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PF aponta suposto recebimento de vantagens por Jaques Wagner; senador nega irregularidades Créditos: Roque de Sá/Agência Senado

PF aponta suposto recebimento de vantagens por Jaques Wagner; senador nega irregularidades

Nona fase da Operação Compliance Zero apura suposto recebimento de vantagens indevidas pelo líder do governo. PF encontrou US$ 49 mil em espécie na casa do senador

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, que autorizou a nona fase da Operação Compliance Zero, teve como base uma investigação da Polícia Federal que apura a suposta relação entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o empresário Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master.

Segundo os investigadores, o parlamentar teria recebido vantagens econômicas indevidas por meio de pessoas próximas, familiares e empresas ligadas ao grupo econômico investigado. Entre os elementos citados pela Polícia Federal está a negociação de um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões em Salvador.

Em entrevista à BandNews, Jaques Wagner negou qualquer irregularidade e afirmou que acompanha as investigações com tranquilidade.

"Até agora, não sou réu, não sou culpado e não sou nada. É uma investigação baseada no que imagino que a Polícia Federal encontrou em celulares apreendidos ou em alguma delação que desconheço", declarou.

Na decisão que autorizou as medidas da nova fase da operação, Moraes reproduz argumentos apresentados pela Polícia Federal. De acordo com os investigadores, há indícios de que Wagner teria recebido benefícios econômicos direta ou indiretamente por meio de familiares, pessoas de confiança e estruturas empresariais ligadas ao grupo investigado.

A Polícia Federal sustenta ainda que a relação entre o senador e Augusto Lima seria antiga e marcada por elevado grau de confiança pessoal, circunstância que, segundo a investigação, teria favorecido tratativas reservadas envolvendo interesses privados ligados ao Banco Master.

Apartamento em Salvador

Um dos principais pontos da investigação envolve um apartamento localizado no empreendimento Poème Horto, no bairro Horto Florestal, área nobre de Salvador.

Segundo a Polícia Federal, o próprio senador teria demonstrado interesse no imóvel e encaminhado a Augusto Lima informações sobre o empreendimento e os contatos do corretor responsável pela negociação.

A partir dessas informações, Lima teria acionado Valério Marega Júnior, apontado pelos investigadores como operador financeiro ligado ao Banco Master, para conduzir a compra do imóvel.

A operação também teria contado com a participação dos empresários Daniel e David Lopes Monteiro, apontados pela PF como integrantes do núcleo empresarial e jurídico-financeiro relacionado ao grupo econômico investigado.

Jaques Wagner admitiu conhecer Augusto Lima há vários anos, mas negou qualquer vínculo com o Banco Master ou com Daniel Vorcaro, controlador da instituição financeira.

O senador também confirmou que conversou com o empresário sobre a aquisição do imóvel, mas afirmou que a intenção era recomprá-lo posteriormente.

"Eu queria ajudar minha filha a adquirir um apartamento. Como o Guga é investidor, perguntei se ele poderia comprar e depois eu recompraria. O imóvel ainda estava em construção e eu precisaria vender outro apartamento para completar o valor ou buscar financiamento", afirmou.

O parlamentar ressaltou que o apartamento nunca foi transferido para seu nome.

Supostos repasses financeiros

Além do imóvel, a Polícia Federal aponta que o senador teria sido beneficiado por outros repasses financeiros.

Entre eles está a transferência de mais de R$ 5,5 milhões para a BN Financeira, empresa administrada por familiares do senador e que, segundo os investigadores, ocupa papel central nas movimentações financeiras analisadas pela operação.

A investigação também menciona o uso de aeronaves custeadas por Augusto Lima e pelo Banco Master, além do fornecimento de ingressos para eventos realizados no exterior.

Parte das informações foi obtida a partir da análise de celulares apreendidos durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025.

Nos aparelhos, a Polícia Federal afirma ter encontrado mensagens e registros de conversas entre Wagner e Lima tratando de encontros pessoais e da disponibilização de aeronaves para deslocamentos do senador.

Os investigadores também localizaram mensagens relacionadas à oferta de ingressos para um camarote em um show realizado em Los Angeles, nos Estados Unidos. Segundo a apuração, os bilhetes teriam sido adquiridos com recursos da Reag Investimentos e custaram cerca de R$ 63,3 mil.

Atuação legislativa sob investigação

A investigação também analisa a atuação de Jaques Wagner em propostas legislativas consideradas de interesse do grupo econômico ligado ao Banco Master.

Entre os exemplos citados está a apresentação da Emenda nº 30 durante a tramitação da Medida Provisória nº 1.106/2022, que tratava da ampliação da margem para crédito consignado.

A medida provisória resultou posteriormente na Lei nº 14.431/2022, que ampliou a margem consignável para aposentados e pensionistas do Regime Geral de Previdência Social e autorizou operações de crédito para beneficiários de programas sociais.

Segundo a Polícia Federal, Wagner também manteve interlocução com Augusto Lima sobre temas relacionados ao aumento da margem consignável.

A investigação menciona ainda a Emenda nº 26 apresentada à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 65/2023, que trata da autonomia financeira, orçamentária e operacional do Banco Central.

O senador rejeitou qualquer acusação de favorecimento ao Banco Master e destacou que atuou contra propostas defendidas pelo setor financeiro.

Como exemplo, citou a chamada "Emenda Master", apresentada durante discussões legislativas para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) dos atuais R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ.

"O governo era contra essa proposta e eu, como líder do governo, encaminhei voto contrário", afirmou.

Wagner também minimizou o recebimento de sugestões legislativas enviadas por empresários.

"É normal. Qualquer senador recebe contribuições e sugestões de pessoas interessadas nas matérias que estão sendo discutidas", declarou.

Dinheiro apreendido

Durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão, agentes da Polícia Federal localizaram US$ 49 mil em espécie na residência do senador, em Brasília. O valor corresponde a aproximadamente R$ 250 mil na cotação atual.

Segundo a assessoria de Jaques Wagner, os recursos são provenientes de diárias oficiais recebidas durante missões internacionais realizadas pelo Senado Federal, além de recursos próprios devidamente declarados à Receita Federal.

O parlamentar afirmou que costuma adquirir moeda estrangeira para viagens oficiais e que os valores permaneciam guardados em um cofre.

"Comprei dólares e euros pelo Banco do Brasil para viagens. Nem sempre utilizo todo o valor e o dinheiro fica guardado. Não tenho nada a esconder", afirmou.

De acordo com Wagner, os recursos estavam armazenados em envelopes identificados com o timbre do Senado Federal.

Defesa

Em nota, a assessoria do senador afirmou que ele não é réu, não foi denunciado e tampouco acusado formalmente em qualquer processo relacionado aos fatos investigados.

A defesa também reiterou que o apartamento citado pela Polícia Federal nunca integrou o patrimônio do parlamentar e negou qualquer atuação em favor do Banco Master ou de outras instituições financeiras.

Sobre os valores apreendidos, a assessoria informou que os recursos são legais, declarados e decorrentes de diárias não utilizadas durante viagens oficiais.

"O senador Jaques Wagner permanece à inteira disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários e mantém confiança de que os fatos serão devidamente esclarecidos", informou a nota.

Já a defesa de Augusto Ferreira Lima classificou as diligências realizadas pela Polícia Federal como desnecessárias e afirmou que o empresário está à disposição das autoridades desde o início das investigações.

Segundo os advogados, as medidas adotadas contribuirão para demonstrar que todos os fatos investigados são lícitos.

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