Copel Horta

A lista de Yukiko: chefe de gabinete de Moraes cometeu crimes contra a humanidade

Ela comandou um núcleo criminoso dentro do STF para perseguir aliados de Bolsonaro

Por Oswaldo Eustáquio

A lista de Yukiko: chefe de gabinete de Moraes cometeu crimes contra a humanidade Créditos: Reprodução — Vaza Toga - David Agape

Há um ano, o Supremo Tribunal Federal recebeu um pedido formal para investigar a chefe de gabinete do ministro Alexandre de Moraes. Até hoje, nenhuma resposta. Enquanto isso, Moraes dá 48 horas para Bolsonaro se manifestar sobre qualquer coisa.

Esta reportagem teve acesso à lista de nomes reunida por Cristina Yukiko Kusahara Gomes: pessoas presas após o 8 de janeiro contra quem nada de concreto havia sido encontrado. Segundo mensagens já publicadas no vazamento conhecido como Vaza Toga 2, Yokiko coordenou dentro do próprio STF uma investigação paralela, sem critério jurídico definido, para justificar manter essas pessoas presas. Pelo Estatuto de Roma, do qual o Brasil é signatário, perseguição sistemática de um grupo por motivação política pode ser enquadrada como crime contra a humanidade. É essa tese que vamos levar ao Tribunal Penal Internacional, em Haia — depois de reuniões com juristas na Holanda, na Bélgica e na Espanha no mês passado, contratei o advogado Fábio Pagnozzi, que também atua na defesa de Carla Zambelli, para redigir a peça.

Em 15 de agosto de 2025, o partido Novo já havia protocolado uma representação pedindo a abertura de processo administrativo disciplinar contra Kusahara, servidora de carreira do Tribunal de Justiça de São Paulo e chefe de gabinete de Moraes desde a época em que ele também presidia o TSE. O pedido foi endereçado a Luís Roberto Barroso, então presidente da Corte. Passou um ano. Trocou-se até o presidente do STF — Barroso deu lugar a Edson Fachin em setembro de 2025. E o processo nunca saiu do papel.

O modus operandi, segundo as próprias mensagens vazadas: Kusahara criou e administrava um grupo de WhatsApp que decidia, em tempo real, quem seguiria preso após o 8 de janeiro — com base em "checagens" das redes sociais dos detidos, não em fato criminal comprovado. Quando a Procuradoria-Geral da República pedia a soltura de um grupo de presos, Moraes recusava, esperando o resultado dessas checagens. Em mensagem enviada a Eduardo Tagliaferro em 13 de fevereiro de 2023, Kusahara escreveu que o ministro "não quer soltar sem antes a gente ver nas redes se tem alguma coisa". Nenhuma dessas "certidões" era compartilhada com os advogados de defesa ou com o Ministério Público.

O episódio mais explícito aconteceu em março de 2023: enquanto o STF anunciava publicamente, no Dia Internacional da Mulher, a soltura de presas do 8 de janeiro como um gesto de sensibilidade, o gabinete de Moraes trabalhava, nos bastidores, para reunir provas que justificassem mantê-las presas. Kusahara chegou a instruir Tagliaferro a pedir autorização diretamente ao e-mail pessoal de Moraes — driblando os canais oficiais do tribunal — porque, segundo ela mesma, havia risco de a lista vazar. Em outras mensagens, ela orientou que os timbres dos relatórios fossem trocados de STF para TSE, para esconder que as ordens partiam do próprio gabinete do ministro.

É a mesma estrutura, o mesmo período e o mesmo desenho que documentamos no caso de Mariana Eustáquio: um relatório nasce dentro da AEED, sobe até o gabinete, e volta como decisão — sem Polícia Federal, sem Procuradoria-Geral da República, sem nenhum filtro externo. A diferença é que, no caso de Kusahara, é a própria cúpula do gabinete, não um assessor de nível operacional, quem está no centro da denúncia.

Enquanto o pedido do Novo dorme nas gavetas da Corte, Cristina Kusahara segue no cargo. Em setembro de 2025, os Estados Unidos revogaram o visto dela — na mesma leva que atingiu outros dois nomes do mesmo núcleo, o juiz auxiliar Airton Vieira e o ex-assessor eleitoral Marco Antônio Vargas. Formalmente, dentro do STF, nada mudou: ela continua na função, com Moraes seguindo como relator do próprio inquérito do 8 de janeiro — o mesmo processo em que ela é acusada de ter coordenado prisões ilegais.

Um ano de silêncio institucional sobre uma denúncia que aponta, com nome, cargo e mensagens vazadas, para dentro do próprio gabinete do ministro mais poderoso do país. Agora, a denúncia muda de foro.

Créditos: Oswaldo Eustáquio Acesse nosso canal no WhatsApp