Da "BR do Mar" ao turismo comunitário: como mudou a narrativa sobre o Canal do Varadouro
Apresentação do projeto mudou de foco ao longo do licenciamento, do turismo náutico para comunidades tradicionais e turismo comunitário
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Jonathan Campos/AEN
Quando o Governo do Paraná apresentou ao público a proposta de reativação do Canal do Varadouro, a principal vitrine escolhida não foi uma comunidade caiçara, uma audiência pública ou um encontro com pescadores. O palco foi um dos maiores eventos da indústria náutica da América Latina.
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Durante o São Paulo Boat Show de 2024, o governador Ratinho Junior anunciou o projeto como uma nova "BR do Mar", expressão utilizada para simbolizar a criação de uma rota navegável entre Paranaguá, no Paraná, e Cananeia, em São Paulo. A proposta foi apresentada como uma oportunidade para fortalecer o turismo náutico, integrar o litoral dos dois estados e ampliar o potencial econômico da região.
Nas apresentações institucionais daquele período, o governo destacava o crescimento da indústria náutica paranaense, o aumento do número de embarcações de lazer e a possibilidade de criar um novo corredor turístico voltado à navegação.
"O Paraná tem um potencial enorme para o turismo náutico", afirmou Ratinho Junior durante o lançamento da proposta, ao defender a recuperação do canal como um marco para o desenvolvimento do setor.
A escolha do evento e a própria nomenclatura utilizada ajudavam a transmitir essa mensagem. A expressão "BR do Mar" remetia diretamente à ideia de uma nova rota de navegação para embarcações de turismo, conectando dois dos principais complexos estuarinos do Sul do país.
BOX | O que significa "BR do Mar"?
A expressão foi utilizada pelo governador Ratinho Junior durante a apresentação pública do projeto, em 2024. A comparação fazia referência à criação de uma rota navegável entre Paranaguá (PR) e Cananeia (SP), capaz de impulsionar o turismo náutico e integrar o litoral dos dois estados. Posteriormente, a comunicação oficial passou a enfatizar o turismo de base comunitária e os benefícios às populações tradicionais.
A primeira narrativa
Além das declarações públicas, materiais de divulgação produzidos pelo Estado enfatizavam o potencial econômico do empreendimento.
Entre os benefícios citados estavam o fortalecimento do turismo náutico, a valorização da indústria ligada ao setor, a criação de novas oportunidades para marinas, estaleiros, operadores turísticos e empreendimentos voltados ao lazer.
A recuperação do Canal do Varadouro aparecia inserida em uma estratégia mais ampla de posicionar o Paraná como referência nacional no turismo náutico.
Em diferentes ocasiões, representantes do governo ressaltaram que o estado possuía uma extensa costa navegável ainda pouco explorada economicamente e que a ligação com Cananeia abriria novas possibilidades para embarcações de recreio.
Naquele momento, as comunidades tradicionais apareciam nas apresentações como beneficiárias do projeto, mas não ocupavam o centro da narrativa institucional.
O avanço do licenciamento muda o foco
À medida que o projeto começou a tramitar no processo de licenciamento ambiental, a discussão ganhou outro contorno.
Os questionamentos apresentados por pesquisadores, organizações ambientalistas, Ministério Público Federal, ICMBio e, posteriormente, pelo Ibama passaram a concentrar o debate nos possíveis impactos ambientais da dragagem e na necessidade de estudos mais aprofundados sobre a dinâmica do Lagamar.
Paralelamente, a comunicação oficial também passou por uma mudança perceptível.
Nas reuniões realizadas com moradores da região, entrevistas recentes e notas divulgadas pelo Estado, o principal argumento deixou de ser o fortalecimento do turismo náutico.
O foco passou a ser a melhoria das condições de deslocamento das comunidades tradicionais, a integração entre vilas isoladas e o incentivo ao turismo de base comunitária.
Em vez de marinas e embarcações de lazer, as manifestações oficiais passaram a destacar pescadores, moradores ribeirinhos, transporte de estudantes, acesso a serviços públicos e geração de renda para pequenos empreendedores locais.
A própria Secretaria de Estado do Planejamento passou a definir o empreendimento como um projeto voltado ao desenvolvimento sustentável e à valorização das comunidades que vivem no entorno do canal.
Narrativas diferentes para um mesmo projeto
As duas formas de apresentar o Canal do Varadouro não são necessariamente incompatíveis.
Melhorar a navegabilidade pode beneficiar tanto moradores quanto atividades econômicas ligadas ao turismo.
O que chama atenção, entretanto, é a diferença de ênfase entre as fases do projeto.
Enquanto a primeira apresentação pública estava fortemente associada ao turismo náutico e ao potencial econômico da navegação de lazer, o discurso mais recente passou a privilegiar quase exclusivamente os benefícios sociais para as comunidades tradicionais e o turismo comunitário.
Essa mudança tornou-se um dos principais pontos levantados por pesquisadores e organizações que acompanham o licenciamento.
Para esses grupos, compreender qual é o verdadeiro objetivo da intervenção é fundamental para dimensionar seus impactos e definir quais estudos ambientais serão necessários.
O que diz o Governo
Questionado sobre o tema, o Governo do Paraná afirma que não houve mudança de objetivo.
Segundo o Estado, a recuperação da navegabilidade sempre buscou conciliar desenvolvimento econômico, melhoria da mobilidade regional e fortalecimento do turismo sustentável.
A administração estadual também sustenta que o projeto continua em fase de elaboração e que qualquer intervenção dependerá das condicionantes estabelecidas pelo Ibama durante o processo de licenciamento ambiental.
Enquanto os estudos ambientais ainda não começaram, a discussão sobre o Canal do Varadouro deixou de se concentrar apenas na engenharia da obra.
Ela passou a envolver uma pergunta que acompanhará todas as próximas etapas do projeto: afinal, qual modelo de desenvolvimento está sendo planejado para um dos territórios ambientalmente mais importantes do litoral brasileiro?
