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Canal do Varadouro coloca o Lagamar no centro de disputa ambiental

Projeto para recuperar o canal desperta questionamentos sobre impactos em um dos ecossistemas mais preservados do Brasil

Por Gazeta do Paraná

Canal do Varadouro coloca o Lagamar no centro de disputa ambiental Créditos: SETU

Existem poucos lugares no Brasil onde Mata Atlântica, manguezais, comunidades caiçaras, quilombolas, aldeias indígenas, sítios arqueológicos e espécies ameaçadas de extinção ainda convivem em um mesmo território praticamente contínuo. O complexo estuarino-lagunar que liga Paranaguá, no litoral do Paraná, a Cananeia, no extremo sul de São Paulo, é um desses raros espaços.

Conhecido como Lagamar, o território reúne um dos maiores remanescentes contínuos de Mata Atlântica do planeta e concentra um mosaico de unidades de conservação estaduais e federais que protegem uma biodiversidade única. Ali vivem espécies como o mico-leão-da-cara-preta, o papagaio-de-cara-roxa, além de centenas de espécies de peixes, aves e mamíferos que dependem do delicado equilíbrio entre rios, manguezais e o mar.


BOX | O que é o Canal do Varadouro?

Aberto artificialmente na década de 1950, o Canal do Varadouro conecta os sistemas estuarinos de Paranaguá (PR) e Cananeia (SP). A ligação permitia que embarcações navegassem entre os dois estados sem enfrentar o mar aberto.

Com o avanço do transporte rodoviário, o canal perdeu importância e acabou sofrendo intenso assoreamento, tornando-se praticamente intransitável para embarcações maiores.

O projeto do Governo do Paraná prevê a dragagem de aproximadamente 340 mil metros cúbicos de sedimentos, aprofundando o canal para cerca de 2,4 metros, além da instalação de trapiches, sinalização náutica e estruturas de apoio à navegação. A proposta ainda depende do licenciamento ambiental federal.


É justamente nesse cenário que o Governo do Paraná pretende executar uma das intervenções mais debatidas dos últimos anos no litoral sul brasileiro: a reativação do Canal do Varadouro.

Apresentado pelo governador Ratinho Junior como uma espécie de "BR do Mar", o projeto prevê a recuperação da navegabilidade entre Paranaguá e Cananeia por meio da dragagem do canal, implantação de estruturas de apoio e melhorias para permitir a circulação de embarcações ao longo do trajeto.

Para o governo estadual, trata-se de uma oportunidade para integrar comunidades, fortalecer o turismo e ampliar o desenvolvimento econômico da região. Para pesquisadores, órgãos ambientais e parte das comunidades tradicionais, porém, a proposta levanta dúvidas sobre os impactos que uma intervenção desse porte pode provocar em um dos ecossistemas mais sensíveis do país.

Mais do que uma discussão sobre engenharia ou infraestrutura, o Canal do Varadouro acabou se transformando em um debate sobre qual modelo de desenvolvimento deve orientar o futuro do litoral paranaense.


Um canal aberto há mais de meio século

O Canal do Varadouro não é uma obra nova. Ele foi aberto artificialmente na década de 1950 para conectar os sistemas estuarinos de Paranaguá e Cananeia, criando uma ligação navegável entre o Paraná e São Paulo sem necessidade de acesso ao mar aberto.

Durante décadas, o canal foi utilizado por pescadores, comerciantes e moradores da região. Com o avanço do transporte rodoviário, entretanto, perdeu importância econômica e deixou de receber manutenção periódica.

Ao longo dos anos, o processo natural de assoreamento reduziu significativamente sua profundidade. Hoje, bancos de areia dificultam ou impedem a passagem de embarcações em diversos trechos, especialmente durante períodos de maré baixa.

É justamente essa condição que o Governo do Paraná pretende alterar.

O anteprojeto elaborado pela Universidade Livre do Meio Ambiente (Unilivre), contratada pela Paraná Projetos, prevê a retirada de aproximadamente 340 mil metros cúbicos de sedimentos, permitindo profundidade próxima de 2,4 metros ao longo do canal. Também estão previstas estruturas como trapiches, píeres, áreas de apoio e sinalização náutica.

Segundo o Estado, a proposta busca devolver segurança à navegação, facilitar o deslocamento entre comunidades tradicionais e estimular atividades ligadas ao turismo sustentável.

A Secretaria de Estado do Planejamento afirma que o empreendimento ainda depende do licenciamento ambiental federal e ressalta que nenhuma intervenção será iniciada antes da conclusão dos estudos exigidos pelo Ibama.


Uma região que vai muito além da paisagem

O debate em torno do Canal do Varadouro ganhou dimensão justamente porque a obra está inserida em uma área considerada estratégica para a conservação ambiental.

O Lagamar abriga extensos manguezais, restingas, ilhas, canais naturais e áreas de reprodução de inúmeras espécies marinhas. O complexo também concentra unidades de conservação como o Parque Nacional do Superagui, reservas estaduais e áreas reconhecidas pela Unesco como integrantes da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

Além da importância ecológica, trata-se de uma região ocupada historicamente por comunidades caiçaras, pescadores artesanais, quilombolas e povos indígenas que mantêm formas tradicionais de utilização dos recursos naturais.

Esse conjunto de características faz com que qualquer intervenção seja analisada sob uma perspectiva muito mais ampla do que apenas sua viabilidade de engenharia.

Especialistas destacam que ambientes estuarinos possuem dinâmica extremamente complexa. Correntes, marés e transporte natural de sedimentos modificam constantemente o relevo submerso, tornando difícil prever todos os efeitos de uma dragagem permanente sobre o equilíbrio ambiental da região.

Essas preocupações levaram órgãos ambientais federais a exigir estudos aprofundados antes da análise do empreendimento.


BOX | Por que o Lagamar é considerado uma área única?

O Lagamar, entre o litoral do Paraná e de São Paulo, abriga um dos maiores remanescentes contínuos de Mata Atlântica do planeta. A região reúne manguezais, restingas, ilhas, estuários e diversas unidades de conservação, incluindo o Parque Nacional do Superagui.

O território também é reconhecido pela presença de comunidades caiçaras, quilombolas e indígenas, além de espécies ameaçadas, como o mico-leão-da-cara-preta e o papagaio-de-cara-roxa. Pela combinação de riqueza ambiental e patrimônio cultural, é considerado um dos ecossistemas costeiros mais importantes do Brasil.


Um debate que ultrapassa a obra

Embora o governo sustente que o objetivo principal seja melhorar a mobilidade das comunidades tradicionais e incentivar o turismo de base comunitária, a proposta acabou despertando um debate que vai muito além da recuperação da navegabilidade.

Enquanto defensores do projeto enxergam uma oportunidade para fortalecer a economia regional e ampliar o acesso entre municípios do litoral paranaense e paulista, críticos alertam para possíveis impactos ambientais, aumento da pressão imobiliária, intensificação do turismo de massa e alterações no modo de vida das populações tradicionais.

É justamente essa divergência que fez com que o Canal do Varadouro deixasse de ser apenas um projeto de infraestrutura para se tornar um dos temas ambientais mais discutidos atualmente no litoral do Paraná.


O PROJETO EM NÚMEROS

- 340 mil m³ de sedimentos previstos para dragagem.

- 2,4 metros de profundidade planejada para o canal.

- Paranaguá (PR) – Cananeia (SP) como ligação hidroviária.

- Estruturas previstas: trapiches, píeres, sinalização náutica e áreas de apoio.

- Situação atual: aguarda definição do Termo de Referência do Ibama para elaboração dos estudos ambientais.


Nos próximos capítulos dessa discussão, mais do que os aspectos técnicos da dragagem, entram em cena diferentes visões sobre o futuro de uma das áreas mais preservadas da costa brasileira: de um lado, a aposta no desenvolvimento econômico por meio da ampliação da navegação; de outro, a defesa de que a preservação ambiental e os modos de vida tradicionais devem estabelecer os limites para qualquer intervenção no território.

 

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