Por que o Invest Paraná rendeu tanta disputa na Alep?
Projeto do governo que altera estrutura da agência expõe disputa por poder, influência e controle estratégico do desenvolvimento econômico
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Alep
O projeto que reformula a Invest Paraná passou pela Assembleia Legislativa do Paraná com aparência de ajuste administrativo, mas rapidamente se transformou em um dos debates mais tensionados do plenário. O motivo não está apenas no texto da lei, mas no que ele representa: controle político sobre uma estrutura estratégica de atração de investimentos no Estado.
Formalmente, o governo sustenta que a proposta busca modernizar a agência. Na mensagem enviada aos deputados, o Executivo afirma que a mudança tem como objetivo “adequar a estrutura de governança às dinâmicas de articulação institucional e internacional contemporâneas” e fortalecer a captação de investimentos.
Na prática, o projeto amplia o alcance da Invest Paraná, que passa a atuar de forma mais agressiva fora do Estado, podendo participar e até organizar eventos nacionais e internacionais para promover o Paraná. Esse ponto, isoladamente, não gerou resistência.
A disputa começa quando o texto entra no desenho de poder da agência.
O projeto concentra no Executivo a nomeação de todo o Conselho de Administração, formado por sete membros, incluindo secretários de Estado e um conselheiro independente. Além disso, o governador passa a escolher diretamente o presidente do conselho, com mandato de três anos e possibilidade de recondução.
É essa combinação que acendeu o alerta na oposição. Na leitura crítica, não se trata apenas de reorganização, mas de consolidação de influência política sobre uma estrutura que decide onde, como e com quem o Estado vai investir e atrair recursos.
Esse incômodo ficou explícito no plenário. O deputado Arilson Chiorato resumiu o argumento central: “Aceitar que um governador nomeie para o exercício do outro um órgão desse tamanho é tirar do próximo governante o poder dele fazer política.”
Na mesma linha, o deputado Jacovós foi além e trouxe o debate para o campo eleitoral: “Isso aí está me cheirando aquela história do já perdeu. Vamos engessar o próximo governo.”
O tom subiu ainda mais com Requião Filho, que classificou o movimento como uma tentativa de prolongamento indireto de poder: “Quando você perde o pleito e tenta continuar mandando, isso se chama ditadura.”
Do outro lado, o líder do governo, Hussein Bakri, tentou desmontar a tese da oposição recorrendo a precedentes nacionais: “O governo Bolsonaro nomeou Banco Central e agência para ficar três anos no governo Lula”, disse, ao defender que o modelo não é novidade.
Mas foi no meio da sessão, longe até do mérito do projeto, que a disputa ganhou contornos mais caóticos e revelou o tamanho do conflito político.
A tentativa da oposição de adiar a votação virou uma batalha regimental. O requerimento apresentado pedia mais tempo para discussão, mas a base do governo reagiu alegando incompatibilidade com o regime de urgência.
Bakri foi direto: “O requerimento é antirregimental.”
A oposição rebateu com outro entendimento. Requião Filho insistiu que o pedido precisava ser votado: “Requerimento é colocado, não cabe discussão, requerimento é votado.”
O impasse travou a sessão por vários minutos. Deputados passaram a discutir não mais o projeto, mas o próprio regimento da Casa.
Foi nesse momento que a deputada Ana Júlia trouxe um elemento que aumentou ainda mais a confusão. Ela lembrou que situações semelhantes já haviam sido tratadas de forma diferente: “Essa casa já votou vários requerimentos aqui sem ter justificativa anotada”, afirmou, questionando o critério adotado naquele momento.
Outro deputado reforçou o argumento citando precedente: “A mesa quando quer, adia. E quando não quer, não adia”, disse, ao mencionar um requerimento anterior que teria sido aceito sem justificativa formal.
A discussão virou um embate sobre interpretação do regimento. De um lado, a base defendia que o pedido não poderia prosperar por se tratar de matéria em urgência. De outro, a oposição sustentava que a vontade política de pedir adiamento já seria suficiente para levar o tema ao plenário.
A presidente da sessão, Flávia Francischini, tentou equilibrar a situação. Inicialmente, indicou entendimento contrário ao requerimento, mas diante da pressão decidiu submeter o tema à votação: “O requerimento é antirregimental, mas diante do posicionamento a gente coloca em votação.”
O resultado foi a rejeição do adiamento por 26 votos a 18, liberando o caminho para a aprovação do projeto.
Mesmo após a votação, o clima seguiu tenso. O deputado Fadel resumiu o cenário com ironia: “O governo conseguiu unir PT e PL numa votação.”
No fim, o projeto aprovado consolida uma Invest Paraná mais robusta institucionalmente e mais centralizada politicamente.
É justamente isso que explica a disputa. Não se tratava apenas de reorganizar uma agência. O que estava em jogo era quem controla, hoje e amanhã, a engrenagem que conecta o Paraná ao capital, aos investimentos e às grandes decisões econômicas.
Créditos: Redação
