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Mês das Mulheres começa com alerta: violência dispara em Cascavel e Paraná é 5º em feminicídios

Às vésperas do 8 de março, cidade já soma dois feminicídios em 2026; Brasil registrou 1.470 mortes de mulheres no ano passado, média de quatro por dia.

Por Eliane Alexandrino

Mês das Mulheres começa com alerta: violência dispara em Cascavel e Paraná é 5º em feminicídios Créditos: Divulgação

Por Eliane Alexandrino

Março é o Mês das Mulheres. No próximo dia 8, o país marca o Dia Internacional da Mulher, data simbólica de luta por direitos, respeito e igualdade. No entanto, diante dos números recentes de violência doméstica e feminicídio, a pergunta que se impõe é direta: as mulheres têm o que comemorar hoje no Brasil?

Em Cascavel, apenas nos dois primeiros meses de 2026, dois feminicídios já foram registrados. Os crimes reforçam o alerta sobre o avanço da violência contra a mulher no município e expõem uma realidade que se agrava ano após ano. Dados da Guarda Municipal mostram um crescimento expressivo das ocorrências de violência doméstica. Em 2023, foram 337 casos registrados. Em 2024, o número saltou para 1.035 atendimentos. Em 2025, foram contabilizados 1.027 casos. Somente em janeiro deste ano, já foram 114 registros. Em fevereiro, o balanço ainda não foi fechado, mas apenas durante o feriado de Carnaval foram 37 ocorrências.

A inspetora da Guarda Municipal e integrante da Patrulha Maria da Penha, Josane Fátima da Silva Barbosa em entrevista ao Podcast da Gazeta do Paraná, no Programa Gazeta Entrevista, afirma que os números são preocupantes e revelam uma escalada contínua da violência. “Infelizmente, começamos o ano com o segundo feminicídio. Precisamos interromper esse ciclo. Muitas mulheres não conseguem sair sozinhas dessa situação. Elas acreditam que o agressor vai mudar, que tudo vai melhorar, mas, na maioria das vezes, isso não acontece”, destacou.

Entre os casos registrados neste ano está o de Mayara Araújo Krupiniski Rodrigues, de 31 anos, morta a facadas em fevereiro (19) no Bairro Riviera, crime ocorrido na frente do filho da vítima, de cinco anos, foi um dos crimes que mais chocou a população. No início de fevereiro, Ana Rosa Pereira da Silva, de 32 anos, também foi morta no Bairro Morumbi. Segundo a inspetora, nenhuma das duas possuía medida protetiva contra os autores dos crimes. “Esses dois casos não tinham medida protetiva contra os assassinos. Havia registros anteriores, mas não contra quem cometeu o feminicídio. Muitas vezes, a mulher só procura ajuda quando a violência já escalou demais”, explicou.

Mayara Araújo Krupiniski Rodrigues é a segunda vítima de feminicídio neste ano, em Cascavel

Brasil registra recorde

O cenário local acompanha uma realidade nacional alarmante. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025. Foram 1.470 mulheres assassinadas por serem mulheres, uma média de quatro mortes por dia. O Paraná ocupou a quinta colocação no ranking nacional, com 87 feminicídios registrados no ano passado.

Para a inspetora Josane, os números evidenciam um problema estrutural. “A violência não começa com o tapa. Raramente o agressor chega já batendo. Começa com xingamento, humilhação, desrespeito. Depois vem o empurrão, o puxão de cabelo, até chegar ao soco. Se a mulher não rompe esse ciclo, a tendência é que a agressão só aumente”, afirmou. Ela reforça que a violência pode ser física, psicológica, moral, sexual ou financeira, e que muitas vítimas demoram a reconhecer que estão inseridas nesse contexto.

Veja as imagens da discussão antes da Mayara ser morta

Segunda chance pode custar a vida

Outro fator de risco recorrente é o reatamento do relacionamento com o agressor. “Em muitos casos, a mulher dá uma segunda chance. E essa segunda chance pode custar a vida. A maioria dos agressores tem histórico. Eles já agrediram antes e tendem a repetir o comportamento”, alertou Josane. Em nove anos de atuação da Patrulha Maria da Penha da Guarda Municipal, mais de 30 mil mulheres passaram pelo acompanhamento da equipe. Nesse período, apenas um caso de feminicídio envolveu vítima que possuía medida protetiva e era acompanhada pela patrulha. “Foi uma situação em que a vítima retomou o relacionamento. Nós orientamos que não voltasse, mas dois dias depois ela foi morta dentro de casa. Isso mostra como o ciclo da violência é perigoso”, relatou.

Durante o último feriado de Carnaval, foram 37 ocorrências registradas em apenas quatro dias, sendo 15 somente na terça-feira. Segundo a inspetora, a maioria envolveu agressões físicas graves, com fraturas, hematomas e lesões faciais. “Feriados prolongados costumam aumentar os casos. O agressor permanece mais tempo dentro da residência, há consumo de álcool e, muitas vezes, uso de entorpecentes. Pequenas discussões acabam evoluindo para agressões graves”, explicou.

Regiões com maior incidência

Em Cascavel, a maior concentração de ocorrências está na região Norte, especialmente nos bairros Riviera, Floresta, Morumbi e Brasmadeira, seguida pela região Sul, com destaque para Cascavel Velho. A inspetora ressalta, no entanto, que a violência não está restrita a uma classe social. “Já atendemos casos em residências de alto padrão. A diferença é que, muitas vezes, a vítima não quer denunciar para não expor o nome do companheiro”, afirmou.

Suspeito de matar Mayara Krupiniski em Cascavel é preso no Bairro Cataratas

Denúncia pode salvar vidas

A Patrulha Maria da Penha reforça que a denúncia pode ser feita de forma anônima pelo telefone 153, da Guarda Municipal, pelo 190 da Polícia Militar ou pelo 180, da Central de Atendimento à Mulher. Também é possível procurar a Delegacia da Mulher, localizada na Rua da Bandeira, 301. “Mesmo que a mulher não consiga falar durante a ligação, o sistema identifica a origem da chamada e envia uma equipe ao local. Basta ligar. Muitas vidas são salvas porque alguém denunciou”, destacou.
Às vésperas do 8 de março, data que simboliza conquistas históricas das mulheres, os números revelam que a luta ainda é urgente. Em vez de comemoração plena, o cenário exige reflexão, denúncia e enfrentamento permanente para que a violência não continue transformando histórias em estatísticas.

Foto: Divulgação

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