Queda no seguro rural preocupa produtores e amplia risco no campo no Paraná
Número de apólices contratadas despencou mais de 68% em quatro anos; produtores apontam alto custo, redução da cobertura e cortes na subvenção federal
Créditos: AEN
A redução na contratação de seguro rural no Paraná tem acendido um alerta entre produtores e entidades do agronegócio. Dados recentes apontam forte retração tanto no número de apólices quanto na área segurada no Estado, cenário que preocupa diante do aumento dos eventos climáticos extremos e das perdas recorrentes nas lavouras.
Segundo levantamento da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais (CNseg), a arrecadação do seguro rural no Paraná caiu de R$ 2,3 bilhões em 2022 para R$ 1,9 bilhão em 2025, redução de 17% no período.
A queda mais expressiva, no entanto, aparece na quantidade de contratos firmados. Informações do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), vinculado ao Ministério da Agricultura e Pecuária, mostram que o número de apólices despencou de 82 mil em 2021 para apenas 26 mil em 2025, retração de 68,3% em quatro anos.
Produtor de soja e milho em Marechal Cândido Rondon, no Oeste do Paraná, Cevio Alberto Mengarda afirma que deixou de contratar seguro rural há cerca de cinco anos devido ao aumento dos custos e à redução das coberturas oferecidas.
“Antes eu e meu pai incentivávamos outros produtores a fazer seguro. Mas, com os problemas climáticos, especialmente a deficiência hídrica na região, e os atrasos do governo no pagamento da subvenção, as apólices ficaram caras e menos atrativas”, relata.
Para o Sistema FAEP, o cenário é preocupante e coloca em risco a atividade agrícola. O presidente da entidade, Ágide Eduardo Meneguette, afirma que os cortes realizados pelo governo federal no Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural contribuíram diretamente para a queda na adesão.
“Parte significativa dessa redução está ligada aos cortes no programa de subvenção. Isso desestimula o produtor e deixa toda a atividade mais vulnerável. O seguro rural é uma ferramenta essencial diante das recorrentes intempéries climáticas”, afirma.
Os dados orçamentários reforçam a preocupação do setor. Em 2025, cerca de 42% dos recursos previstos para o programa foram bloqueados. Já em 2024, a execução ficou aproximadamente 40% abaixo do valor aprovado pelo Congresso Nacional.
Mesmo entre produtores que ainda mantêm o seguro, o desânimo é crescente. O agricultor Eduardo Martins, de Alvorada do Sul, segue contratando cobertura para as lavouras de soja e milho, mas afirma que as indenizações já não acompanham os prejuízos registrados no campo.
“O seguro ainda traz segurança para investir, mas hoje as indenizações não cobrem todas as perdas. Além disso, com a redução da subvenção, o custo ficou muito elevado”, explica.
A retração também aparece na área protegida pelas apólices. Em 2021, o Paraná possuía mais de 3,8 milhões de hectares segurados. Em 2025, esse número caiu para 1,25 milhão de hectares, redução de 63,8%.
Segundo Meneguette, a diminuição da adesão acaba criando um efeito em cadeia no mercado. “Sem subvenção, a conta não fecha para o produtor. E, com menos contratos, as apólices ficam ainda mais caras, agravando o problema”, afirma.
Apesar da retração, o Paraná segue liderando a contratação de seguro rural no país. Em 2024, o Estado respondeu por mais de 45,8 mil apólices, equivalentes a 37,5% dos contratos firmados por meio do programa federal.
Ainda assim, a queda ocorre em nível nacional. Dados da CNseg mostram que a área segurada no Brasil caiu de 13,7 milhões de hectares em 2021 para 3,2 milhões no ano passado, retração de 76,6%. No mesmo período, a arrecadação do setor recuou 8,8%, passando de R$ 14,2 bilhões para R$ 12,9 bilhões.
Produtor rural no município de Arapuã, na região Centro-Norte do Paraná, Admilson Tavarez afirma que muitos agricultores acabam ficando sem alternativa diante das perdas provocadas pelo clima.
“Sem seguro, o produtor muitas vezes precisa vender máquinas, caminhões, gado e até parte das terras para cobrir os prejuízos”, relata.
Ele ainda mantém parte da propriedade segurada, mas afirma que os altos custos dificultam ampliar a cobertura. “Hoje concentramos o seguro apenas nas áreas mais críticas. A cobertura não acompanha os prejuízos reais”, diz.
Em São Mateus do Sul, o produtor Marcos Pires deixou de contratar seguro rural há mais de seis anos. Segundo ele, o custo deixou de compensar diante da queda nos preços agrícolas e da inflação.
“O preço dos produtos não acompanhou os custos. Sem apoio do governo, o seguro não cabe mais na planilha”, afirma.
Engenheiro agrônomo com quatro décadas de atuação no campo, Marcos também critica mudanças nas regras de cobertura das seguradoras. Segundo ele, muitas cláusulas acabam dificultando o acesso às indenizações mesmo após anos de contribuição.
“Entendemos que as seguradoras precisam ter lucro, mas algumas regras acabam prejudicando o produtor. Muitas vezes, quando precisamos acionar o seguro, havia cláusulas que impediam o atendimento”, relata.
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