Programa Feira Verde vira alvo de denúncias sanitárias em Ponta Grossa
Iniciativa voltada à troca de recicláveis por alimentos para famílias de baixa renda entrou no centro do debate na Câmara após relato de produtos deteriorados, calor excessivo e suposta presença de roedores
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Imagem reconstruída com IA
O Programa Feira Verde de Ponta Grossa, que promove a troca de materiais recicláveis por frutas, verduras e legumes, entrou no centro de um debate acalorado na Câmara Municipal após denúncias de más condições sanitárias no barracão onde os alimentos são armazenados. A discussão foi puxada pela vereadora Joce Canto, que afirmou ter encontrado um cenário “caótico e inacreditável” durante fiscalização realizada na última sexta-feira.
Segundo a parlamentar, o local não possui alvará de funcionamento, alvará sanitário e nem certificado de controle de pragas. Ela também relatou que as duas câmaras frias do barracão estão inoperantes após furtos de fiação, o que teria agravado ainda mais as condições de armazenamento. “Foi registrada uma temperatura de 34 graus no momento da fiscalização”, disse em plenário.
Joce afirmou ainda que encontrou alimentos em condições inadequadas para consumo. Segundo ela, havia batatas com brotos, laranjas podres, chuchus descartados e, mais grave, indícios de presença de roedores sobre os produtos. “Eu acho que o pior de tudo é a presença de ratos. Ratos em cima da batata doce, vereador Guilherme Maser. Eu não sei se porque é um programa social, porque as pessoas trocam o lixo por verduras, aí tem que dar o pior para essas pessoas, alimentos com brotos, fruta podre, ou então verdura com rato. É isso que a população mais simples de Ponta Grossa merece?”, declarou.
A vereadora informou que elaborou um relatório de 15 páginas, com fotos e vídeos, e que o material seria protocolado no Ministério Público e também encaminhado à Secretaria Municipal de Agricultura. “É um problema de saúde”, afirmou.
A denúncia levou o secretário municipal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Isaltino Cordeiro dos Santos, à tribuna da Câmara, após pedido aprovado pelos vereadores. Em sua fala, o secretário procurou contextualizar o funcionamento do programa, reconheceu que o prédio utilizado não foi originalmente projetado para armazenar alimentos, mas contestou parte das acusações.
Segundo Isaltino, o barracão já operava antes de sua gestão e hoje suporta uma demanda muito superior à de anos anteriores. Ele disse que, em 2021, o Feira Verde contava com 98 pontos de distribuição e 31 funcionários. Em 2026, segundo ele, o programa passou a atender 215 pontos com 25 funcionários, utilizando a mesma estrutura física. “O prédio continua o mesmo, visto que já não era um prédio formatado, desenhado ou estruturado para esse fim”, admitiu.
Ainda de acordo com o secretário, o programa recebe entre 100 e 110 toneladas de alimentos, com perdas mensais entre 3% e 5%, sobretudo em produtos mais perecíveis, como cenoura, laranja e abacate, especialmente quando vêm do atacado. Ele afirmou que esses produtos não são automaticamente descartados no lixo, sendo em parte reaproveitados para alimentação animal. “Aquele que realmente não se presta mais, aí sim tem um destino final”, disse.
Sobre os alimentos deteriorados, Isaltino afirmou que a secretaria faz triagem no momento da entrega e devolve produtos considerados inadequados. Segundo ele, há registros de devolução de cargas fechadas de batata, laranja e banana fora do padrão.
O secretário também confirmou que o furto da fiação comprometeu a estrutura do local e disse que providências já foram solicitadas. Segundo ele, câmeras de vigilância estão sendo instaladas e a pasta também busca melhorias para a frota e refrigeração dos caminhões.
A principal contestação feita por Isaltino foi em relação às fotos de ratos apresentadas no relatório da vereadora. “No dia que a senhora fez a visita, esses ratos não estavam lá. Essas fotos possivelmente sejam lá do ano de 2023, eu nem estava no programa”, afirmou. Ele sugeriu que o material pode ter sido repassado à parlamentar por terceiros e tentou desacreditar a correspondência entre as imagens e a situação atual do barracão.
Joce Canto respondeu em seguida e manteve o teor da denúncia. Disse ter entregue uma cópia do relatório ao secretário e afirmou que as imagens dos ratos foram fornecidas por “um servidor que trabalha lá todos os dias”. Apesar do embate, a vereadora sinalizou disposição para colaborar com o programa por meio de emendas impositivas. “O Feira Verde é um programa maravilhoso, é essencial para a nossa cidade, ajuda o meio ambiente e ajuda as famílias carentes também”, disse.
O debate mostrou que, embora a denúncia tenha sido grave, o programa conta com apoio amplo entre vereadores, inclusive entre parlamentares que reconheceram a necessidade de melhorias estruturais. A vereadora Teca dos Animais, por exemplo, relatou já ter visitado o local e afirmou que o ambiente é inadequado para armazenar alimentos, embora tenha encontrado limpeza e funcionários trabalhando na seleção dos produtos. “Infelizmente aquele local é inadequado para alocar os alimentos”, declarou.
Outros vereadores, como Florenal, Léo Farmacêutico, Paulo Balansin, Professor Careca e Ricardo Zampieri, ressaltaram a relevância social do Feira Verde, elogiaram a atuação do secretário e defenderam que eventuais falhas sejam corrigidas sem desqualificar integralmente o programa. Houve, inclusive, sugestões para que a Câmara destine emendas parlamentares para melhorias na estrutura do barracão, dos caminhões e do sistema de refrigeração.
Na própria sessão, o clima já vinha tensionado por outra discussão sensível, a tentativa frustrada de abertura de uma CPI da merenda escolar. O tema foi levantado por Joce Canto antes mesmo de entrar no caso do Feira Verde e gerou bate-boca entre parlamentares. Nesse contexto, a denúncia sobre os alimentos destinados à população de baixa renda ampliou o desgaste do debate sobre fiscalização, qualidade dos serviços públicos e responsabilidade da gestão municipal.
A fala do secretário, embora tenha servido para rebater parte das acusações, também acabou confirmando um ponto central da crítica: o crescimento do programa não foi acompanhado por uma estrutura compatível. Ao reconhecer que o barracão não foi projetado para a finalidade atual e que as condições de armazenamento são insuficientes diante do volume movimentado, a própria administração admitiu fragilidades que agora podem ganhar desdobramentos fora do plenário.
Com o relatório já anunciado ao Ministério Público e a controvérsia instalada entre denúncia e contestação, o Feira Verde, programa historicamente tratado como vitrine social de Ponta Grossa, passa a enfrentar uma cobrança mais dura sobre as condições em que os alimentos chegam à mesa de quem mais precisa.
Créditos: Redação
