A extensa lista de mandados de prisão ainda não cumpridos no Brasil revela uma faceta inusitada — e ao mesmo tempo preocupante — do sistema judicial. Entre quase 300 mil ordens de prisão e internação em aberto registradas no país, aparecem nomes que remetem a figuras históricas, personagens de ficção e ídolos da cultura popular, como Jesus Cristo, Elvis Presley, Michael Corleone e até Hitler. Apesar da curiosidade provocada pelos nomes, os registros dizem respeito a pessoas reais, envolvidas em processos criminais que seguem sem desfecho.
Dados do Banco Nacional de Mandados de Prisão, mantido pelo Conselho Nacional de Justiça, mostram que o problema do descumprimento de ordens judiciais é estrutural e antigo. Há mandados expedidos há mais de duas décadas, alguns remontando aos anos 1990, o que evidencia falhas persistentes na localização e captura de réus e condenados.
Entre os casos mais chamativos está o de Hitler da Silva Ângelo, que teve mandado de prisão preventiva expedido pela Justiça do Rio de Janeiro no fim de 2024, em um processo que envolve investigação por homicídio. No mesmo estado, outro homem com nome semelhante, Hitler Silva, é procurado desde 2023 por suspeita de integrar uma organização criminosa. Os nomes, embora causem estranhamento, não são raros em registros civis brasileiros e não têm qualquer relação com as figuras históricas às quais remetem.
Também constam no sistema diversos mandados contra pessoas chamadas Elvis Presley. Segundo levantamento, ao menos dez indivíduos com esse nome são procurados pela Justiça, respondendo por crimes como roubo, homicídio e porte ilegal de arma. Parte desses mandados foi expedida recentemente, o que indica que o fenômeno não se limita a processos antigos.
Outro caso que chama atenção é o de um homem registrado como Jesus Cristo, alvo de mandado de internação definitiva expedido pela Justiça do Ceará. No processo, ele foi absolvido de forma imprópria em um caso de homicídio e submetido a medida de segurança, com determinação de tratamento ambulatorial. Como não foi localizado para cumprimento da decisão, a Justiça expediu ordem de internação.
Há ainda o registro de um Michael Corleone procurado em Manaus por roubo, em um processo aberto em 2023. O nome remete ao personagem central do filme “O Poderoso Chefão”, mas, mais uma vez, trata-se apenas de coincidência nominal. Situação semelhante ocorre com pessoas chamadas Ayrton Sena — grafia distinta do piloto Ayrton Senna — procuradas por crimes como tráfico de drogas e estelionato.
Embora os nomes despertem curiosidade, especialistas alertam que eles acabam desviando a atenção do problema central: a dificuldade do Estado em fazer cumprir decisões judiciais. Falhas na atualização de endereços, ausência de integração eficiente entre sistemas policiais e judiciais, além de limitações operacionais das forças de segurança, contribuem para o acúmulo de mandados não executados.
A reportagem publicada pela Veja destaca que, por trás dos nomes curiosos, há um retrato mais amplo da ineficiência na execução penal no Brasil. Enquanto o banco de dados segue crescendo, milhares de ordens judiciais permanecem no papel, reforçando a percepção de que, no país, a distância entre a sentença e seu cumprimento ainda é grande — independentemente do nome que conste no mandado.

Créditos: Imagem ilustrativa gerada por IA