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O Fórum de Lisboa e os debates paralelos

Entre os debates oficiais e as conversas de bastidores em Lisboa, Kakay reflete sobre os desafios da democracia, a soberania nacional e os riscos do avanço do extremismo em um mundo cada vez mais tensionado

Por Antonio Carlos Kakay

O Fórum de Lisboa e os debates paralelos Créditos: Divulgação

“Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.”  –Clarice Lispector

 

O Fórum de Lisboa, que é competentemente promovido há 14 anos pelo IDP, coordenado pelo ministro Gilmar Mendes e pela FGV, vai muito além das importantes e oportunas discussões jurídicas que se desenrolam nos mais diferenciados painéis. É uma oportunidade rara de pessoas, não só do mundo jurídico, encontrarem-se para discutir os rumos do Brasil, da democracia.

Há uma espécie de “fórum paralelo” que se desenrola além das salas da Universidade de Lisboa. As discussões vão muito além do Direito e, até pela diversidade das pessoas que vêm a Portugal, servem para pontuar as perplexidades que acompanham o tenso momento pelo qual passa o mundo.

Há quem sequer passa pelo evento, mas participa e debate os mais variados temas, que incluem de conjuntura política a literatura e arte. Enfim, a oportunidade de encontros paralelos de diversos temas só enriquece esse importante momento de discussão que se dá fora do Brasil.

Neste ano ocorreram, completamente fora dos debates oficiais do fórum, oportunidades de reflexão sobre o tenso momento brasileiro. O Brasil passa por uma situação que oscila entre o achaque à democracia, perpetrado por um grupo político de extrema direita acuado pelo risco de ser desnudado por delações e investigações criminais, e interessantes discussões sobre o que ocorre com a nossa ainda tensa e tênue democracia.

Há uma tentativa clara, aberta e deliberada do grupo bolsonarista de entregar a soberania nacional, numa disputa insana pelo poder e pela proteção criminal. Assaltaram o país, afrontaram a democracia e agora sabem que só resta o refúgio covarde da submissão humilhante a um império decadente, mas ainda com poder.

Enquanto as importantes discussões acadêmicas se desenvolviam no fórum, que tinha como tema “A nova ordem internacional, tecnologia e soberania: desafios democráticos, econômicos e sociais”, paralelamente pequenos grupos acompanhavam, discretamente, os movimentos de entrega do país a qualquer custo.

Em debate promovido pelo Lisboa Connection, do grupo Amado Mundo, a escritora e presidente da Fundação José Saramago, Pilar Del Rio, analisou o extremismo do atual momento político global. Fez reflexões pertinentes sobre a ascensão da extrema direita e demonstrou sua preocupação pelos movimentos do presidente Trump. Tudo com reflexo direto no movimento bolsonarista de submissão ostensiva do Brasil ao fascista norte-americano.

Em dado momento, a viúva do grande Saramago afirmou que “Salazar, Franco e Trump são patéticos” e deixou clara a sua preocupação de que, com o silêncio preocupante das pessoas, estejamos perto, numa cegueira coletiva, de um abismo.

Esses debates paralelos já seriam suficientes para confirmar a importância do Fórum de Lisboa, que neste ano reuniu 2.867 pessoas, com 432 palestrantes distribuídos em 70 painéis de diferentes debates. Mesmo quem veio a Lisboa e não foi ao fórum pôde participar de debates que interessam a esse grave momento pelo qual passa a democracia no mundo.

Lembrando Winston Churchill: “A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que já foram tentadas”.

Créditos: Kakay Acesse nosso canal no WhatsApp