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Tocantins: Empresa fantasma de esposa que movimentou R$170 milhões assomba campanha de Vicentinho Júnior

Vicentinho é um dos principais investigados. Caso seja condenado, pode pegar até dez anos de cadeia

Por Oswaldo Eustáquio

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Tocantins: Empresa fantasma de esposa que movimentou R$170 milhões assomba campanha de Vicentinho Júnior Créditos: Reprodução —

O Núcleo de Jornalismo Investigativo da Gazeta do Paraná teve acesso, com exclusividade, ao documento que prova que a esposa de Vicente Alves de Oliveira Junior, o Vicentinho Junior, movimentou cerca de R$ 170 milhões em uma empresa fantasma.

Vicentinho é um dos principais investigados neste caso. Ele é candidato ao governo de Tocantins e tentou censurar a imprensa local sobre este tema, mas o Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Tocantins já pacificou, em decisão colegiada, que noticiar que ele é investigado não é desinformação.

Uma loja fechada. Um endereço vazio. E R$ 170.986.734,33 passando por dentro dela.

É isso que o relatório da Polícia Federal, obtido pelo nosso núcleo investigativo, revela sobre a rede financeira ligada ao deputado federal Vicente Alves de Oliveira Junior, o "Vicentinho Junior", hoje pré-candidato ao governo do Tocantins.

A Superintendência Regional da PF na Bahia, através do Setor de Inteligência Policial, apurou que a empresa GMD Borba Distribuidora Eireli, registrada em nome da esposa do parlamentar, Gillaynny Marjorie Duarte Borba de Oliveira, movimentou mais de R$ 170 milhões entre 2019 e 2025.

O problema: a empresa não existe.

A loja que não está lá

Documentos anexados ao relatório mostram que a PF foi ao endereço cadastral da GMD Borba — Avenida Tocantins, nº 1271, Centro, Sítio Novo do Tocantins/TO — não uma, mas duas vezes.

Moradores locais foram ouvidos. Um disse não ter conhecimento de que ali jamais funcionou uma distribuidora de bebidas. Outro lembrou vagamente de um depósito no local, mas garantiu que está inativo há pelo menos dois ou três anos.

O responsável por uma oficina mecânica vizinha confirmou: o depósito de bebidas que ali funcionou está parado. E ninguém sabe para onde foi.

Imagens de satélite e do Google Street View, capturadas em fevereiro de 2025, não mostram qualquer fachada da GMD Borba. No lugar, aparecem duas outras empresas cadastradas no mesmo endereço.

Uma distribuidora fantasma. Com faturamento de multinacional.

R$ 170 milhões, uma "conta de passagem"

Segundo a Informação de Polícia Judiciária nº 3502082/2025, elaborada a partir de dados bancários obtidos por decisão do STF na PET 13.720, a GMD Borba movimentou:

  • R$ 85.493.240,96 em créditos
  • R$ 85.493.493,37 em débitos
  • Em 11.793 transações, entre janeiro de 2019 e abril de 2025

A quase perfeita coincidência entre o que entra e o que sai é, segundo a própria PF, a assinatura clássica de uma "conta de passagem" — usada para lavar dinheiro, não para vender bebidas.

Dentro desse volume, a polícia identificou ao menos R$ 8,9 milhões em créditos de origem não identificada, R$ 5,1 milhões em depósitos fracionados — típicos de quem tenta escapar da obrigação de identificação bancária — e mais de R$ 39,8 milhões debitados por pagamento de títulos e saques, boa parte também sem rastreabilidade clara.

A propina de R$ 20 mil por mês

Mas dentro desse oceano de R$ 170 milhões, a PF conseguiu isolar um fluxo específico e recorrente: R$ 20.000,00 por mês, saindo direto da conta da BRA Teles Ltda — empresa de fachada operada pelos irmãos Alex e Fábio Rezende Parente, apontados pela PF como núcleo central de uma organização criminosa que fraudava licitações da Secretaria de Educação do Tocantins (SEDUC/TO) — e entrando na conta da GMD Borba.

De março de 2023 a novembro de 2024, ininterruptamente. Total: R$ 420.000,00.

Nas planilhas de controle de propina apreendidas pela PF em ação controlada, em 3 de dezembro de 2024, esse valor aparece sob um codinome: "VIC".

A Polícia Federal cruzou datas, valores e centavos entre a planilha manuscrita e o extrato bancário oficial. A conclusão, nas palavras do próprio relatório, é obtida "com elevado grau de certeza": "VIC" é Vicente Alves de Oliveira Junior.

Do bolso do esquema para o WhatsApp de Natal

Não é só dinheiro. É proximidade.

Segundo metadados forenses extraídos de aparelho apreendido, o contato do deputado está salvo no celular de Alex Rezende Parente, apontado pela PF como operador da organização criminosa, desde 16 de maio de 2023, sob o nome "Vicentinho Tocantins".

E, em 24 de dezembro de 2023, enquanto a propina de R$ 20 mil mensais já corria havia nove meses, Alex e "Vicentinho" trocaram mensagens de feliz Natal pelo WhatsApp. Cartão personalizado, foto de família, assinatura "Vicentinho Junior".

Reciprocidade, chama a PF. Cumplicidade, dirá o leitor.

O que a Polícia Federal pediu — e o que o STF negou

Com base nesse conjunto de provas, a Polícia Federal formalizou pedido de busca e apreensão e bloqueio judicial de R$ 420 mil dos bens de Vicente Alves de Oliveira Junior e de Gillaynny Marjorie Duarte Borba de Oliveira, além de apontar indícios da prática de corrupção passiva (art. 317 do Código Penal), lavagem de capitais (Lei nº 9.613/98) e organização criminosa (Lei nº 12.850/13).

O ministro Nunes Marques, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, negou os pedidos de busca e apreensão e de bloqueio de bens contra o parlamentar, afirmando que os elementos reunidos até então "não apontam conexão" direta entre Vicentinho e a Overclean.

Na fase de indiciamento já concluída pela Polícia Federal — que atingiu 25 pessoas — Vicentinho Júnior não está entre os indiciados. A PF, no entanto, prepara agora um relatório individualizado especificamente sobre a atuação do deputado, conforme apurado pela imprensa nacional no fim de agosto de 2026 — sinal de que o caso segue em aberto.

Procurado em reportagens anteriores, Vicentinho Júnior negou qualquer irregularidade e classificou os pagamentos identificados pela PF como relacionados a "rotinas da minha vida pessoal".

O contrato de fundo

O pano de fundo financeiro de todo o esquema é o contrato entre a Larclean Saúde Ambiental Ltda e a SEDUC/TO, celebrado em 2020 e que, somados os aditivos de prazo e valor, já soma R$ 59.264.231,98 em recursos públicos.

Os documentos estão aqui. As datas batem. Os valores batem. A empresa não existe. E, por ora, a palavra final sobre Vicentinho segue em aberto — nas mãos do STF e de um novo relatório que a Polícia Federal ainda prepara.


Aqui o jornalista Oswaldo Eustáquio, do alto do meu segundo exílio.

Créditos: Oswaldo Eustáquio Acesse nosso canal no WhatsApp