GCAST
Quantas pessoas morreram com o Césio-137 em Goiânia? Créditos: Helena Yoshioka/Netflix

Quantas pessoas morreram com o Césio-137 em Goiânia?

Tragédia com o Césio-137 completa quase 40 anos com debate sobre o número real de vítimas

O acidente com o césio-137 em Goiânia, em setembro de 1987, deixou oficialmente quatro mortos. No entanto, o número de vítimas associadas à tragédia é maior e ainda gera debate. Levantamentos de associações indicam que mais de 100 pessoas morreram ao longo dos anos em decorrência de doenças relacionadas à contaminação por radiação.

Quase quatro décadas depois, o episódio continua sendo considerado o maior acidente radiológico da história do Brasil e um dos mais graves já registrados no mundo fora de usinas nucleares. Os impactos ultrapassaram o momento da contaminação e seguem sendo monitorados por órgãos de saúde até hoje.

Equipamento abandonado deu origem à tragédia

O acidente teve início a partir de uma sucessão de falhas. Um aparelho de radioterapia pertencente ao Instituto Goiano de Radioterapia foi abandonado em um prédio desativado na região central da capital goiana.

O equipamento havia sido utilizado desde a década de 1970 e continha uma cápsula com cloreto de césio, substância altamente radioativa. Protegida por uma estrutura de chumbo e aço, a fonte deveria permanecer isolada. No entanto, com o imóvel parcialmente demolido e sem vigilância adequada, o material ficou exposto.

A situação se agravou em meio a uma disputa judicial envolvendo a Sociedade de São Vicente de Paula e o antigo responsável pelo imóvel. O terreno chegou a ser vendido ao Instituto de Previdência e Assistência do Estado de Goiás, que iniciou a demolição do prédio em 1987. As obras, porém, foram interrompidas por decisão judicial, e o equipamento permaneceu no local.

Foi nesse cenário de abandono que catadores tiveram acesso ao aparelho.

Equipamento de radioterapia onde estava a cápsula com césio-137, encontrada em Goiânia. Divulgação/CNEN

Contaminação silenciosa atingiu centenas

Sem saber do risco, os homens retiraram o equipamento e o levaram a um ferro-velho. Ao desmontar a peça, encontraram a cápsula que continha o material radioativo.

O pó de coloração azulada emitia um brilho no escuro e despertou curiosidade. A substância passou a ser manuseada e compartilhada entre familiares e conhecidos, o que ampliou rapidamente o alcance da contaminação.

A resposta das autoridades mobilizou uma grande operação. Mais de 112 mil pessoas passaram por triagem no Estádio Olímpico de Goiânia. Destas, 249 apresentaram algum nível de contaminação e 129 precisaram de acompanhamento médico permanente.

Ao todo, milhares de pessoas tiveram algum tipo de exposição, direta ou indireta, ao material radioativo.

As quatro mortes confirmadas

As mortes diretas ocorreram semanas após a exposição, todas em decorrência da Síndrome Aguda da Radiação.

Entre as vítimas está Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, que se tornou símbolo da tragédia. A criança teve contato direto com o pó radioativo e chegou a ingerir partículas do material. Ela morreu em 23 de outubro de 1987 e foi enterrada em um caixão de chumbo, como medida de segurança.

No mesmo dia morreu Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos. Ela teve papel fundamental ao levar a substância até um hospital, o que ajudou a identificar a contaminação e evitar um número ainda maior de vítimas.

Também morreram Israel Batista dos Santos, de 20 anos, e Admilson Alves de Souza, de 18, ambos envolvidos na manipulação do material no ferro-velho. Eles faleceram nos dias 27 e 28 de outubro, respectivamente.

Maria Gabriela, 35 anos, e Leide das Neves Ferreira, 6, estão entre as vítimas fatais do acidente com césio-137 em Goiânia. Reprodução/TV Anhanguera

Consequências que se estenderam por décadas

Além das mortes imediatas, diversas pessoas diretamente expostas enfrentaram complicações de saúde ao longo dos anos.

O dono do ferro-velho, Devair Alves Ferreira, morreu sete anos após o acidente. Já Ivo Alves Ferreira, pai de Leide, faleceu cerca de 15 anos depois, após conviver com problemas de saúde atribuídos à exposição.

Outros sobreviventes passaram a atuar na defesa dos direitos das vítimas, como Odesson Alves Ferreira, que se tornou uma das principais vozes na cobrança por reconhecimento e assistência.

O catador Roberto Santos, que participou da retirada do equipamento, também sofreu sequelas decorrentes do contato com o material radioativo.

Número de mortes além das oficiais é incerto

Embora quatro mortes sejam reconhecidas oficialmente, o total de vítimas fatais relacionadas ao acidente não é consenso.

Associações de vítimas e alguns estudos apontam que dezenas ou até mais de 100 pessoas podem ter morrido ao longo dos anos por doenças como câncer, possivelmente ligadas à radiação.

A divergência ocorre porque, passadas décadas, é difícil estabelecer com precisão a relação direta entre a exposição ao césio-137 e doenças desenvolvidas posteriormente.

Lixo radioativo e monitoramento permanente

O processo de descontaminação gerou cerca de 6 mil toneladas de resíduos radioativos, que foram removidos de casas, objetos e áreas atingidas.

Esse material permanece armazenado em depósitos controlados no município de Abadia de Goiás, onde segue sob vigilância.

Atualmente, mais de mil pessoas ainda recebem acompanhamento do Centro de Assistência ao Radioacidentado, órgão responsável por monitorar a saúde das vítimas e de seus familiares.

O governo de Goiás também discute a atualização de pensões pagas aos atingidos e aos profissionais que atuaram na contenção da tragédia.

Série reacende debate sobre o caso

O acidente voltou ao debate público após o lançamento da minissérie Emergência Radioativa, disponível na Netflix.

A produção brasileira, estrelada por Johnny Massaro, estreou com 3,8 milhões de visualizações na primeira semana e figurou entre os conteúdos mais assistidos da plataforma.

A série reconstitui os acontecimentos de 1987 e mostra como a contaminação se espalhou silenciosamente, além dos esforços para conter o avanço da radiação.

Boletim Informativo

Inscreva-se em nossa lista de e-mails para obter as novas atualizações!