Setembro/2026

Do campo à gôndola: preço cai para produtor, mas nem sempre no supermercado

Levantamento da Gazeta cruza dados do Deral e da Unioeste e mostra comportamentos distintos: queda do suíno chegou ao consumidor, leite disparou no varejo e farinha ficou mais barata sem redução equivalente no pão

Por Gazeta do Paraná

Do campo à gôndola: preço cai para produtor, mas nem sempre no supermercado Créditos: Joédson Alves/Agência Brasil

Entre o preço recebido por quem produz um alimento e aquele encontrado pelo consumidor na prateleira do supermercado existe um caminho que nem sempre é percorrido na mesma velocidade ou sequer na mesma direção. Um levantamento da Gazeta do Paraná a partir das séries de preços do Departamento de Economia Rural (Deral) e da pesquisa da cesta básica realizada pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) mostra que não existe uma regra única para explicar como as oscilações no campo chegam à mesa.

Em algumas cadeias, a redução é claramente transmitida. É o que ocorre atualmente com a carne suína: o produtor recebe quase 25% menos pelo animal do que há um ano e cortes vendidos no varejo também acumulam quedas superiores a 20%. Em outras, a distância é muito maior. O leite disparou nas prateleiras ao longo de 2026, enquanto a valorização recebida pelo pecuarista ocorreu em outro ritmo. E há ainda situações como a do trigo: a farinha ficou mais barata em Cascavel, mas o pão francês terminou julho custando um pouco mais do que em janeiro.

Os números ajudam a mostrar por que uma queda no campo não significa necessariamente redução imediata na conta do supermercado.

 

Suíno: queda atravessou a cadeia

O exemplo mais claro de transmissão dos preços vem da suinocultura. Em agosto de 2025, o produtor paranaense recebia, em média, R$ 7,05 pelo quilo do suíno vivo. Em agosto deste ano, eram R$ 5,31. Isso representa uma queda de 24,68% em 12 meses.

A retração foi tão intensa que o valor recebido passou a ficar abaixo do próprio custo da atividade. O Deral calcula que produzir um quilo de suíno custou R$ 5,96 em agosto. Para cada quilo produzido, portanto, a remuneração ficou R$ 0,65 abaixo do custo, diferença equivalente a 10,91%.

Nesse caso, porém, o consumidor também percebeu a queda. No varejo paranaense, cortes como paleta e pernil com osso chegaram a R$ 14,15 por quilo em agosto e acumulavam reduções superiores a 20% em 12 meses. Embora produtor e consumidor estejam negociando produtos diferentes, animal vivo de um lado e carne processada do outro, a direção e a intensidade do movimento foram semelhantes.

A conclusão é importante: não é correto afirmar que toda queda de preço na propriedade fica retida no meio da cadeia. No suíno, boa parte dela chegou à gôndola.

 

Leite percorreu outro caminho

Com o leite, a fotografia é bastante diferente. No começo do ano, o litro do leite longa vida custava em média R$ 3,75 no varejo paranaense. Em junho, já estava em R$ 5,35. Naquele momento, o produtor recebia em média R$ 2,64 pelo litro entregue à indústria.

O movimento aparece de maneira ainda mais clara quando se olha especificamente para Cascavel. A pesquisa da cesta básica da Unioeste encontrou o leite a R$ 3,99 em janeiro. Em fevereiro, passou para R$ 4,16; em março, R$ 4,84; em abril, atingiu R$ 5,69. Depois recuou para R$ 5,57 em maio e R$ 5,36 em junho, voltando a R$ 5,62 em julho. Em apenas seis meses, a diferença entre janeiro e julho chega a aproximadamente 41%.

A própria análise do Deral já havia identificado durante o primeiro semestre que a valorização na gôndola não ocorria simultaneamente à remuneração do produtor. Parte dessa diferença temporal está relacionada à dinâmica da indústria, à captação e aos períodos utilizados para formação e pagamento do preço do leite.

Por isso, os números não permitem simplesmente atribuir a diferença ao supermercado. Eles mostram, porém, algo objetivo: a intensidade e o momento das variações foram diferentes ao longo da cadeia.

 

Farinha cai, pão não acompanha

O trigo apresenta outro exemplo. Em janeiro, a pesquisa da Unioeste encontrou a farinha de trigo em Cascavel por R$ 18,93. Em julho, o valor estava em aproximadamente R$ 18,22, redução próxima de 3,8%.

O pão francês fez o caminho contrário. Começou janeiro custando R$ 13,58 por quilo e chegou a julho a aproximadamente R$ 13,83. A diferença é pequena, cerca de 1,8%, mas suficiente para produzir uma situação aparentemente contraditória: a farinha ficou mais barata, mas o pão não.

Isso não significa que a queda da farinha deveria ser automaticamente reproduzida no balcão da padaria. O trigo e a farinha são apenas parte da estrutura de custos do pão. Energia elétrica, gás, mão de obra, aluguel, fermento, demais ingredientes, logística e custos comerciais também participam da formação do preço final. É justamente por isso que acompanhar apenas a cotação agrícola pode produzir uma percepção incompleta sobre o que deveria acontecer no varejo.

 

Frango mostra que até os cortes podem seguir caminhos diferentes

O frango acrescenta outra camada ao problema. Em abril deste ano, o produtor paranaense recebia cerca de 8,9% menos pelo frango vivo do que em abril de 2025. No varejo, porém, não havia uma única direção.

Naquele momento, peito, coxa, sobrecoxa e frango inteiro apresentavam comportamentos diferentes. Isso acontece porque o valor do animal vivo não é simplesmente dividido pelo seu peso e transferido para cada corte. Há rendimento industrial, demanda específica por determinadas partes, processamento, refrigeração, embalagem e diferentes mercados consumidores.

Portanto, até dentro de uma mesma proteína, dizer simplesmente que “o frango ficou mais barato” pode esconder movimentos opostos.

 

Cesta cai, mas isso não significa que tudo ficou mais barato

A pesquisa da Unioeste ajuda a enxergar outra armadilha dos índices gerais. Em julho, o custo da cesta básica individual em Cascavel caiu 4,74%, mas a redução não significa que todos os alimentos ficaram mais baratos.

Tomate e batata registraram quedas muito fortes e tiveram peso importante no resultado geral. Enquanto isso, leite e carne ficaram mais caros naquele mesmo mês. O tomate recuou 37,91% e a batata, 27,64%. Na direção contrária, o leite avançou 4,85%, a carne 3% e a banana 7,38%.

O resultado mostra como duas famílias podem sentir a inflação de alimentos de maneiras bastante diferentes, mesmo comprando no mesmo município. Quem consome proporcionalmente mais produtos que caíram de preço terá uma experiência diferente de quem concentra as compras justamente nos itens que subiram.

A própria série histórica mostra mudanças bruscas. Em janeiro, por exemplo, a cesta custava R$ 670,14 em Cascavel. Naquele mês, o tomate havia disparado 23,17%, enquanto leite, óleo de soja, batata e arroz haviam ficado mais baratos.

 

O supermercado não é a única parada

Há uma razão metodológica para o Deral manter três levantamentos diferentes. O preço recebido pelo produtor mede a venda da produção na propriedade, à vista e livre de impostos. O atacado acompanha quanto varejistas e indústrias pagam a atacadistas, cerealistas, cooperativas e distribuidoras. Já o varejo mede quanto o consumidor desembolsa em supermercados, feiras livres e açougues.

Entre essas três pontas entram processamento, armazenamento, transporte, perdas, embalagem, refrigeração, impostos, salários e outros custos. Além disso, nem sempre se está comparando exatamente o mesmo produto. Um quilo de suíno vivo não corresponde a um quilo de pernil. O litro de leite entregue pelo pecuarista não é o mesmo produto que uma caixa de leite UHT pronta para consumo. Uma saca de trigo tampouco pode ser comparada diretamente ao quilo do pão francês.

Por isso, o levantamento da Gazeta compara principalmente a direção e a variação percentual dos preços ao longo do tempo, e não a diferença nominal entre o que recebe o produtor e o que paga o consumidor. O Deral dispõe de séries históricas de preços desde 1995, com levantamentos específicos para produtor, atacado e varejo.

 

Nem toda queda se perde no caminho

O cruzamento dos dados deixa uma conclusão menos simples, mas mais reveladora. Não existe evidência de que as reduções de preços agrícolas sistematicamente deixem de chegar ao consumidor.

No suíno, a queda chegou com força ao varejo. No leite, as variações ocorreram em intensidades e momentos diferentes. No trigo, uma redução na farinha não produziu queda equivalente no pão. No frango, cortes diferentes chegaram a caminhar em direções distintas.

É justamente essa falta de uniformidade que explica por que uma safra maior, uma queda na cotação agrícola ou uma redução no preço recebido pelo produtor não necessariamente aparece de imediato no caixa do supermercado. Do campo à gôndola há muito mais do que uma margem comercial. Há uma cadeia inteira, e cada alimento percorre esse caminho de um jeito diferente.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp