Arruda x Freitas: entre processos, acusações e política, o que é fato no confronto da Alep
Confronto na Alep expõe troca de acusações entre deputados e levanta dúvidas sobre o que é fato, narrativa e estratégia política no processo de cassação de Renato Freitas
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Alep
O confronto entre Renato Freitas (PT) e Ricardo Arruda (PL), registrado nesta terça-feira na Assembleia Legislativa do Paraná, é resultado direto do avanço do processo que pode levar à cassação do mandato do parlamentar petista e que transformou um caso disciplinar em disputa política aberta dentro do plenário.
A crise tem origem na briga de rua envolvendo Renato, ocorrida em Curitiba e usada como base para o processo no Conselho de Ética. Desde então, o deputado sustenta que o caso foi ampliado com motivação política. Na tribuna, ele deixou isso explícito: “Não caçam o meu mandato por causa dessa suposta briga. Caçam o meu mandato porque eu fui o único que assinei o pedido de cassação do então presidente da Assembleia.”
A estratégia de defesa de Renato passa por deslocar o foco do episódio para o campo político, e foi exatamente isso que ele fez ao partir para o ataque contra Arruda. Ao citar investigações envolvendo o deputado do PL, afirmou: “Deputado Ricardo Arruda vira réu por esquema de desvio de dinheiro público, tráfico de influência e associação criminosa.”
Neste ponto, a fala tem base em fatos verificáveis. Arruda é réu em ação penal após denúncia aceita pelo Tribunal de Justiça do Paraná e também responde a uma ação de improbidade administrativa que cobra a devolução de mais de R$ 1 milhão por suposto esquema de rachadinha. O que Renato faz, no entanto, é avançar além do dado objetivo. Ao apresentar essas acusações em tom conclusivo, sugere culpa já estabelecida, o que não se confirma juridicamente até o momento.
A reação de Arruda seguiu outro caminho. Em vez de rebater apenas no campo institucional, o deputado optou por desqualificar Renato pessoalmente. Logo no início, afirmou: “O senhor nunca respeitou essa casa.” Em seguida, elevou o tom ao fazer uma acusação sem comprovação apresentada na sessão: “O senhor tem mais de 16 boletins de ocorrência.”
A fala não veio acompanhada de documentos, números de processos ou qualquer elemento verificável naquele momento. Sem esse suporte, a afirmação permanece como alegação política. Ainda assim, Arruda se apoia em episódios reais para sustentar sua narrativa. Renato, de fato, esteve envolvido em casos de grande repercussão, como a invasão da Igreja do Rosário, em 2022, que levou à sua cassação como vereador, posteriormente revertida pela Justiça, além do episódio mais recente que originou o processo na Alep.
Mas o discurso do deputado do PL amplia esse histórico para além do que está comprovado. Ao longo da fala, ele mistura fatos conhecidos com acusações mais amplas, como quando afirma que Renato comete “crimes” e mantém uma conduta reiterada incompatível com o mandato, sem apresentar elementos concretos que sustentem essas afirmações naquele contexto.
Arruda também recorreu a denúncias envolvendo a vida pessoal do petista, citando acusações de ex-companheira. Há registros públicos dessas manifestações, o que indica que elas existiram. No entanto, na sessão, elas foram utilizadas sem detalhamento ou vinculação a decisões judiciais, o que limita sua verificação no plano factual.
O pano de fundo desse embate ajuda a explicar o tom adotado. O processo de cassação de Renato ainda não está concluído e deve passar por novas etapas dentro da Assembleia. Isso transforma cada discurso em mais do que uma manifestação política. Passa a ser parte de uma disputa de narrativa que pode influenciar o desfecho do caso.
Renato, ao se posicionar como alvo de perseguição, amplia o alcance do conflito ao afirmar: “Hoje caçam Renato Freitas, amanhã irão caçar qualquer um que se coloque como opositor.” Já Arruda sustenta a legitimidade da punição ao afirmar que o colega “será cassado justamente por suas atitudes.”
No fim, a análise das falas mostra que nenhum dos dois sustenta integralmente a própria versão. Renato acerta ao apontar que Arruda responde a acusações graves formalizadas na Justiça, mas extrapola ao tratar esses processos como prova de culpa. Arruda, por sua vez, se apoia em episódios reais da trajetória de Renato, mas os amplia com afirmações que não foram comprovadas no momento em que foram feitas.
O que se viu no plenário não foi um confronto entre verdade e mentira, mas entre narrativas construídas a partir de fatos parciais. E, enquanto essas versões disputam espaço, o processo que motivou o embate segue seu curso, agora não apenas no campo institucional, mas também no terreno da opinião pública.
Créditos: Redação
