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Dino e Cármen alertam para banalização da corrupção; Fux fala em despreparo de prefeitos

Em julgamento sobre improbidade administrativa, ministros do STF alertam para a banalização da corrupção e criticam o uso de aparente legalidade para encobrir desvios

Por Gazeta do Paraná

Dino e Cármen alertam para banalização da corrupção; Fux fala em despreparo de prefeitos Créditos: Agência Brasil

O Supremo Tribunal Federal transformou nesta semana um julgamento técnico sobre a Lei de Improbidade Administrativa em uma discussão mais ampla sobre corrupção, ética pública e a crescente sofisticação dos mecanismos utilizados para administrar recursos públicos no Brasil.

Embora o tema formal da sessão fosse a interpretação das mudanças promovidas pela Lei nº 14.230, de 2021, as intervenções dos ministros Flávio Dino, Cármen Lúcia e Luiz Fux acabaram revelando uma preocupação comum: a dificuldade de distinguir incompetência administrativa, erro de gestão e atos praticados com intenção deliberada de burlar os princípios da administração pública.

O debate ganhou relevância porque ocorre justamente em um momento de intensa discussão nacional sobre o controle dos gastos públicos, especialmente diante do crescimento das transferências de recursos federais para estados e municípios por meio das chamadas emendas parlamentares.

 

“Fiat Elba” e a corrupção

Ao longo de sua manifestação, Flávio Dino recorreu a um dos episódios mais emblemáticos da história política brasileira para ilustrar como a percepção social sobre corrupção mudou nas últimas décadas. O ministro citou o caso da Fiat Elba que, no início dos anos 1990, se tornou símbolo das denúncias que levaram ao impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello.

A referência não foi casual. Para uma geração inteira de brasileiros, a utilização de recursos de origem irregular para custear despesas pessoais do presidente foi suficiente para provocar uma crise institucional que culminou na perda do mandato. Dino observou que, passados mais de trinta anos, fatos semelhantes dificilmente produziriam a mesma reação social.

A fala revela uma preocupação que tem aparecido com frequência em debates jurídicos e acadêmicos: a chamada banalização da corrupção. Na prática, a sucessão de escândalos envolvendo cifras bilionárias acabou criando uma espécie de escala informal de gravidade. Quanto maior o valor desviado, maior a indignação. Quanto menor o montante, maior a tendência de relativização.

Foi justamente essa lógica que levou a ministra Cármen Lúcia a fazer uma das observações mais contundentes da sessão. “Corrupção tem preço e valor? Não tem.” A frase sintetiza uma visão segundo a qual o dano causado pela corrupção não pode ser medido apenas pelo valor financeiro envolvido. O prejuízo institucional, a quebra da confiança pública e a erosão da legitimidade do Estado ocorrem independentemente do tamanho do contrato, da licitação ou da vantagem obtida.

 

O despreparado e o assessorado

O momento de maior tensão intelectual do debate surgiu quando o ministro Luiz Fux defendeu a necessidade de separar gestores desonestos de administradores que simplesmente não possuem qualificação técnica suficiente para lidar com a complexidade da máquina pública. Fux lembrou o caso de um prefeito que distribuiu medicamentos pertencentes ao estoque municipal para atender moradores de uma cidade vizinha atingida por uma epidemia de virose.

Embora a intenção declarada fosse ajudar uma população em situação de emergência, a conduta acabou gerando questionamentos jurídicos porque os medicamentos haviam sido adquiridos para atender exclusivamente os moradores do município que realizou a compra. Para Fux, situações como essa demonstram que nem toda irregularidade decorre de corrupção. Muitas vezes, segundo o ministro, trata-se de desconhecimento das normas administrativas ou da ausência de estrutura técnica adequada nas prefeituras.

A observação encontra respaldo em uma realidade conhecida dos órgãos de controle. O Brasil possui mais de 5.500 municípios. Grande parte deles conta com estruturas administrativas reduzidas, equipes técnicas limitadas e forte dependência de assessorias externas para elaboração de contratos, licitações e prestação de contas. Mas foi justamente nesse ponto que Flávio Dino apresentou uma visão distinta.

 

“Assessorados bem demais”

A fala de Dino chamou atenção por inverter uma justificativa frequentemente utilizada por agentes públicos investigados.

Segundo o ministro, sua experiência recente na análise de processos relacionados à execução de emendas parlamentares revela que muitos municípios não sofrem de falta de orientação técnica. O problema, afirmou, é outro. “Às vezes eu tenho a impressão que eles são assessorados bem demais, apenas para o caminho errado.” A frase sintetiza uma percepção que tem ganhado espaço entre integrantes de órgãos de controle, Ministérios Públicos e Tribunais de Contas.

A corrupção contemporânea raramente se apresenta de forma rudimentar. Ao contrário dos esquemas improvisados que marcaram décadas passadas, muitas irregularidades atuais surgem revestidas de pareceres jurídicos, planilhas técnicas, estudos de viabilidade, termos de referência e contratos elaborados por especialistas. Em vez da ausência de conhecimento, o que se observa em muitos casos é justamente o uso sofisticado desse conhecimento para conferir aparência de legalidade a operações questionáveis.

Dino relatou ter encontrado municípios de pequeno porte administrando milhões de reais em recursos públicos com alto grau de precisão técnica. Para ele, a questão central não está na capacidade administrativa, mas na existência ou não de compromisso ético com a finalidade dos recursos recebidos.

 

Emendas parlamentares

As observações do ministro não ocorreram em um vácuo institucional. Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal tem sido palco de sucessivas discussões sobre mecanismos de distribuição de verbas públicas por meio de emendas parlamentares.

O tema envolve bilhões de reais transferidos diretamente para estados e municípios. A principal preocupação dos órgãos de controle tem sido justamente a capacidade de fiscalização desses recursos e a transparência de sua aplicação.

Em diversas investigações realizadas pelo Ministério Público Federal, pela Controladoria-Geral da União e pelos Tribunais de Contas, surgiram suspeitas de contratos superfaturados, licitações direcionadas e estruturas montadas para desviar verbas públicas sob aparência formal de regularidade.

Nesse contexto, a fala de Dino foi interpretada por integrantes do meio jurídico como uma referência indireta a essa nova geração de esquemas que dependem menos de improvisação e mais de engenharia administrativa.

 

Nova Lei de Improbidade

O pano de fundo jurídico da discussão é a reforma da Lei de Improbidade Administrativa aprovada em 2021. A nova legislação elevou o grau de exigência para condenações, estabelecendo que a punição depende da comprovação de dolo, ou seja, da intenção consciente de praticar o ato ilícito.

Os defensores da mudança argumentam que a legislação anterior permitia a criminalização excessiva da atividade administrativa e gerava insegurança para gestores públicos. Já os críticos sustentam que a nova regra tornou mais difícil responsabilizar agentes públicos envolvidos em irregularidades.

É justamente nessa fronteira entre erro administrativo, incompetência e má-fé que se concentram os debates atualmente travados nos tribunais. As manifestações de Fux, Dino e Cármen Lúcia revelam que o STF ainda busca construir um equilíbrio entre proteger gestores que cometem erros honestos e garantir instrumentos eficazes para combater práticas corruptas cada vez mais sofisticadas.

Mais do que uma discussão sobre dispositivos legais, o julgamento acabou expondo uma preocupação institucional crescente: em um ambiente onde a corrupção se torna tecnicamente mais refinada e socialmente mais tolerada, identificar a intenção por trás dos atos administrativos pode ser tão importante quanto analisar os documentos que lhes dão aparência de legalidade.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp