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Propaganda eleitoral: Gazeta checa declarações de Moro, Sandro Alex e Requião Filho sobre o Paraná

De emendas de R$ 288 milhões a desemprego, segurança, pesquisas, Copel e Sanepar: Gazeta do Paraná verificou afirmações objetivas usadas pelos três principais candidatos ao Governo do Estado nos últimos sete dias

Por Ana Zimermann

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Propaganda eleitoral: Gazeta checa declarações de Moro, Sandro Alex e Requião Filho sobre o Paraná Créditos: divulgação

A propaganda eleitoral dos candidatos ao Governo do Paraná entrou, na última semana, em uma fase mais marcada pela comparação de números, ataques aos adversários e pela tentativa de associação — ou oposição — ao atual governo estadual. Entre os dias 9 e 15 de setembro, Sergio Moro (PL), Sandro Alex (PSD) e Requião Filho (PDT) utilizaram no horário eleitoral e nas redes sociais afirmações sobre emendas parlamentares, pesquisas eleitorais, segurança pública, escolas cívico-militares e o controle de empresas como Copel e Sanepar.

A Gazeta do Paraná analisou as principais declarações objetivamente verificáveis encontradas nos materiais veiculados ou repercutidos no período. Foram consultados dados do Senado Federal, IBGE, secretarias estaduais, Copel, Sanepar, Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR), Justiça Eleitoral e pesquisas registradas no Tribunal Superior Eleitoral. As declarações foram classificadas como verdadeira, verdadeira com ressalvas, imprecisa, enganosa, sem comprovação ou falsa. 

1. Moro destinou “mais de R$ 288 milhões” em emendas ao Paraná

Classificação: ENGANOSA

Um vídeo divulgado nas redes sociais de Sergio Moro afirma que o senador teria destinado mais de R$ 288 milhões em emendas parlamentares ao Paraná. A cifra não encontra correspondência, porém, no valor de emendas autorizadas registrado pelo sistema Siga Brasil, do Senado Federal. Levantamento realizado pelo Jornal Comunicação, da Universidade Federal do Paraná, a partir dos dados do Siga Brasil (atualizados até 2 de setembro), encontrou R$ 212,2 milhões em emendas autorizadas para Moro entre 2024 e 2026. Quando considerados apenas os recursos efetivamente pagos, o total era ainda menor: R$ 166,3 milhões.

Isso significa uma diferença de aproximadamente R$ 75,8 milhões entre os R$ 288 milhões anunciados na propaganda e o montante autorizado registrado no sistema do Senado. A expressão “destinou” também pode induzir o eleitor a interpretar que todo o dinheiro já chegou aos destinatários, o que não ocorreu: o volume efetivamente pago era de R$ 166,3 milhões.

Conclusão: o candidato apresentou um valor superior ao registrado como autorizado no Siga Brasil e muito acima do montante efetivamente pago. Por isso, a afirmação é classificada como enganosa.

Onde foi veiculada: vídeo publicado nas redes sociais de Sergio Moro e analisado em 9 de setembro pelo Jornal Comunicação/UFPR. Confira a publicação sobre o vídeo e os dados do Siga Brasil

2. Ratinho Junior foi “aliado” de Moro nas eleições de 2018 e 2022

Classificação: FALSA

Em propaganda eleitoral, Moro declarou: “Quero agradecer ao governador Ratinho Junior, nosso aliado em 2018 e 2022”. A afirmação já havia começado a circular antes do período analisado, mas permaneceu no centro da propaganda eleitoral e resultou em direito de resposta exibido no programa de Moro em 14 de setembro.

O histórico eleitoral não sustenta a afirmação. Em 2018, Moro sequer era candidato: ainda exercia o cargo de juiz federal durante a campanha eleitoral. Só deixou a magistratura após aceitar, em novembro daquele ano, o convite de Jair Bolsonaro para assumir o Ministério da Justiça. Em 2022, quando Moro concorreu ao Senado pelo Paraná, Ratinho Junior apoiou publicamente Paulo Martins, então candidato do PL à mesma vaga.

O próprio governador contestou judicialmente a propaganda. O TRE-PR determinou a retirada da peça e considerou que a alegação de aliança não correspondia aos fatos. Na resposta exibida posteriormente, Ratinho voltou a negar ter sido aliado eleitoral de Moro nos dois pleitos. Conclusão: não houve aliança eleitoral entre Ratinho Junior e Moro em 2018 ou em 2022 nos termos apresentados pela propaganda. A declaração é falsa.

Onde foi veiculada: propaganda eleitoral de Moro; a peça e a reação de Ratinho continuaram repercutindo na semana analisada.

3. “O outro candidato está só caindo nas pesquisas”, disse propaganda de Sandro Alex

Classificação: ENGANOSA

O programa eleitoral de Sandro Alex exibido em 9 de setembro abriu com uma referência indireta a Moro: “O outro candidato está só caindo nas pesquisas”. Na sequência, a propaganda destacou que Sandro estaria crescendo. A segunda parte encontra respaldo em levantamentos recentes. A primeira, não.

Na pesquisa Real Time Big Data divulgada em setembro, Sandro passou de 23% para 25%, enquanto Moro permaneceu com 35%. Ou seja: Sandro cresceu numericamente, mas Moro não caiu nessa série. A situação é ainda mais clara na Neokemp. Entre as duas últimas rodadas comparáveis do instituto: Moro passou de 46,9% para 48,8%; Sandro Alex passou de 17,7% para 20,4%. Portanto, os dois cresceram numericamente.

Além disso, oscilações dentro da margem de erro não devem ser interpretadas automaticamente como tendências consolidadas de alta ou queda. Conclusão: é correto dizer que Sandro apresentou crescimento numérico em pesquisas recentes, mas não que Moro estivesse “só caindo”. Em pesquisas comparáveis, o candidato do PL ficou estável ou cresceu. A mensagem, portanto, é enganosa.

Onde foi veiculada: horário eleitoral de 9 de setembro. A íntegra dos programas dos três candidatos foi disponibilizada junto à cobertura daquele dia. Veja a cobertura e a íntegra dos programas de 9 de setembro

4. Moro votou a favor da indicação de Flávio Dino ao STF

Classificação: SEM COMPROVAÇÃO

A campanha de Sandro Alex levou à televisão uma das afirmações mais recorrentes contra Moro: a de que o senador teria votado favoravelmente à indicação de Flávio Dino para ministro do Supremo Tribunal Federal. O problema é que não existe registro público do voto individual de Moro. A votação realizada pelo Senado para aprovar ministros do STF é secreta. A campanha de Moro recorreu ao TRE-PR para retirar a propaganda do ar. O pedido foi rejeitado, mas a decisão judicial não declarou que Moro votou em Dino.

A juíza auxiliar do TRE-PR entendeu que, justamente por o voto ser secreto, não seria possível demonstrar objetivamente que a afirmação constitui um “fato sabidamente inverídico”. São situações diferentes: permitir que uma propaganda permaneça no ar não significa comprovar o conteúdo da alegação. Conclusão: como o voto foi secreto, não há documento oficial capaz de demonstrar como Moro votou. A afirmação deve ser classificada como sem comprovação.

5. Paraná tem “cerca de 350” colégios cívico-militares

Classificação: VERDADEIRA COM RESSALVAS

Sandro Alex tem utilizado na campanha o tamanho atual da rede cívico-militar como argumento para defender a ampliação do programa para 500 colégios. A referência a aproximadamente 350 unidades está próxima do número oficial, mas não é exata. A Secretaria de Estado da Educação informa que o Paraná possui atualmente 345 colégios cívico-militares, com 824 monitores e mais de 190 mil estudantes no cadastro exibido pela pasta. O total aumentou de 312 para 345 no início do ano letivo de 2026, com a inclusão de outras 33 escolas.

A promessa de chegar a 500 unidades não pode ser classificada como verdadeira ou falsa neste momento porque depende de uma eventual eleição e da futura implantação do projeto. Conclusão: dizer que existem “cerca de 350” colégios é uma aproximação aceitável dos 345 registrados oficialmente. A afirmação é verdadeira com ressalvas.

6. Sete em cada dez municípios do Paraná não tiveram homicídios

Classificação: VERDADEIRA COM RESSALVAS

No programa eleitoral de 9 de setembro, a campanha de Sandro afirmou que sete em cada dez municípios paranaenses não registraram homicídios. O número tem respaldo nos dados divulgados sobre segurança pública, mas falta uma informação importante na propaganda: o período analisado. No primeiro trimestre de 2026, 278 dos 399 municípios paranaenses não registraram homicídios. Isso representa aproximadamente 69,7%, praticamente sete em cada dez cidades. Outros 73 municípios tiveram somente uma ocorrência no período. 

A frase, porém, pode passar a impressão de que essas cidades permaneceram sem homicídios durante todo o ano, o que os dados citados não demonstram. Conclusão: o percentual está correto para o período utilizado no levantamento, mas a ausência da referência temporal exige ressalva. A declaração é verdadeira com ressalvas.

7. Paraná vive a “menor criminalidade dos últimos 20 anos”

Classificação: IMPRECISA

Outra frase repetida pela campanha de Sandro no horário eleitoral afirma que o Paraná está com a “menor criminalidade dos últimos 20 anos”. Há dados que sustentam uma forte queda em diversos crimes. O problema está na generalização. Dados da Secretaria de Segurança Pública apontaram, entre 2024 e 2025, queda de aproximadamente 24% nos homicídios e quase 20% nos roubos. O governo afirma que esses indicadores chegaram aos menores níveis de uma série de duas décadas.

Em 2026, os roubos também continuaram em queda. Nos primeiros cinco meses, passaram de 6.482 ocorrências em 2025 para 5.104, redução de aproximadamente 21%. Mas “criminalidade” não é um único indicador estatístico. O termo engloba homicídios, roubos, furtos, estelionatos, violência doméstica, crimes sexuais, crimes digitais e várias outras categorias que podem ter comportamentos diferentes. Assim, a redução de homicídios e roubos não permite, por si só, afirmar tecnicamente que toda a criminalidade chegou ao menor nível em 20 anos.

Conclusão: há forte sustentação para dizer que determinados indicadores importantes, especialmente homicídios e roubos, atingiram patamares historicamente baixos. A formulação abrangente sobre “a criminalidade”, porém, extrapola os dados apresentados e é imprecisa.

8. Requião Filho diz que vai “recuperar a Copel”

Classificação: VERDADEIRA COM RESSALVAS

No horário eleitoral de 14 de setembro, Requião Filho voltou a defender que pretende “recuperar a Copel” para o Estado. A frase é uma promessa e, por isso, não pode ser julgada pelo resultado futuro. Mas sua premissa — a de que o Paraná perdeu o controle da companhia — pode ser checada. E ela está correta. O processo de privatização da Copel foi concluído em agosto de 2023. Após a operação, o Estado deixou de ser acionista controlador e a companhia tornou-se uma corporação sem controlador definido.

Em decisão divulgada justamente em 10 de setembro de 2026, o Tribunal de Contas do Paraná reiterou que a Copel é atualmente uma empresa privada e que o Estado permanece apenas como acionista minoritário. Documentos do próprio TCE apontam que a participação estadual nas ações com direito a voto caiu de 69,66% para cerca de 32,32% na transformação realizada em 2023.

Conclusão: é correto afirmar que o Paraná perdeu o controle acionário da Copel em 2023. “Recuperá-lo” é uma promessa política cuja viabilidade econômica e jurídica precisaria ser analisada separadamente. A premissa utilizada por Requião é verdadeira.

Onde foi veiculada: programa eleitoral de Requião Filho em 14 de setembro. Veja a propaganda eleitoral de 14 de setembro e as declarações de Requião Filho

9. Requião Filho diz que vai “recuperar a Sanepar”

Classificação: FALSA

Na mesma propaganda, Requião Filho colocou lado a lado duas bandeiras: “Recuperar a Copel, recuperar a Sanepar.” É justamente essa equivalência que cria um problema factual. Diferentemente da Copel, a Sanepar continua controlada pelo Estado do Paraná. A composição acionária oficial da companhia, atualizada em 9 de setembro de 2026, mostra que o governo estadual possui 60,08% das ações com direito a voto. O Estado possui 20,03% do capital total, mas a maioria das ações ordinárias — aquelas que conferem poder de voto — assegura a condição de controlador.

O próprio Formulário de Referência da Sanepar de 2026 é explícito ao classificar o Estado do Paraná como “acionista controlador” e informa que ele tem a prerrogativa de eleger a maioria do Conselho de Administração. Portanto, Copel e Sanepar encontram-se em situações societárias diferentes.

É possível que Requião esteja defendendo ampliar a participação estatal, recomprar ações ou alterar a gestão da Sanepar. Mas dizer simplesmente que é necessário “recuperar” a companhia sugere perda do controle estadual que não ocorreu. Conclusão: o Estado do Paraná já controla a Sanepar. No sentido apresentado pela propaganda — paralelo à recuperação do controle da Copel — a afirmação é falsa.

O que ficou fora da classificação

A Gazeta do Paraná encontrou ainda uma série de promessas objetivas apresentadas nos últimos dias, mas que não podem ser classificadas agora como verdadeiras ou falsas, por dependerem de ações futuras. Sandro Alex, por exemplo, prometeu contratar mil policiais por ano, ampliar a rede para 500 colégios cívico-militares, criar sete novos gabinetes de inteligência integrada e expandir para todos os 399 municípios o sistema de monitoramento eletrônico simultâneo de agressores e vítimas de violência doméstica. Requião Filho voltou a defender redução de impostos, hospitais regionais e políticas de habitação; Moro, por sua vez, apresentou propostas envolvendo segurança máxima, tecnologia policial, infraestrutura e redução de impostos. 

Essas declarações podem ser submetidas a uma análise de viabilidade, custo e competência legal, mas não a uma checagem factual do tipo verdadeiro ou falso enquanto ainda forem apenas compromissos eleitorais. A análise mostra que boa parte das peças utiliza números reais acompanhados de simplificações ou omissões de contexto. Em outros casos, como a suposta aliança entre Moro e Ratinho Junior em 2018 e 2022 ou a necessidade de “recuperar” o controle da Sanepar, os registros públicos contradizem diretamente a mensagem apresentada ao eleitor. No caso do voto de Moro na indicação de Flávio Dino, ocorre uma situação diferente: não existe informação pública suficiente para confirmar nem desmentir o voto individual, porque a votação do Senado foi secreta. 

O levantamento considera os programas de horário eleitoral, peças de campanha e publicações em redes sociais localizados e publicamente documentados entre 9 e 15 de setembro de 2026. Foram priorizadas as afirmações objetivas de maior relevância pública e aquelas para as quais foi possível identificar a peça de origem e documentação independente para confrontação.

 

Créditos: Ana Zimermann Acesse nosso canal no WhatsApp