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Muito além da dragagem: o futuro de quem vive no Lagamar

Comunidades tradicionais acompanham o debate sobre o Canal do Varadouro enquanto defendem a preservação de um modo de vida construído ao longo de gerações

Por Gazeta do Paraná

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Muito além da dragagem: o futuro de quem vive no Lagamar Créditos: Ivan P. Andrade/Wikipedia

Antes mesmo do sol nascer, pequenas embarcações começam a cruzar silenciosamente os canais que cortam o Lagamar. Para quem observa de fora, é apenas mais um amanhecer entre manguezais e ilhas do litoral sul brasileiro. Para quem vive ali, porém, a água funciona como estrada, fonte de alimento, local de trabalho e parte da própria identidade.

É nesse cenário que o projeto de reativação do Canal do Varadouro desperta expectativas, dúvidas e preocupações entre as comunidades tradicionais espalhadas entre Paranaguá, no Paraná, e Cananeia, em São Paulo.


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Ao longo de décadas, pescadores artesanais, comunidades caiçaras, quilombolas e povos indígenas construíram uma relação profundamente ligada aos ciclos das marés e à dinâmica natural do estuário. A rotina depende da pesca, da coleta de mariscos, do transporte em pequenas embarcações e da conservação dos manguezais que garantem alimento e renda para centenas de famílias.

Por isso, quando o debate sobre a dragagem ganhou espaço, a discussão rapidamente deixou de tratar apenas da recuperação de um canal.

Para essas populações, a principal preocupação passou a ser como uma intervenção dessa dimensão poderá alterar o cotidiano de quem depende diretamente do equilíbrio ambiental da região.


Um território moldado pela água

Diferentemente de outras regiões do litoral brasileiro, o Lagamar nunca foi estruturado a partir de rodovias.

Durante décadas, a navegação foi o principal meio de ligação entre comunidades isoladas, muitas delas acessíveis apenas por barco.

Até hoje, embarcações de pequeno porte transportam moradores, estudantes, alimentos, pescado, materiais de construção e atendimento de saúde entre vilas distribuídas pelo complexo estuarino.

A água continua sendo o principal caminho.

É justamente essa característica que faz com que o Canal do Varadouro seja visto de maneiras diferentes pelas próprias comunidades.

Enquanto parte dos moradores reconhece que a melhoria da navegabilidade pode facilitar deslocamentos e ampliar oportunidades econômicas, outros demonstram receio de que mudanças na dinâmica do canal tragam consequências que vão além da circulação de embarcações.


Muito além da pesca

O Lagamar também representa um patrimônio cultural.

A cultura caiçara, reconhecida por sua relação histórica com o ambiente costeiro, permanece viva em diversas comunidades da região. Técnicas tradicionais de pesca, construção artesanal de embarcações, culinária baseada nos recursos do estuário e conhecimentos transmitidos entre gerações fazem parte desse modo de vida.

Comunidades quilombolas e aldeias indígenas também mantêm vínculos históricos com o território e dependem dos recursos naturais para atividades econômicas, culturais e de subsistência.

Por isso, especialistas costumam afirmar que preservar o Lagamar significa proteger não apenas um ecossistema, mas também um patrimônio cultural construído ao longo de séculos.


Os receios

Entre as preocupações levantadas durante o processo de licenciamento não estão apenas os impactos ambientais diretos da dragagem.

Pesquisadores e organizações que acompanham a região alertam para possíveis efeitos indiretos que uma ampliação permanente da navegabilidade pode provocar.

Entre eles aparecem o aumento da circulação de embarcações de lazer, maior pressão sobre áreas ambientalmente sensíveis, expansão da especulação imobiliária e mudanças no perfil do turismo desenvolvido atualmente no Lagamar.

Hoje, boa parte das atividades turísticas ocorre em pequena escala.

Passeios conduzidos por moradores locais, hospedagens familiares, observação da fauna, trilhas e experiências ligadas à cultura caiçara representam a principal forma de turismo desenvolvida na região.

É justamente esse modelo que muitas comunidades desejam preservar.


A consulta às comunidades

A presença de povos e comunidades tradicionais também levou o processo de licenciamento a incorporar outra discussão importante.

A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário, estabelece que povos indígenas e comunidades tradicionais devem ser consultados previamente sempre que empreendimentos possam afetar seus territórios ou seus modos de vida.

Por isso, além dos estudos ambientais, a forma como essas consultas serão conduzidas passou a integrar o debate sobre o futuro do projeto.

Mais do que uma exigência burocrática, trata-se do reconhecimento de que essas populações possuem uma relação histórica e permanente com o território.


Um debate que vai além da obra

Ao longo da série, o Canal do Varadouro apareceu como um projeto de infraestrutura, depois como objeto de diferentes narrativas e, mais recentemente, como tema de um complexo processo de licenciamento ambiental.

Mas existe um elemento comum em todas essas discussões.

O Lagamar não é apenas uma paisagem.

É um território onde natureza e presença humana evoluíram juntas durante séculos.

Independentemente do desfecho do licenciamento, o debate sobre o Canal do Varadouro acabou revelando uma questão maior: como promover desenvolvimento em uma das regiões mais preservadas do país sem comprometer justamente aquilo que faz desse território um patrimônio ambiental, histórico e cultural único no Brasil.

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