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Milhões em poucas mãos: fornecedores concentram até 72% dos gastos dos principais candidatos ao Governo do Paraná

Prestação parcial mostra R$ 18 milhões em despesas de Sergio Moro, Sandro Alex e Requião Filho; escritórios, agências e produtoras reaparecem em eleições anteriores e até em campanhas rivais

Por Julia Maraschi

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Milhões em poucas mãos: fornecedores concentram até 72% dos gastos dos principais candidatos ao Governo do Paraná Créditos: Divulgação

A primeira prestação parcial de contas das eleições de 2026 revela que uma parcela significativa dos recursos movimentados pelos principais candidatos ao Governo do Paraná está concentrada em poucos fornecedores. Somadas, as campanhas de Sergio Moro (PL), Sandro Alex (PSD) e Requião Filho (PDT) declararam cerca de R$ 18,08 milhões em despesas até o período abrangido pela prestação parcial.

O levantamento da Gazeta do Paraná mostra que apenas quatro fornecedores respondem por 56,6% das despesas declaradas por Moro, 64,9% das de Sandro Alex e 72% das de Requião Filho. Além da concentração, a análise identificou empresas e escritórios que atravessam diferentes eleições e grupos políticos: há fornecedores que atenderam Moro em 2022 e hoje trabalham para Sandro, empresas contratadas simultaneamente por adversários e prestadores compartilhados por candidaturas que integram a mesma aliança eleitoral.

Os dados foram tornados públicos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta terça-feira (15). A prestação parcial reúne receitas e despesas ocorridas desde o início da campanha até 8 de setembro. O próprio TSE ressalta que os números ainda podem sofrer alterações e serão consolidados apenas na prestação final.

A presença do mesmo fornecedor em diferentes campanhas, o tamanho de um contrato ou o capital social reduzido de uma empresa não configuram irregularidade por si só. No entanto, o manual de prestação de contas do próprio TSE determina que, ao escolher um fornecedor, as campanhas devem observar sua capacidade de entregar o bem ou serviço, sua regularidade fiscal e o princípio da economicidade. A Justiça Eleitoral considera o gasto realizado no momento da contratação, independentemente de ele já ter sido pago.

Três campanhas, R$ 18 milhões em despesas

Entre os três candidatos que lideram as pesquisas para o Governo do Paraná, Moro registrou o maior volume de despesas: R$ 7,89 milhões, equivalente a 68,3% do teto permitido para o primeiro turno. Sandro Alex aparece logo atrás, com R$ 7,26 milhões, ou 62,8% do limite. Requião Filho declarou R$ 2,92 milhões, cerca de um quarto do teto eleitoral.

No caso de Moro, os quatro maiores fornecedores são Leandro Rosa Advogados Associados, com R$ 1,7 milhão; Yari Estratégias em Marketing, com R$ 1,38 milhão; APPC – Análise Pesquisa Planejamento e Consultoria, com R$ 705,6 mil; e Luchina & Luchina, com R$ 680 mil. Juntos, ficam com R$ 4,46 milhões.

Na campanha de Sandro Alex, o grupo é ainda mais concentrado. Bonini Guedes Advocacia tem R$ 1,55 milhão em despesas declaradas; Soma Produção de Vídeo, R$ 1,2 milhão; Gerez Branding, R$ 1 milhão; e Facebook Serviços Online do Brasil, R$ 964,85 mil. São R$ 4,71 milhões nos quatro primeiros colocados.

Requião Filho apresenta a maior concentração proporcional. A Carambola Produções recebeu R$ 1 milhão; a Super Grafic Digital, R$ 464,7 mil; Ziliotto e Dominschek Sociedade de Advogados, R$ 400 mil; e o Facebook, R$ 240 mil. Os quatro somam R$ 2,10 milhões, ou praticamente três quartos do gasto declarado até então.

Escritório de Moro em 2022 hoje é o maior fornecedor de Sandro

Uma das conexões mais evidentes está no mercado jurídico eleitoral. A Bonini Guedes Advocacia, hoje maior fornecedor individual da campanha de Sandro Alex, com R$ 1,55 milhão, foi também o principal fornecedor da campanha de Sergio Moro ao Senado em 2022, quando foram declarados R$ 800 mil ao escritório.

A empresa está ativa desde 2015, tem sede em Curitiba, capital social cadastrado de R$ 100 mil e um quadro societário com 15 integrantes. Gustavo Bonini Guedes aparece como sócio administrador.

A mudança de cliente entre uma eleição e outra não indica qualquer irregularidade. Ela mostra, contudo, como parte do mercado de prestação de serviços eleitorais não acompanha necessariamente as divisões partidárias. Em 2026, o escritório atua na defesa de Sandro em processos eleitorais nos quais o PL, partido de Moro, figura no polo adversário. Em algumas dessas representações, o partido é representado pelo advogado Leandro Souza Rosa, cujo escritório é justamente o maior fornecedor atual da campanha de Moro.

O valor contratado por Sandro também merece uma comparação documental: a campanha registra R$ 1,87 milhão em serviços advocatícios, enquanto Moro declara R$ 1,7 milhão na mesma categoria e Requião Filho, R$ 400 mil. A diferença, isoladamente, não permite concluir que um contrato seja caro ou barato. Para medir economicidade seria necessário comparar duração, número de profissionais, processos atendidos, consultorias preventivas e demais atividades previstas em cada contrato.

O próprio TSE exige, na prestação final, contrato, documento fiscal, comprovação da regularidade profissional, comprovante de pagamento e relatório das atividades desempenhadas pelos escritórios contratados.

O mesmo contador de Moro e Sandro

Outra coincidência ocorre exatamente nas prestações de contas.

A Politicon Contabilidade, especializada em contabilidade eleitoral, aparece simultaneamente nas campanhas dos dois principais adversários. Moro declarou R$ 300 mil com a empresa; Sandro Alex, R$ 270 mil. Somados, são R$ 570 mil.

O CNPJ foi aberto em julho de 2022, tem capital social registrado de R$ 10 mil e atividade principal de contabilidade. O sócio-administrador cadastrado é Jadiel Vinicius Marques da Silva. Em 2022, poucos meses depois da abertura, a empresa recebeu R$ 320 mil da campanha de Ratinho Junior ao Governo, além de ter trabalhado para Moro e Sandro naquela mesma eleição, em contratos menores. Em 2024, foi contratada por diferentes candidaturas, entre elas a de Eduardo Pimentel à Prefeitura de Curitiba.

Não há impedimento aparente para que um escritório contábil atenda candidaturas concorrentes. A situação, porém, permite questionar quais equipes foram designadas a cada campanha, como é feita a segregação das informações e quais serviços explicam a diferença entre os valores contratados.

Gerez se mantém no núcleo das campanhas governistas

Na comunicação política, um dos fornecedores mais recorrentes é a Gerez Branding.

Sandro declarou R$ 1 milhão à filial curitibana da agência. O estabelecimento foi aberto em março de 2022 e possui capital social cadastrado de R$ 100 mil. A mesma filial havia recebido R$ 3,58 milhões da campanha de Ratinho Junior à reeleição em 2022, além de R$ 900 mil da campanha de Tiago Amaral em Londrina e R$ 400 mil da de Marcelo Rangel em Ponta Grossa, ambas em 2024. Jorge Domingo Gerez aparece como sócio-administrador.

Em 2026, a presença da empresa se estende à campanha ao Senado de Alexandre Curi (Republicanos). Curi declarou R$ 750 mil à matriz da Gerez, enquanto Sandro contratou a filial. Como os dois CNPJs possuem a mesma raiz empresarial, o grupo soma R$ 1,75 milhão somente nas duas candidaturas.

Nesse caso, a conexão política é aberta: Sandro e Curi integram a mesma aliança eleitoral liderada pelo grupo do governador Ratinho Junior. Curi concorre ao Senado na coligação que apoia Sandro Alex ao Governo e Rafael Greca a vice.

Por isso, fornecedores em comum podem resultar de uma estratégia compartilhada de campanha, de negociação conjunta ou simplesmente da escolha dos mesmos prestadores. É justamente o conteúdo dos contratos que pode responder qual das hipóteses se aplica.

Cinco fornecedores unem as campanhas de Sandro e Curi

A Gerez não é um caso isolado. A análise encontrou ao menos cinco grupos empresariais contratados pelas campanhas de Sandro Alex e Alexandre Curi.

A Soma Produção de Vídeo recebeu R$ 1,2 milhão de Sandro e R$ 430 mil de Curi. A Gerez soma R$ 1,75 milhão entre matriz e filial. A Hellograf Artes Gráficas aparece com R$ 343,77 mil na campanha de Sandro e R$ 121,38 mil na de Curi. A Amasv Zarpa recebeu R$ 233,04 mil e R$ 166,8 mil, respectivamente. Já empresas da mesma raiz da Helisul Táxi Aéreo aparecem com R$ 182,79 mil em Sandro e R$ 102,87 mil em Curi.

Somadas, as despesas declaradas das duas campanhas com esses cinco grupos chegam a aproximadamente R$ 4,53 milhões.

A Soma Produção de Vídeo, por exemplo, está ativa desde 2007 em Curitiba e tem como atividade principal a produção cinematográfica, de vídeos e programas de televisão. Augusto Iurck e Marcos Augusto Iurck aparecem como sócios-administradores. Seu capital social cadastrado é de R$ 20 mil. Somente Sandro e Curi declararam R$ 1,63 milhão em contratos com a produtora neste ano.

O capital social, porém, não equivale a faturamento, patrimônio disponível, capacidade de produção nem tamanho da equipe. Portanto, a diferença entre capital registrado e valor contratado deve funcionar apenas como ponto de partida para verificar estrutura e capacidade operacional, e não como indicativo de irregularidade.

Uma gráfica atende governistas e oposição e também possui contratos públicos

A Hellograf Artes Gráficas ajuda a demonstrar que parte dos fornecedores circula por campos políticos diferentes.

Além dos R$ 343,77 mil declarados por Sandro e dos R$ 121,38 mil por Curi, Deltan Dallagnol (Novo), candidato ao Senado, registra R$ 111,84 mil em despesas com a gráfica. Somente nessas três candidaturas, o total se aproxima de R$ 577 mil.

A empresa existe desde 1992, está habilitada a participar de licitações e tem histórico de fornecimento ao poder público. Em 2026, por exemplo, a E-Paraná registrou contratos com a Hellograf para impressão de materiais institucionais, em valores na faixa de R$ 6,1 mil a R$ 6,3 mil por contratação. O Portal da Transparência federal também registra contratos e recursos recebidos pela empresa.

A existência simultânea de contratos públicos e eleitorais é permitida e, sozinha, não caracteriza conflito ou favorecimento. O dado interessa à apuração porque permite comparar preços, produtos e capacidade operacional de um fornecedor que trabalha tanto para governos quanto para candidatos.

Fornecedores também acompanham Moro de uma eleição para outra

Na campanha de Moro, a recorrência é especialmente perceptível na área de comunicação.

A Yari Estratégias em Marketing tem R$ 1,38 milhão contratado na campanha ao Governo e mais R$ 450 mil na campanha de Rosangela Moro a deputada federal. Em 2022, a empresa já havia recebido R$ 435 mil da campanha de Moro ao Senado.

A empresa é uma das mais antigas entre as analisadas. Foi aberta em 1991, atua como agência de publicidade e tem capital social cadastrado de R$ 30 mil. Marcelo Simas do Amaral Catani aparece como sócio-administrador e Maria Cecilia Ferreira Simas como sócia. O histórico eleitoral inclui candidaturas de diferentes partidos desde pelo menos 2018.

Já o Leandro Rosa Advogados Associados, contratado por Moro por R$ 1,7 milhão, também recebeu R$ 1,1 milhão da campanha de Deltan Dallagnol ao Senado. Somente as duas candidaturas somam R$ 2,8 milhões ao escritório. A campanha de Rosangela Moro declara outros R$ 85 mil.

O escritório foi aberto em 2014, tem sede em Curitiba e capital social cadastrado de R$ 15 mil. Leandro Souza Rosa e Pedro Henrique Val Feitosa aparecem no quadro societário.

Os valores cadastrais não permitem concluir qualquer incapacidade. A questão que deverá ser respondida pelos contratos é o que exatamente os R$ 1,7 milhão e R$ 1,1 milhão remuneram e como os preços foram formados.

Mais dinheiro significa mais intenção de voto? 

Os dados financeiros das campanhas também permitem uma comparação descritiva com o cenário registrado pelas pesquisas eleitorais. Para isso, a Gazeta do Paraná considerou a pesquisa Neokemp/OCP News, cujo trabalho de campo ocorreu nos dias 8 e 9 de setembro de 2026. A data é próxima ao período abrangido pela prestação parcial, que, segundo o TSE, deve registrar a movimentação financeira e estimável ocorrida até 8 de setembro.

A pesquisa Neokemp apontou Sergio Moro (PL) com 48,8% das intenções de voto, seguido por Requião Filho (PDT), com 23,3%, e Sandro Alex (PSD), com 20,4%. Foram entrevistados 1.008 eleitores em 209 municípios paranaenses. A margem de erro informada é de 3,1 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado na Justiça Eleitoral sob o número PR-04426/2026.

Na fotografia das contas eleitorais disponível no DivulgaCandContas em 15 de setembro, Moro aparecia com R$ 7.893.971,42 em despesas declaradas; Sandro Alex, com R$ 7.259.993,14; e Requião Filho, com R$ 2.922.743,76. Os valores foram consultados a partir dos dados da Justiça Eleitoral.

O contraste é expressivo. Sandro havia declarado despesas equivalentes a cerca de 92% do montante registrado por Moro. Na pesquisa Neokemp, porém, os dois estavam separados por 28,4 pontos percentuais: 48,8% para Moro e 20,4% para Sandro.

Requião apresenta situação diferente. Sua campanha registrava despesas equivalentes a aproximadamente 40% das declaradas por Sandro, mas os percentuais dos dois na pesquisa eram próximos: 23,3% para Requião e 20,4% para Sandro. A distância, de 2,9 pontos percentuais, era inferior à margem de erro de 3,1 pontos divulgada pelo instituto.

A comparação não permite atribuir o desempenho eleitoral ao volume de dinheiro gasto, nem concluir que uma campanha seja mais ou menos eficiente que outra. Os números apenas mostram que, naquele estágio da disputa, as diferenças nas despesas declaradas não se reproduziam na mesma proporção nas intenções de voto. Fatores como conhecimento prévio dos candidatos, rejeição, exposição pública, estrutura partidária, estratégia de campanha e o momento de aplicação dos recursos também podem influenciar os resultados das pesquisas.

Contratos ainda são a peça que falta

A análise dos números públicos permite identificar concentração e recorrência, mas ainda não responde a principal questão prevista nas próprias regras do TSE: os preços contratados foram econômicos e os fornecedores tinham capacidade para entregar o que foi adquirido?

Essa resposta depende principalmente dos contratos, notas fiscais, relatórios e produtos entregues. Há uma limitação importante nesta fase da campanha. Segundo o manual do TSE, a prestação parcial torna públicos os dados registrados no CONTA+JE, mas não divulga automaticamente a documentação comprobatória anexada aos lançamentos. Esses documentos passam a integrar o processo com a prestação final.

Em despesas de produção de rádio, televisão e vídeo, por exemplo, a Justiça Eleitoral prevê contrato, cópia dos materiais produzidos, nota fiscal e comprovante bancário. Para consultorias, exige contrato com descrição do serviço e vínculo com a campanha, relatório detalhado das atividades e, quando existente, o produto entregue.

É nesses documentos que estará a resposta sobre quantos vídeos foram produzidos por R$ 1,2 milhão, quais serviços de publicidade correspondem a R$ 1 milhão, quantos processos justificam R$ 1,7 milhão em honorários e que estrutura foi mobilizada por cada fornecedor.

Até lá, a prestação parcial revela uma primeira característica inequívoca da eleição paranaense: milhões de reais estão concentrados em um conjunto relativamente pequeno e recorrente de empresas e escritórios especializados no mercado político-eleitoral.

Créditos: Julia Maraschi Acesse nosso canal no WhatsApp