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Maior devedor do Paraná vira alvo de pedido de falência após década de recuperação judicial

Refinaria acumula quase R$ 2 bilhões em débitos com o Estado e agora enfrenta ofensiva do Ministério Público que pode encerrar recuperação judicial iniciada há quase dez anos

Por Gazeta do Paraná

Maior devedor do Paraná vira alvo de pedido de falência após década de recuperação judicial Créditos: Reprodução

Enquanto o Governo do Paraná discute novos empréstimos bilionários, projeções de arrecadação e o equilíbrio das contas públicas, um dos maiores passivos tributários já registrados pelo Estado permanece concentrado em uma única empresa. A Refinaria de Petróleos de Manguinhos S/A, atualmente conhecida como Refit, aparece como a maior devedora inscrita na dívida ativa paranaense, acumulando aproximadamente R$ 1,95 bilhão em débitos de ICMS.

Agora, a companhia enfrenta um novo e decisivo capítulo de sua trajetória. O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro pediu à Justiça a conversão da recuperação judicial da empresa em falência, sustentando que a refinaria deixou de cumprir os objetivos previstos pela legislação e transformou o instituto da recuperação judicial em uma espécie de escudo permanente contra a cobrança de tributos.

O pedido coloca sob os holofotes uma empresa que há anos ocupa espaço nas listas de maiores devedores fiscais do país e que, segundo os dados da Secretaria da Fazenda do Paraná, também lidera o ranking estadual de dívida ativa.

 

Quase R$ 2 bilhões devidos ao Paraná

Dados disponíveis no Portal do Devedor da Secretaria da Fazenda do Paraná mostram que a Refinaria de Petróleos de Manguinhos possui 19 inscrições em dívida ativa relacionadas principalmente ao não recolhimento de ICMS.

Os registros remontam a autuações realizadas entre 2010 e 2016 e, atualizados em maio de 2026, totalizam R$ 1.959.391.308,35. O valor é suficiente para colocar a empresa na liderança entre os maiores devedores inscritos no Estado, superando centenas de grupos empresariais e representando sozinho um montante que ultrapassa o orçamento anual de diversos municípios paranaenses.

A dimensão da dívida ganha ainda mais relevância diante do atual debate sobre as finanças estaduais. Nos últimos meses, o governo Ratinho Junior encaminhou novos pedidos de empréstimos internacionais e enfrenta questionamentos sobre a real situação do caixa estadual. Nesse contexto, a recuperação de créditos tributários bilionários assume importância estratégica para as contas públicas.

 

MP diz que recuperação judicial fracassou

No pedido protocolado junto à Justiça do Rio de Janeiro, o Ministério Público sustenta que a recuperação judicial da refinaria perdeu completamente sua finalidade. Segundo os promotores, o passivo tributário da empresa teria saltado de aproximadamente R$ 5 bilhões para cerca de R$ 25,7 bilhões ao longo do período em que esteve protegida pelo processo de recuperação.

O documento aponta que a companhia continuou acumulando dívidas fiscais mesmo sob supervisão judicial e que a recuperação não produziu a reorganização financeira que justificou sua concessão. Para o MP, a situação evidencia um modelo de funcionamento baseado na inadimplência tributária sistemática.

Os promotores também mencionam supostos mecanismos de blindagem patrimonial, dificuldades para localização de ativos e a utilização prolongada da recuperação judicial sem que houvesse efetiva reversão do quadro econômico da empresa. Caso a Justiça acolha o pedido, a recuperação judicial poderá ser convertida em falência, abrindo caminho para liquidação patrimonial e eventual venda de ativos.

 

O homem por trás da Refit

A refinaria é controlada pelo empresário Ricardo Magro, nome que passou a ocupar o centro das atenções nacionais após recentes operações policiais e investigações relacionadas ao setor de combustíveis.

Magro é frequentemente citado em reportagens sobre os grandes devedores tributários do país e se tornou personagem de uma disputa que envolve órgãos de fiscalização, Ministério Público, Receita Federal, Agência Nacional do Petróleo e Polícia Federal.

Nos últimos meses, seu nome voltou ao noticiário após operações que investigam supostas irregularidades tributárias e movimentações financeiras ligadas ao setor de combustíveis. O empresário nega irregularidades e sustenta que as acusações decorrem de disputas regulatórias e tributárias envolvendo o mercado de combustíveis.

 

Histórico de controvérsias

A trajetória recente da refinaria é marcada por sucessivos episódios de conflito com órgãos reguladores. Em anos anteriores, a Agência Nacional do Petróleo chegou a suspender operações da unidade após identificar indícios de irregularidades relacionadas à comercialização de combustíveis. A refinaria também esteve no centro de disputas envolvendo tributação de derivados, regimes especiais de recolhimento de impostos e autuações bilionárias.

O histórico transformou a empresa em um dos casos mais emblemáticos do debate nacional sobre devedores contumazes, expressão utilizada para definir empresas que estruturariam seus modelos de negócio a partir da inadimplência tributária permanente.

 

Uma refinaria estratégica

Apesar dos problemas financeiros e jurídicos, a Refit continua ocupando posição estratégica no setor energético brasileiro. Instalada em uma área valorizada da cidade do Rio de Janeiro, próxima à Baía de Guanabara, a refinaria possui localização considerada privilegiada para operações logísticas e de distribuição de combustíveis.

O valor estratégico do ativo é tamanho que discussões recentes passaram a envolver desde hipóteses de desapropriação até especulações sobre eventual interesse da Petrobras em reassumir a estrutura. Especialistas do setor avaliam que a localização da refinaria pode valer tanto quanto sua própria capacidade operacional.

 

O que acontece com a dívida do Paraná

A eventual decretação de falência não significa recuperação automática dos quase R$ 2 bilhões devidos ao Paraná. Na prática, a abertura do processo falimentar inaugura uma disputa entre diferentes credores, incluindo instituições financeiras, trabalhadores, fornecedores e entes públicos. O Estado passa a disputar espaço na ordem de pagamento definida pela legislação falimentar e a efetiva recuperação dos valores dependerá da existência de patrimônio suficiente para satisfazer os credores.

É justamente esse cenário que preocupa procuradorias e secretarias da Fazenda em todo o país. Quanto mais tempo uma dívida permanece sem recuperação e quanto mais deteriorada se torna a situação patrimonial do devedor, menores tendem a ser as chances de ressarcimento integral dos cofres públicos.

No caso da Refit, a discussão ultrapassa os limites do Rio de Janeiro. A empresa que hoje enfrenta a possibilidade de falência é também a maior devedora do Paraná. E os quase R$ 2 bilhões inscritos na dívida ativa estadual transformam o desfecho do processo em um tema de interesse direto para os contribuintes paranaenses.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp