Mutirão de catarata em Cascavel acende alerta após casos de infecção no RN
Com espera média superior a quatro meses no país e desigualdade em relação à rede privada, expansão por mutirões e estruturas móveis levanta debate sobre capacidade e controle no sistema público
Por Gazeta do Paraná
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A decisão de Cascavel de acelerar cirurgias oftalmológicas por meio de mutirões, contratação de clínicas especializadas e até a previsão de uma carreta cirúrgica não surge como exceção, mas como resposta direta a um problema estrutural do Sistema Único de Saúde. O desafio não está na ausência de financiamento, mas na dificuldade de transformar esse recurso em atendimento no tempo necessário para quem aguarda na fila.
Os números ajudam a entender a dimensão do problema. A cirurgia de catarata, a mais realizada na rede pública, leva em média 137 dias para acontecer no país. São mais de quatro meses de espera após o diagnóstico, tempo que, na prática, significa perda de qualidade de vida e agravamento da condição de milhares de pacientes. A fila é extensa e, mais do que isso, desigual. Enquanto o SUS realiza a maior parte das cirurgias em números absolutos, a rede privada apresenta desempenho proporcional significativamente superior. Levantamento da Faculdade de Medicina da USP aponta que planos de saúde realizam 73% mais cirurgias de catarata por habitante do que o sistema público.
Cirurgias em carretas
Esse descompasso revela um sistema que atende mais gente, mas com menor capacidade relativa de resposta. É justamente nesse intervalo entre demanda e execução que entram estratégias como a adotada em Cascavel. Ao organizar um mutirão com mais de 2,5 mil procedimentos e recorrer a prestadores credenciados, o município tenta acelerar o que a estrutura tradicional não consegue entregar no ritmo necessário. A possível utilização de uma carreta oftalmológica reforça essa lógica de ampliação emergencial da capacidade.
A escolha não é isolada. Nos últimos anos, o próprio SUS tem recorrido a modelos semelhantes em diferentes regiões do país. A expansão do atendimento não tem vindo da construção de novos hospitais, mas da contratação de serviços, do uso de estruturas móveis e da realização de ações concentradas em curto espaço de tempo. Trata-se de uma resposta pragmática a um sistema que, dividido entre urgências, internações e múltiplas especialidades, não consegue dedicar seus centros cirúrgicos exclusivamente a procedimentos eletivos como a catarata.
Casos de infecções
Esse modelo, no entanto, traz consigo um ponto de tensão que não pode ser ignorado. Casos recentes de infecções graves em mutirões oftalmológicos no país colocaram sob alerta a capacidade de manter padrões rigorosos de segurança quando há aumento de escala. A cirurgia de catarata é considerada segura e amplamente padronizada, mas depende de protocolos estritos de esterilização, controle de infecção e acompanhamento pós-operatório. Quando o volume cresce e o tempo encurta, qualquer falha deixa de ser pontual e passa a atingir dezenas de pacientes.
O problema, portanto, não está no fato de o procedimento ocorrer fora de um hospital tradicional. Cirurgias oftalmológicas são rotineiramente realizadas em centros especializados, desde que cumpram exigências técnicas. O ponto crítico é outro: a capacidade de fiscalização e padronização em um cenário de múltiplos prestadores, contratos distintos e estruturas variadas.
É nesse ponto que o caso do Rio Grande do Norte se torna um marco de alerta. Em um mutirão de cirurgias de catarata, pacientes desenvolveram infecção ocular grave em escala incomum, com evolução que levou à perda do globo ocular em parte dos casos. A investigação apontou para uma possível falha sistêmica, e não um evento isolado. Quando um número elevado de pacientes apresenta a mesma complicação em sequência, o problema deixa de ser individual e passa a indicar quebra de protocolo em cadeia, seja na esterilização de instrumentos, na preparação do ambiente cirúrgico ou no controle microbiológico.
O episódio escancara um risco específico das operações em larga escala: a repetição de um erro em série. Diferentemente de um atendimento individualizado, onde falhas tendem a ser pontuais, o modelo de mutirão concentra procedimentos em curto intervalo de tempo, muitas vezes com equipes sob pressão por produtividade. Nesse contexto, qualquer desvio de padrão — por menor que seja — pode se multiplicar rapidamente e atingir um grande número de pacientes antes mesmo de ser identificado.
Dificuldade no controle
Além disso, a ampliação simultânea de prestadores aumenta a complexidade do controle. Cada unidade envolvida precisa seguir rigorosamente os mesmos protocolos, o que exige coordenação e fiscalização contínua. A ausência de padronização efetiva ou de auditorias em tempo real pode criar brechas onde falhas passam despercebidas até que já tenham causado danos significativos.
Outro ponto sensível é o acompanhamento pós-operatório. Em operações concentradas, o retorno do paciente muitas vezes ocorre fora do ambiente onde a cirurgia foi realizada, o que pode dificultar a identificação precoce de complicações. No caso do Rio Grande do Norte, a gravidade das infecções reforçou a importância desse monitoramento contínuo, não apenas como etapa complementar, mas como parte essencial da segurança do procedimento.
O caso de Cascavel expõe, com nitidez, uma contradição do sistema público de saúde. O SUS garante o direito ao atendimento, mas precisa recorrer a soluções extraordinárias para cumprir essa promessa em tempo razoável. A fila, nesse contexto, deixa de ser apenas um indicador de demanda e passa a ser um sintoma de limitação operacional.
Ao ampliar a oferta por meio de mutirões e estruturas complementares, o sistema resolve parte do problema, mas assume outro desafio. Quanto mais fragmentada a execução, maior a necessidade de controle. A responsabilidade do SUS não diminui com a terceirização ou com o uso de unidades móveis. Pelo contrário, ela se amplia.
Créditos: Redação
