Produtores de leite criam associação no Paraná para enfrentar crise histórica do setor
Durante o 38º Show Rural Coopavel, pecuaristas cobram medidas emergenciais de parlamentares e denunciam prejuízos acumulados, importações elevadas e concorrência de produtos análogos
Créditos: Jean Paterno
A 38ª edição do Show Rural Coopavel foi palco, na tarde desta terça-feira (10), da criação de uma nova entidade representativa dos produtores de leite do Paraná. Pecuaristas de diversas regiões do Estado oficializaram a fundação da União Paranaense de Produtores de Leite, com o objetivo de fortalecer a categoria e enfrentar a crise que, segundo eles, se arrasta há pelo menos três anos e ameaça a permanência de milhares de famílias na atividade.
O encontro reuniu lideranças do setor e autoridades, entre elas o deputado federal Pedro Lupion (Republicanos), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária no Congresso Nacional. Também participaram representantes da Secretaria de Estado da Agricultura, do Departamento de Economia Rural (Deral), do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) e outras lideranças ligadas ao segmento.
De acordo com os produtores, a situação financeira das propriedades é insustentável. Eles relatam sucessivos meses de prejuízo, custos elevados de produção e preço pago ao produtor abaixo do necessário para cobrir as despesas.
“Precisamos agir e rápido, porque o quadro que se apresenta para 2026 é o mesmo que afetou o andamento da atividade durante todo o ano passado”, afirmou Meysson Vetorello, uma das lideranças do movimento. Segundo ele, a criação da entidade é o primeiro passo para organizar o setor e dar voz ativa aos produtores nas esferas estadual e federal.
A expectativa é que a União Paranaense de Produtores de Leite promova debates técnicos e articulações políticas em busca de soluções estruturais e emergenciais. A meta, conforme os organizadores, é fortalecer a representatividade do setor, a exemplo do que já ocorre em outros estados, e avançar para a constituição de uma entidade de âmbito nacional.
“Esse é o primeiro passo, a exemplo do que já fizeram outros estados, para a constituição de uma entidade de âmbito nacional, que reúna representatividade e força para defender os avanços que ele realmente precisa”, destacou Vetorello.
Entre as principais reivindicações apresentadas ao deputado Pedro Lupion e aos demais representantes estão medidas para conter as importações de lácteos, ampliar a fiscalização e criar mecanismos que reduzam as oscilações históricas do mercado. Os produtores também cobram maior equilíbrio na cadeia produtiva.
Segundo eles, há discrepâncias significativas na distribuição de margens ao longo da cadeia do leite. “Estamos pagando para trabalhar. Nosso custo é elevado e o que recebemos é insuficiente para seguir adiante”, afirmou Vetorello. Ele exemplifica: “Recebemos R$ 2 e gastamos R$ 2,40 para produzir um litro”.
Comercialização injusta
Outro ponto de preocupação é a concorrência com produtos análogos, que utilizam denominações associadas ao leite, mas não têm origem láctea. Para os pecuaristas, a falta de clareza na rotulagem e a comercialização desses itens impactam diretamente o consumo do produto tradicional e contribuem para a desvalorização do leite in natura.
“Então, decidimos criar essa União de Produtores de Leite, de uma forma um pouco mais digital, que todos possam ter acesso via grupos e sites. Já temos uma União Nacional de Produtores de Leite também se formando, com manifestos on-line sendo assinados e a junção de todos esses movimentos”, explicou o produtor Mason Vettorello.
Ele ressaltou que a reunião no Show Rural teve como objetivo aproximar o setor produtivo das autoridades. “Fizemos essa reunião hoje aqui com parlamentares, com o Pedro Lupion, que é o presidente da Frente Parlamentar da Agricultura em Brasília, com o chefe da DAPAR, seu Otamir, com o chefe do IDR, seu Natalino, com o Rafael Piovesan, do IDR, da área do leite, com o Márcio Nunes, nosso secretário da Agricultura, entre outros que vieram nos prestigiar nessa união dos produtores de leite do Estado do Paraná”, relatou.
Segundo Vettorello, a intenção é garantir que o produtor tenha voz ativa nas decisões que impactam diretamente o setor. “Para que nós possamos ter voz no governo do Estado, no governo federal, que a gente possa ir lá e aclamar por essa crise, cobrar e exigir o que é direito nosso, para que não fiquemos mais tendo prejuízos, amargando oito, nove meses de perdas, e cada vez mais vendo pessoas saindo da agricultura familiar e da cadeia do leite.”
Os pecuaristas alertam que a atividade leiteira exige investimentos de longo prazo. A estruturação de uma propriedade demanda anos de trabalho, aquisição de genética, melhorias em manejo e infraestrutura. Por isso, quem abandona a atividade dificilmente retorna.
Caso não haja mudanças rápidas, afirmam, o Paraná pode assistir a uma redução significativa no número de produtores, com impactos sociais e econômicos, especialmente nas pequenas propriedades e na agricultura familiar.
A criação da União Paranaense de Produtores de Leite marca, segundo os organizadores, o início de um movimento mais estruturado de mobilização. A entidade deve atuar na articulação política, na elaboração de propostas técnicas e na mobilização digital da categoria, buscando fortalecer o setor e garantir condições mínimas de sustentabilidade para quem permanece na atividade.
Foto: Jean Paterno
