Créditos: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Exame de sangue para Alzheimer já está disponível no Brasil; veja preço
Testes que identificam biomarcadores associados à doença custam de R$ 1.800 a R$ 5.000 na rede particular e são indicados como complemento à avaliação médica de pacientes com sintomas
Exames de sangue capazes de identificar alterações biológicas associadas à doença de Alzheimer já estão disponíveis no Brasil. O acesso, porém, ainda está restrito à rede particular. Segundo valores consultados pela reportagem, os testes custam entre R$ 1.800 e R$ 5.000, dependendo da metodologia e do laboratório.
Os exames não são oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e também não têm cobertura dos planos de saúde. A indicação é para pessoas que já passaram por avaliação médica e apresentam sinais de comprometimento cognitivo ou suspeita de Alzheimer.
O teste não é recomendado atualmente como exame de rastreamento para pessoas que não apresentam sintomas.
O resultado pode ajudar o médico a avaliar se as alterações cognitivas apresentadas pelo paciente estão relacionadas ao Alzheimer. O exame, portanto, funciona como uma ferramenta complementar à avaliação clínica.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que existem produtos regularizados no país para identificar diferentes biomarcadores associados à doença. A lista fornecida pela agência reúne 30 testes, incluindo exames que utilizam amostras de sangue ou plasma e produtos destinados à análise do líquor, líquido que envolve o cérebro.
Quanto custa o exame de sangue para Alzheimer?
O neurologista Fábio Henrique Porto, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) em São Paulo, estima que os exames de sangue custem, em geral, entre R$ 2.000 e R$ 5.000. O preço varia de acordo com a metodologia utilizada e o laboratório responsável pela análise.
Antes da chegada dos testes sanguíneos, a investigação dos biomarcadores dependia principalmente da coleta de líquor ou de exames de imagem, como o PET amiloide.
O PET amiloide é um exame de imagem capaz de identificar o acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro, um dos principais marcadores biológicos associados ao Alzheimer.
Nenhum dos dois exames está disponível pelo SUS ou tem cobertura dos planos de saúde.
Segundo Porto, o exame de líquor custa entre R$ 2.000 e R$ 3.000. Já o PET amiloide pode chegar a R$ 10 mil ou R$ 12 mil.
A coleta do líquor tem custo menor, mas exige uma punção lombar, procedimento invasivo. O PET amiloide, por outro lado, tem preço mais elevado e depende de estrutura especializada.
Quais proteínas o exame identifica?
O geriatra Leonardo Oliva, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), explica que os principais biomarcadores associados ao Alzheimer são a beta-amiloide e formas da proteína tau, como a p-tau217.
Essas alterações estão relacionadas ao acúmulo de placas de beta-amiloide e de proteínas tau anormais no cérebro, processos associados à doença.
Os exames são realizados com kits de alto custo e, em alguns casos, a análise da amostra precisa ser feita fora do Brasil.
Um dos testes disponíveis é o Precivity AD2, oferecido pelo laboratório Fleury. O exame combina marcadores de beta-amiloide e proteína tau.
Segundo o laboratório, a coleta do sangue é feita no Brasil e a análise ocorre nos Estados Unidos. O exame custa aproximadamente R$ 4.400.
Também existem testes que analisam apenas a p-tau217. No laboratório Richet, da Rede D'Or, o exame custa R$ 1.800. Na rede Dasa, há diferentes tipos de testes, com preços que variam de R$ 841 a R$ 4.500.
Para Oliva, a p-tau217 é atualmente o marcador sanguíneo mais preciso para confirmar o Alzheimer em pacientes que apresentam sintomas compatíveis com a doença.
Porto também aponta uma vantagem dos exames de sangue na investigação de casos iniciais. Segundo ele, uma identificação mais precoce pode permitir o início antecipado do tratamento e de mudanças no estilo de vida, medidas que podem ajudar a preservar a autonomia do paciente por mais tempo.
Exame pode indicar risco antes dos sintomas?
Um estudo publicado em julho na revista médica Jama (Journal of the American Medical Association) avaliou o potencial do exame de sangue que mede a proteína p-tau217 para estimar, com anos de antecedência, o risco de uma pessoa desenvolver comprometimento cognitivo, estágio que costuma anteceder a doença de Alzheimer.
A pesquisa reuniu dados de 2.684 idosos que não apresentavam sinais de perda de memória no início do acompanhamento.
Durante um período mediano de 5,4 anos, 478 participantes desenvolveram algum grau de comprometimento cognitivo. O estudo identificou uma relação entre níveis mais elevados da proteína no sangue e maior risco de evolução para o quadro.
Entre os participantes com níveis altos de p-tau217, o risco em cinco anos foi de 24%. Entre aqueles com níveis muito altos, chegou a 38%.
Os próprios pesquisadores, porém, ressaltaram que os dados foram obtidos a partir de grupos selecionados para pesquisas e não representam necessariamente a população em geral.
Antes de o exame ser utilizado para orientar decisões clínicas individuais em pessoas sem sintomas, ainda seria necessário validar os resultados em grupos mais representativos.
Porto reforça que, atualmente, o exame de sangue é destinado a pessoas com mais de 55 anos que já apresentam declínio cognitivo perceptível. A indicação não é para rastrear Alzheimer em pessoas sem sintomas.
Como é feito o diagnóstico de Alzheimer?
Apesar do avanço dos exames de sangue, o diagnóstico do Alzheimer continua sendo clínico.
Segundo Oliva, o médico considera a consulta, o histórico do paciente e os resultados de testes cognitivos. Depois dessa avaliação, os biomarcadores podem ajudar a confirmar se as alterações encontradas estão relacionadas à doença.
“Pacientes assintomáticos não devem fazer esse exame”, afirma Oliva.
O geriatra diz que pessoas com histórico familiar de Alzheimer, mas sem sintomas, às vezes procuram os testes por conta própria. Segundo ele, essa não é a indicação atual.
“A gente não deve fazer exame antes da consulta. O primeiro diagnóstico vem na consulta”, afirma.
O neurocientista Eduardo Zimmer, professor adjunto do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), estima que a avaliação clínica isolada identifique corretamente a doença em cerca de 70% a 75% dos casos.
Com a combinação de biomarcadores, esse índice pode chegar a 91%, segundo o pesquisador.
“O exame de sangue vai democratizar o acesso a um biomarcador que tem uma acurácia muito grande e vai fazer com que os médicos fiquem muito mais confiantes na hora de fechar o diagnóstico de doença de Alzheimer”, afirma Zimmer.
Porto também destaca o potencial dos exames para ampliar o acesso ao diagnóstico fora dos grandes centros urbanos. Ele atua em São Paulo e em Londrina e afirma que a diferença de infraestrutura entre as cidades mostra uma das vantagens do exame de sangue em relação aos exames de imagem e à coleta de líquor.
“Para uma cidade do interior é muito mais fácil eu fazer o exame de sangue. É mais barato, é menos invasivo e precisa de menos estrutura”, diz.
Novos tratamentos para Alzheimer
Para Oliva, os testes também podem contribuir para ampliar o acesso aos tratamentos mais recentes contra o Alzheimer.
Esses medicamentos são indicados para fases iniciais da doença e têm como objetivo remover placas de beta-amiloide do cérebro.
A Anvisa aprovou dois medicamentos dessa classe para o tratamento do Alzheimer: lecanemabe (Leqembi) e donanemabe (Kisunla).
Os dois são indicados para pessoas com comprometimento cognitivo leve ou demência leve. Atualmente, eles não estão disponíveis no SUS e também não são cobertos pelos planos de saúde.
