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Do microfone ao Palácio: aliados de Ratinho viram comissionados no governo do filho

Jotapê e João Eduardo Cruz fazem parte de uma rede de comunicadores ligada há décadas à família Massa; João atuou na Massa FM no mesmo ano em que ingressou no Executivo estadual, enquanto Jotapê mantém programa diário de rádio e cargo na Assessoria do Governador

Por Gazeta do Paraná

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Do microfone ao Palácio: aliados de Ratinho viram comissionados no governo do filho Créditos: Reprodução redes sociais

Três décadas de relações políticas, profissionais e pessoais ajudam a explicar uma rede de comunicadores que atravessou emissoras de rádio e televisão, campanhas eleitorais e, a partir de 2019, chegou à estrutura do Governo do Paraná. Entre os personagens estão José Aparecido Alves, o Jotapê, e João Eduardo Cruz, hoje ocupantes de cargos comissionados no Executivo estadual e com trajetórias também construídas diante dos microfones.

No caso de João Eduardo, a ligação passa diretamente pelo conglomerado de comunicação da família do governador. Registros de 2019 mostram João atuando na Massa FM, emissora do Grupo Massa, de Carlos Massa, o Ratinho, pai de Ratinho Junior. Naquele momento, João já ocupava cargo comissionado no Governo do Paraná.

Os casos foram levantados pela Gazeta do Paraná a partir do cruzamento de atos oficiais, registros funcionais, publicações em redes sociais e atividades profissionais em emissoras. Questionado sobre jornadas, controle de frequência e compatibilidade entre as atividades públicas e privadas, o Governo afirma que as nomeações seguiram a legislação e que os servidores cumprem regularmente seus horários. A gestão, porém, não respondeu aos questionamentos específicos sobre as jornadas nem apresentou os controles de frequência solicitados pela reportagem.

 

Uma relação antiga

No caso de Jotapê, a relação com o universo político da família Massa antecede em décadas o governo de Ratinho Junior. Comunicador desde 1979, José Aparecido Alves construiu carreira no rádio e na televisão e também ingressou na política. Em 1988, foi eleito vereador de Curitiba na mesma eleição em que Carlos Massa, o Ratinho, também conquistou uma cadeira no Legislativo municipal.

A trajetória de Ratinho, por sua vez, passou diretamente pelo grupo de comunicação comandado por José Carlos Martinez, empresário e político que esteve à frente da estrutura que deu origem à CNT. A relação ultrapassou o ambiente profissional e alcançou a política e a amizade pessoal. Anos depois, Rodrigo Martinez, filho de José Carlos, descreveu Ratinho publicamente como um dos maiores amigos de seu pai e afirmou ter “gratidão eterna” ao apresentador. Sobre Ratinho Junior, Rodrigo também declarou que os dois foram “criados juntos”.

Jotapê também passou profissionalmente pela CNT. Em 2010, reportagem da época o identificava como repórter do programa policial 190. A passagem acrescenta mais uma conexão profissional a uma estrutura de comunicação historicamente próxima de Ratinho, embora não haja elemento que permita atribuir sua contratação na emissora à família Massa.

 

“Tudo começou em 2002”

A proximidade política de Jotapê com Ratinho Junior aparece de maneira particularmente explícita em uma publicação feita pelo próprio comunicador em janeiro de 2019. Ao compartilhar material eleitoral antigo em que os dois aparecem, escreveu: “Tudo começou em 2002!”. Naquele ano, Jotapê disputou uma vaga de deputado federal e Ratinho Junior concorreu a deputado estadual.

A postagem foi feita poucos dias depois de Jotapê ingressar no novo governo. Seu vínculo com a Governadoria começou em 2 de janeiro de 2019, segundo os registros funcionais levantados pela reportagem. Já em março daquele ano, o comunicador era apresentado publicamente como “jornalista e radialista” e “assessor especial da governadoria”, em uma atuação que envolvia o relacionamento entre a imprensa do interior e o Governo do Estado.

Em abril de 2019, outro registro mostra Jotapê acompanhando dirigentes de veículos de comunicação e Gabriel Massa, irmão do governador, em visitas a órgãos estaduais e à Secretaria de Comunicação Social. Na ocasião, ele novamente foi identificado como assessor especial da Governadoria.

A proximidade declarada não ficou restrita ao material de 2002. Em publicação de março de 2022, Jotapê relembrou seu aniversário em 1º de outubro de 2018, em plena campanha eleitoral, e contou que pediu aos convidados votos para Ratinho Junior. No texto, descreveu o então candidato como amigo de longa data e “eterno companheiro das boas lutas”, encerrando com a frase: “Conte comigo sempre!”

 

Governo e rádio

A entrada no Executivo não encerrou a trajetória de Jotapê nos meios de comunicação. Em 2021, ele comandava o Jornal do Jotapê na Rádio Cultura AM 930, transmitido ao vivo de segunda a sexta-feira, das 19h às 21h, ao lado de João Eduardo Cruz.

Atualmente, o programa começa ainda mais cedo: a programação divulgada informa transmissão de segunda a sexta-feira, das 18h às 21h. Registros recentes mostram que Jotapê continua diariamente no microfone. Uma publicação de 2025 sobre sua trajetória profissional também registra passagens pela Rádio Independência, TV Iguaçu e Rede Massa.

Ao mesmo tempo, Jotapê permanece na estrutura estadual. A documentação oficial já o identificava em 2023 como assessor especial da Governadoria, símbolo AE-1. Dados funcionais consultados pela Gazeta mostram que ele continua vinculado à Assessoria do Governador e que sua remuneração bruta regular em 2026 supera R$ 32 mil mensais.

 

João Eduardo: da Massa ao governo

A trajetória de João Eduardo Cruz cruza de maneira ainda mais direta o Grupo Massa, o rádio e o serviço público. Ele ingressou no Executivo estadual em 28 de janeiro de 2019, menos de um mês depois de Ratinho Junior assumir o Governo do Paraná, inicialmente na estrutura da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano.

Naquele mesmo ano, João também aparece ligado profissionalmente à Massa FM, emissora pertencente ao Grupo Massa, conglomerado de comunicação de Carlos Massa, o Ratinho, pai do governador. Em 12 de dezembro de 2019, uma publicação da própria Massa FM Curitiba mostra João Eduardo no estúdio da emissora. Dois dias depois, ele próprio publicou registro da confraternização com a legenda “Festa final de ano Grupo Massa”. Registros profissionais posteriores também relacionam sua trajetória à Massa FM, onde atuou como comunicador.

A coincidência temporal é relevante. Quando esses registros foram produzidos, João Eduardo já ocupava cargo comissionado no Executivo estadual havia quase um ano. Assim, sua atuação no Grupo Massa aparece no mesmo período em que integrava o governo comandado pelo filho do proprietário do conglomerado de comunicação.

A ligação com o rádio prosseguiu. Em 2021, João dividia com Jotapê a apresentação do Jornal do Jotapê, transmitido ao vivo pela Rádio Cultura AM 930, de segunda a sexta-feira, das 19h às 21h. Registros posteriores mostram sua participação no programa também nos anos seguintes.

Em 2025, João anunciou ainda sua estreia na Rádio Sara Brasil FM 107,5, em um programa matinal com início às 6h30, ao lado do pai, o jornalista Fernando Cruz. Nesse período, continuava aparecendo na estrutura estadual, inclusive no Núcleo de Comunicação Setorial da Secretaria das Cidades.

 

De “cedido” à Casa Civil

A situação funcional de João ganhou uma nova camada em agosto de 2025. Registros da Prefeitura de Curitiba consultados pela Gazeta apontam o comunicador como “admitido em agosto/2025”, na categoria funcional “cedido de outros órgãos”. Ele passou a atuar no município como diretor do Departamento de Políticas sobre Drogas da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano.

Em dezembro daquele ano, o Portal da Transparência de Curitiba registra R$ 22.222,98 em vantagens brutas e R$ 16.800,06 líquidos. Na tela consultada pela reportagem, porém, o cadastro municipal não esclarece qual órgão realizou a cessão.

O dado chama atenção porque João vinha diretamente da estrutura estadual. Em 2025, registros da Secretaria das Cidades ainda o colocavam no Núcleo de Comunicação Setorial. A classificação municipal como “cedido de outros órgãos” tornou necessário esclarecer de onde partiu a cessão, quando ela começou e, principalmente, quando terminou.

A pergunta ganhou ainda mais importância em 2026. Em 15 de abril, Ratinho Junior assinou o Decreto nº 13.337, nomeando João Eduardo Cruz para exercer o cargo comissionado de assessor CCE-7 da Casa Civil. Atualmente, os registros estaduais apontam remuneração bruta regular em torno de R$ 9,1 mil mensais.

A Gazeta perguntou ao Governo se foi o próprio Estado que cedeu João à Prefeitura, qual ato administrativo formalizou a movimentação, qual era o órgão de origem, quando a cessão terminou e se ela ainda estava vigente quando ocorreu a nova nomeação para a Casa Civil. Também questionou se houve algum período de vínculo, função, exercício ou remuneração concomitante entre Estado e Município.

Nenhuma dessas perguntas específicas foi respondida.

 

Governo garante regularidade

Procurado pela Gazeta, o Governo do Paraná afirmou que as nomeações para cargos em comissão são submetidas a procedimentos administrativos e mecanismos de controle destinados a verificar o cumprimento dos requisitos legais e a regularidade dos atos. Também citou a Controladoria-Geral do Estado como responsável por atividades de fiscalização, auditoria, orientação e avaliação da legalidade, regularidade e conformidade dos atos da administração.

Segundo o Executivo, “as contratações dos funcionários questionadas foram realizadas em estrita observância à legislação vigente e em conformidade com as normas, critérios e procedimentos estabelecidos pelo Governo do Estado do Paraná”. A nota acrescenta que os servidores “cumprem regularmente sua jornada de trabalho” e estão submetidos aos mecanismos de controle e fiscalização dos órgãos estaduais.

A resposta, entretanto, não informa quais são os horários de entrada e saída de Jotapê e João Eduardo, não explica como é realizado o controle de frequência de cada um e não encaminha os registros solicitados pela Gazeta. O Governo também não respondeu se os dois comunicaram formalmente suas atividades profissionais em emissoras privadas ou se houve análise específica da compatibilidade dessas atividades com suas jornadas no serviço público.

No caso de Jotapê, a Gazeta perguntou como o Estado verifica a compatibilidade entre o cargo na Assessoria do Governador e um programa de rádio que atualmente começa às 18h em dias úteis. A existência do programa nesse horário, por si só, não demonstra incompatibilidade funcional. A reportagem buscou justamente os horários oficiais e controles de frequência para verificar a questão, mas essas informações não foram apresentadas na resposta.

No caso de João Eduardo, ficaram sem resposta também as questões sobre sua cessão para Curitiba, o eventual encerramento dessa movimentação e sua situação funcional quando foi nomeado para a Casa Civil em abril deste ano. O Governo tampouco detalhou como foram compatibilizadas, ao longo de seus vínculos estaduais, as atividades que João manteve em diferentes emissoras.

 

Uma rede que atravessa gerações

Os documentos reunidos pela Gazeta não demonstram, isoladamente, irregularidade nas nomeações ou no exercício das atividades privadas. Revelam, entretanto, uma sequência de relações que atravessa gerações. De um lado está a antiga relação profissional, política e pessoal de Carlos Massa com José Carlos Martinez e a estrutura da CNT. De outro, aparecem comunicadores que circularam por emissoras, campanhas e estruturas públicas e que, a partir de 2019, passaram a ocupar cargos no governo de Ratinho Junior.

Jotapê entrou na Governadoria no segundo dia de 2019. João Eduardo chegou ao Executivo estadual ainda naquele primeiro mês e, no mesmo ano, aparece atuando na Massa FM, pertencente ao grupo empresarial do pai do governador. As trajetórias dos dois depois se cruzariam novamente no Jornal do Jotapê.

Ao afirmar que os servidores cumprem regularmente suas jornadas, o Governo sustenta a regularidade funcional dos dois. Sem informar os horários efetivamente cumpridos nem apresentar os registros de frequência solicitados, entretanto, deixa sem resposta justamente a documentação que permitiria confrontar essa afirmação com as atividades profissionais mantidas fora do Estado.

A questão central, portanto, não está apenas em quem foi nomeado. Está em como essas funções são exercidas, quais jornadas são efetivamente cumpridas e de que maneira o Governo controla a fronteira entre a atividade pública e a atuação privada de assessores que mantêm vínculos profissionais com veículos de comunicação, inclusive aqueles ligados à própria família do governador.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp