Flávio Bolsonaro usa alta dos alimentos e endividamento para atacar governo Lula; veja o que os dados mostram
Propaganda eleitoral exibida nesta terça-feira (8) cita aumento da dívida pública, perda do poder de compra, fechamento de comércios e recorde de famílias endividadas; números oficiais confirmam parte das afirmações, mas algumas precisam de contexto
Por Ana Zimermann
Créditos: site Senado Federal
A propaganda eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) exibida nesta terça-feira (8) levou para o horário eleitoral temas que atingem diretamente o bolso dos brasileiros: preço dos alimentos, poder de compra, situação do comércio e endividamento.
Em um dos trechos, o candidato afirma que “hoje, o governo brasileiro deve 82% do seu PIB” e que, durante o governo de Jair Bolsonaro, esse percentual era de 71%. Na sequência, afirma que “mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas”.
A Gazeta do Paraná confrontou as principais afirmações com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Banco Central e da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Os números mostram que parte importante do discurso tem base estatística. Porém, algumas afirmações são apresentadas de maneira mais abrangente do que permitem concluir os dados oficiais.
O que é verdade?
Alimentos ficaram mais caros em determinados períodos de 2026; dívida pública está na casa dos 82% do PIB; a DBGG (Dívida Bruta do Governo Geral) estava próxima de 72% do PIB no fim de 2022; mais de 80% das famílias estão endividadas.
O que precisa de contexto?
A “baixa do poder de compra”; a comparação da dívida atual com a do governo Bolsonaro; dificuldades enfrentadas pelo comércio.
O que não foi comprovado?
Que os comércios estejam fechando em razão da situação econômica descrita na propaganda; que o aumento da dívida pública seja responsável pelo endividamento das famílias; a relação sugerida pela expressão “não coincidentemente”.
Alimentos: preço subiu
A afirmação de que os alimentos ficaram mais caros encontra respaldo nos números do IBGE. Em maio de 2026, o grupo Alimentação e bebidas registrou alta de 1,33%, enquanto o IPCA, índice oficial de inflação do país, avançou 0,58%. Ou seja, naquele mês, os alimentos tiveram uma alta superior à inflação média medida para o conjunto dos produtos e serviços consumidos pelas famílias. A trajetória, porém, não foi de alta contínua. Em junho, o grupo Alimentação e bebidas registrou queda de 0,24%, enquanto o IPCA geral subiu 0,16%. Isso significa que a afirmação de que houve aumento dos preços dos alimentos é verdadeira, mas a realidade é mais complexa do que a ideia de uma alta permanente.
Poder de compra: cenário não é tão simples
A propaganda também fala em “baixa do poder de compra”. Para avaliar essa afirmação, um dos principais indicadores é o rendimento real dos trabalhadores, calculado pelo IBGE já descontando o efeito da inflação. O cenário mostrado pelos dados oficiais não aponta para uma queda generalizada da renda real. No trimestre encerrado em maio de 2026, o rendimento real habitual foi de aproximadamente R$ 3.726, acima dos cerca de R$ 3.583 registrados um ano antes. Na comparação anual, portanto, houve crescimento real da renda. Ao mesmo tempo, o rendimento ficou praticamente estável na comparação com o trimestre anterior, quando estava em aproximadamente R$ 3.756. O resultado mostra que não é correto afirmar, de maneira geral, que todos os brasileiros perderam poder de compra. Existe, entretanto, uma pressão importante sobre o orçamento das famílias, principalmente porque produtos essenciais, como alimentos, podem ter peso elevado nas despesas domésticas.
Comércio: queda nas vendas não significa lojas fechando
Outro ponto explorado pela propaganda é a situação do comércio. Os dados do IBGE mostram que o varejo passou por oscilações em 2026. Em abril, por exemplo, o volume de vendas do comércio varejista caiu 1,5% na comparação com março. Em maio, houve uma pequena alta de 0,1%. Nos meses anteriores, janeiro, fevereiro e março haviam registrado resultados positivos. O problema está na interpretação da expressão “comércios fechando”. A Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE mede principalmente o comportamento das vendas e da receita do setor. Ela não é uma contagem de quantas lojas fecharam no país. Uma redução nas vendas não significa automaticamente fechamento de estabelecimentos. Além disso, o comércio varejista brasileiro encerrou 2025 com crescimento de 1,6%, segundo o IBGE. Portanto, os números comprovam que o setor passou por períodos de retração, mas não permitem afirmar, a partir da Pesquisa Mensal de Comércio, que exista um movimento generalizado de fechamento de comércios.
Dívida pública: 82% do PIB
Uma das frases mais objetivas da propaganda é: “Hoje, o governo brasileiro deve 82% do seu PIB.” O número está próximo do registrado pelo Banco Central. A referência é a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), indicador que reúne as dívidas do governo federal, dos estados e dos municípios, além do INSS. Em 2026, a dívida chegou à casa dos 82% do PIB. O dado mais recente utilizado na checagem aponta aproximadamente 82,5% do PIB em julho. A expressão utilizada pelo candidato, porém, é uma simplificação. Tecnicamente, não significa que o governo “deva 82% de tudo o que o Brasil produz”. Significa que o estoque da dívida bruta equivale a aproximadamente 82% do Produto Interno Bruto (PIB). São conceitos diferentes: o PIB é um fluxo anual de produção e renda, enquanto a dívida é um estoque acumulado.
“Com Bolsonaro era 71%”
Na sequência, Flávio Bolsonaro afirma que, durante o governo de Jair Bolsonaro, a dívida era de aproximadamente 71% do PIB. A comparação encontra respaldo na série histórica da dívida bruta. No final de 2022, a DBGG estava próxima de 72% do PIB, cerca de 71,7% de acordo com a série considerada. Assim, é possível comparar:
Fim de 2022: aproximadamente 71,7% do PIB; Julho de 2026: aproximadamente 82,5% do PIB. A diferença é de cerca de 10,8 pontos percentuais do PIB. Mas há uma ressalva importante. Dizer apenas que “com Bolsonaro era 71%” esconde a data de referência. A dívida não ficou em 71% durante todo o governo. O índice mais alto, registrado em dezembro de 2020, chegou a 87,6%. O indicador oscilou ao longo dos quatro anos. Além disso, a variação da dívida pública não depende exclusivamente do presidente de plantão. Juros, resultado fiscal, emissão de títulos e crescimento do PIB, entre outros fatores, interferem no resultado.
Aumento e criação de impostos pelo atual governo
Flávio Bolsonaro afirmou que o atual governo federal promoveu “mais de 30 impostos criados ou aumentados” com o objetivo de elevar a arrecadação. A declaração tem base em um conjunto amplo de medidas tributárias adotadas desde 2023, mas a forma como foi apresentada é imprecisa. Levantamento da Consultoria Legislativa do Senado Federal identificou diversos atos normativos que resultaram em aumento da arrecadação federal no período, mas o estudo não classifica essas medidas simplesmente como “mais de 30 impostos criados ou aumentados”.
O que dizem os dados oficiais
O estudo “Tributação em Expansão: as medidas de elevação da arrecadação Federal entre 2023 e 2025”, elaborado pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria Legislativa do Senado, teve justamente o objetivo de identificar e sistematizar atos normativos federais que provocaram aumento da arrecadação tributária entre janeiro de 2023 e junho de 2025. O levantamento inclui medidas provisórias, decretos e leis que alteraram a tributação. Entre os exemplos estão mudanças no PIS/Cofins, tributação de fundos exclusivos e investimentos no exterior, alterações nas regras de subvenções para investimento, tributação das apostas, mudanças no Imposto de Importação e alterações envolvendo o IOF.
Segundo o estudo, consideradas de forma cumulativa, as medidas identificadas representavam impacto estimado de aproximadamente R$ 428,9 bilhões entre 2023 e 2027, em valores projetados. O cálculo inclui medidas como a restrição de benefícios fiscais, ampliação de bases de incidência e aumento de alíquotas. Mas isso significa que foram criados mais de 30 impostos? Não. Essa é a principal ressalva da declaração.
O levantamento do Senado contabiliza medidas normativas com impacto sobre a arrecadação, e não uma lista de mais de 30 impostos novos. Uma única medida pode alterar a cobrança de mais de um tributo ou modificar a forma de cálculo de determinado imposto ou contribuição.
Mais de 80% das famílias estão endividadas
Outro número utilizado na propaganda está relacionado às famílias. Flávio afirma:
“Hoje, não coincidentemente, mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas.” O primeiro ponto da frase é confirmado pela Peic, da CNC. Em julho de 2026, aproximadamente 82% das famílias brasileiras estavam endividadas, segundo a pesquisa. O indicador chegou a um novo recorde da série histórica. Mas existe uma diferença fundamental entre endividamento e inadimplência. Estar endividado significa possuir algum compromisso financeiro a vencer, como: cartão de crédito, financiamento, crédito pessoal, carnês, cheque especial e crédito consignado. Isso não significa necessariamente que a pessoa deixou de pagar.
Em julho, aproximadamente 29,8% das famílias estavam com contas em atraso.
Portanto: 82% de famílias endividadas não significa 82% de famílias inadimplentes. A diferença é relevante para interpretar corretamente o discurso eleitoral. Outro indicador da Peic mostra que 19% das famílias tinham mais da metade da renda comprometida com o pagamento de dívidas em julho. Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, o percentual de endividadas chegou a 84,9%.
O ponto mais controverso: “não coincidentemente”
É justamente na ligação entre os dois indicadores que aparece o principal problema de interpretação. Flávio Bolsonaro coloca lado a lado: 82% do PIB em dívida pública, 82% das famílias endividadas e acrescenta: “não coincidentemente”. Os dois números são reais, mas não há, nesses dados, uma demonstração de que um fenômeno tenha causado o outro. A dívida pública e o endividamento das famílias são indicadores diferentes. A DBGG mede a relação entre a dívida do governo e o PIB. A Peic mede a proporção de famílias que possuem dívidas. Os fatores que explicam cada fenômeno também são diferentes.
Na dívida pública entram, entre outros elementos: juros, resultado fiscal, emissões líquidas e crescimento nominal do PIB. No endividamento das famílias pesam fatores como: oferta de crédito, juros cobrados pelos bancos, renda, consumo, inflação e comprometimento da renda. Portanto, a coincidência dos percentuais não é suficiente para estabelecer uma relação de causa e efeito. A afirmação poderia ser apresentada como uma interpretação política, mas não como uma conclusão demonstrada pelas estatísticas utilizadas na propaganda.
O que os números realmente dizem
A checagem das principais afirmações da propaganda mostra um quadro menos simples do que o apresentado no horário eleitoral. Os alimentos tiveram altas importantes em 2026, e o endividamento das famílias atingiu níveis recordes. A dívida bruta do governo também aumentou em relação ao fim de 2022, passando de cerca de 72% para mais de 82% do PIB. Por outro lado, a renda real dos trabalhadores não apresenta queda generalizada: na comparação com um ano antes, ela estava maior. No comércio, houve meses de queda nas vendas, mas a estatística utilizada pelo IBGE não permite concluir, sozinha, que os estabelecimentos estejam fechando. E, embora os indicadores de dívida pública e endividamento das famílias estejam próximos de 82%, não há evidência estatística suficiente para afirmar que a dívida pública seja a causa do endividamento dos brasileiros.
Em resumo, a propaganda de Flávio Bolsonaro utiliza números que, em sua maioria, têm respaldo nas estatísticas disponíveis, mas combina esses dados com interpretações políticas que vão além do que os indicadores conseguem provar.
Para o eleitor, a diferença é importante: um número pode estar correto e, ainda assim, a conclusão apresentada a partir dele ser exagerada ou não comprovada.
Fontes: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Banco Central do Brasil e Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC/Peic).
Créditos: Ana Zimermann
