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Investigações sobre Banco Master atingem financiamento de filme de Bolsonaro

Segundo a publicação, Vorcaro teria prometido US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para financiar o longa de Bolsonaro

Investigações sobre Banco Master atingem financiamento de filme de Bolsonaro Créditos: Divulgação

A Polícia Federal apontou que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, mantinha no Rio de Janeiro uma estrutura formada por operadores do jogo do bicho, milicianos e policiais para intimidar desafetos e proteger interesses do grupo investigado na Operação Compliance Zero. As informações constam na decisão do ministro do STF André Mendonça que autorizou a sexta fase da operação, deflagrada nesta quinta-feira.

Segundo a PF, o grupo fazia parte de uma estrutura chamada “A Turma”, suspeita de realizar ameaças, constrangimentos, monitoramento de adversários e obtenção de informações sigilosas de processos judiciais. O braço carioca da organização seria comandado por Manoel Mendes Rodrigues, descrito pelos investigadores como “empresário do jogo” e alvo de prisão preventiva na nova fase da operação.

Na decisão, Mendonça afirma que os elementos reunidos pela investigação indicam que o núcleo do Rio era composto por operadores do jogo do bicho, milicianos e policiais, atuando diretamente sob ordens do núcleo central ligado a Vorcaro.

“Essas circunstâncias conferem especial gravidade ao papel desempenhado por Manoel, na medida em que ele surge como elo entre o comando central da organização e a força local empregada para intimidação física e constrangimento direto de alvos”, escreveu o ministro.

Ameaças em Angra dos Reis

A PF relata episódios ocorridos em junho de 2024, em Angra dos Reis, que demonstrariam a atuação do grupo. Segundo os investigadores, integrantes da organização foram acionados por Vorcaro para ameaçar o comandante de uma embarcação ligada ao banqueiro.

Depois disso, o mesmo grupo teria ido até um hotel da cidade para intimidar um ex-chefe de cozinha descrito como desafeto de Vorcaro. A PF afirma ter encontrado mensagens atribuídas ao banqueiro orientando “levantamento de tudo” sobre o funcionário e determinando que fossem “pra cima” dele. Em resposta, um interlocutor afirmou que as ações “já estavam em curso”.

Outra testemunha ouvida pela PF relatou ter sido ameaçada de morte por sete homens, entre eles Manoel Mendes Rodrigues, apontado como amigo de Vorcaro e ligado ao jogo do bicho.

Nova fase da Compliance Zero

A sexta fase da Operação Compliance Zero cumpriu sete mandados de prisão preventiva e 17 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Entre os alvos estão Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, policiais federais da ativa e aposentados, hackers e empresários suspeitos de integrar a organização.

Em nota, a PF informou que investiga crimes como ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro, violação de sigilo funcional, invasão de dispositivos eletrônicos e organização criminosa.

As provas da atuação do grupo “A Turma” foram obtidas a partir de materiais apreendidos com o empresário Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, apontado como responsável por operacionalizar ações da organização. Mourão morreu após tentar suicídio na prisão, depois de ser detido em uma fase anterior da operação.

Filme sobre Bolsonaro entra na investigação

As investigações também passaram a atingir o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Reportagem do Intercept Brasil revelou trocas de mensagens entre o senador Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre repasses milionários para a produção.

Segundo a publicação, Vorcaro teria prometido US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para financiar o longa. O banqueiro teria repassado aproximadamente R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025, antes de interromper os pagamentos em meio à crise envolvendo o Banco Master.

O valor previsto para o filme supera o orçamento de diversos vencedores recentes do Oscar, como Parasita, Moonlight e Nomadland.

Flávio Bolsonaro confirmou ter buscado investidores para o filme e reconheceu a existência de contrato com Vorcaro. Segundo ele, o banqueiro deixou de cumprir parcelas previstas, colocando em risco a conclusão da produção.

PF apura destino do dinheiro

Uma das linhas de investigação tenta esclarecer se os recursos negociados para o filme tiveram outra destinação. A PF apura se parte do dinheiro pode ter sido usada para custear despesas do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Dados do Coaf indicam que a empresa Entre Investimentos recebeu R$ 159 milhões de fundos investigados e ligados a Vorcaro. A empresa é apontada como intermediária dos repasses relacionados ao filme.

Ainda não há confirmação sobre quanto desse valor foi efetivamente destinado à produção cinematográfica.

Mário Frias nega dinheiro de Vorcaro

O deputado federal Mário Frias, produtor executivo do filme, e a produtora GOUP Entertainment divulgaram notas afirmando que “não há um único centavo” de Daniel Vorcaro no projeto.

As declarações contradizem a versão apresentada por Flávio Bolsonaro, que confirmou as negociações financeiras com o banqueiro.

Além da polêmica sobre o financiamento privado, o STF tenta intimar Mário Frias há mais de um mês para prestar esclarecimentos sobre emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, ONG ligada à produtora do filme.

A ação foi apresentada pela deputada Tabata Amaral. O ministro Flávio Dino determinou que Frias se manifestasse sobre possíveis irregularidades envolvendo os recursos. Até o momento, oficiais de Justiça não conseguiram localizar o parlamentar.

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