresa atua em um mercado altamente rentável. Os 134 contratos ativos somam aproximadamente R$ 2,6 bilhões, tendo como principais clientes órgãos do próprio Governo do Paraná.

Mudança de narrativa

As declarações recentes também reforçam uma mudança de discurso adotada pelo governo ao longo do processo.

Em fevereiro deste ano, Ratinho Junior afirmou que os serviços da Celepar estariam "obsoletos" e que parte do Poder Judiciário, do Tribunal de Contas e do próprio governo já não utilizaria a estrutura da companhia.

Na ocasião, porém, os potenciais compradores já haviam recebido um documento oficial elaborado pelo próprio Executivo descrevendo exatamente o oposto: uma empresa em expansão, com capacidade tecnológica consolidada e potencial para se tornar "a principal GovTech do país".

Questionado sobre essa aparente contradição, o Governo do Estado sustentou que a empresa é eficiente e financeiramente sólida, mas que seu crescimento estaria limitado pelas regras impostas ao setor público. Segundo a administração estadual, a burocracia impediria a companhia de acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas, especialmente no campo da inteligência artificial.

Foi justamente esse argumento que Ratinho voltou a utilizar nesta semana. Segundo ele, uma empresa pública não consegue competir com gigantes privadas de tecnologia devido às limitações legais para contratar pessoal, adquirir soluções e investir em inovação.

Inteligência artificial já faz parte da realidade da empresa

O argumento, contudo, também encontra contrapontos.

Embora o governo afirme que a Celepar teria dificuldades para acompanhar a evolução da inteligência artificial, a estatal já desenvolve e opera soluções baseadas em IA utilizadas pelo próprio Estado. Nos últimos anos, a companhia recebeu reconhecimento nacional e internacional por projetos ligados à transformação digital da administração pública, consolidando-se como referência em governo digital.

Essa realidade evidencia que o debate não se resume à capacidade tecnológica da empresa, mas ao modelo de gestão que deverá ser adotado daqui para frente.

Privatização continua suspensa

Enquanto o governo insiste na venda da companhia, o processo permanece paralisado no Supremo Tribunal Federal.

O ministro Flávio Dino concedeu liminar suspendendo a privatização ao apontar riscos relacionados à proteção de dados pessoais dos cidadãos paranaenses, já que a Celepar administra uma das maiores bases de informações públicas do Estado. A decisão será submetida ao plenário do STF.

Durante a entrevista, Ratinho Junior também criticou os questionamentos apresentados ao processo e afirmou que interesses econômicos estariam por trás das ações judiciais.

"Quando você faz algum tipo de concessão você mexe no interesse de alguém. Porque alguém está ganhando dinheiro nessa prestação de serviço", afirmou. O governador ainda comparou a situação às discussões envolvendo a construção da Ponte de Guaratuba.

Também chamou atenção a crítica direcionada ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR), acusado pelo governador de criar obstáculos ao andamento da privatização.

Debate vai além da eficiência

A discussão sobre a Celepar, no entanto, parece extrapolar a simples comparação entre gestão pública e privada.

Os números apresentados pelo próprio Governo do Paraná afastam a ideia de uma empresa deficitária ou próxima da insolvência. Ao contrário: tratam-se de indicadores de uma estatal lucrativa, com crescimento consistente e responsável por sistemas considerados estratégicos para a administração pública.

Nesse contexto, a justificativa de que a companhia estaria fadada à falência caso permaneça estatal passa a depender menos de sua situação financeira atual e mais de uma aposta do governo sobre os limites futuros do modelo público de gestão.

É justamente essa divergência que hoje divide o debate: de um lado, o Executivo sustenta que apenas a iniciativa privada garantirá competitividade tecnológica; de outro, críticos da privatização lembram que a própria documentação produzida pelo Estado apresenta a Celepar como uma empresa saudável, inovadora, estratégica e altamente rentável — características que, para eles, enfraquecem o argumento de que a venda seria uma necessidade para evitar seu colapso.

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