Olho Vivo já consumiu R$ 30 milhões em câmeras antes de licitação
Gastos com câmeras foram operacionalizados pela Celepar via contrato com o Google, enquanto modelo de contratação e transparência do programa seguem sob questionamento
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Sesp
O que começou sob o discurso de modernização da segurança pública no Paraná ganha novos contornos — e levanta mais perguntas do que respostas. Informações de bastidores do Palácio Iguaçu indicam que o governo estadual já desembolsou cerca de R$ 30 milhões em câmeras no âmbito do programa Olho Vivo.
O dado, por si só, já seria relevante. Mas o detalhe que muda o peso da história está na origem e no caminho desse dinheiro.
Segundo as informações apuradas, os recursos teriam sido operacionalizados por meio da Celepar, com contratos vinculados ao Google. Na prática, isso reforça uma das principais linhas de questionamento que a Gazeta do Paraná vem levantando há meses: a execução de um programa de alto custo, com forte componente tecnológico, sem clareza sobre o modelo de contratação e antes da consolidação de um processo licitatório amplo.
A cifra de R$ 30 milhões também joga luz sobre uma possível antecipação de gastos em relação ao que está formalmente previsto no papel. Como já revelado anteriormente, o programa Olho Vivo aparece no PNCP com estimativa superior a R$ 580 milhões, com previsão de disputa via pregão eletrônico. Ainda assim, há registros de instalação de equipamentos e operação prática em municípios antes mesmo da conclusão de qualquer certame competitivo.
Agora, com a confirmação de que os pagamentos passam pela Celepar e envolvem o Google, o enredo ganha um novo capítulo: a chamada “triangulação tecnológica”. O governo sustenta que a estatal possui exclusividade sobre dados estratégicos e infraestrutura, o que permitiria dispensas de licitação em determinados casos. O problema é que, na ponta, há empresas privadas envolvidas no fornecimento e operação das soluções — o que reacende dúvidas sobre a legalidade e os limites dessa intermediação.
Outro ponto que chama atenção é a origem efetiva dos recursos. Embora operacionalizados pela Celepar, trata-se de dinheiro público, sujeito às mesmas exigências de transparência e controle. A pergunta que se impõe é direta: qual o instrumento jurídico que autorizou esse gasto inicial de R$ 30 milhões e em que etapa do projeto ele se enquadra?
Nos bastidores do Tribunal de Contas, onde o programa já é alvo de questionamentos formais, o dado tende a aumentar a pressão por respostas. Até porque se soma a um conjunto de inconsistências já apontadas: mudança de relatoria, decretação de sigilo e ausência de informações detalhadas sobre contratos, fornecedores e escopo técnico.
A revelação também reforça outro eixo central da apuração: o descompasso entre discurso e execução. Enquanto o governo fala em planejamento, integração e segurança, os fatos indicam que parte relevante do projeto já está em andamento — e sendo paga.
Em um programa que promete vigiar cidades inteiras, a pergunta que começa a ecoar nos corredores do poder é inevitável: quem está olhando para dentro do próprio Olho Vivo?
Créditos: Redação
