CPI dos pedágios ouve diretor da Gazeta do Paraná e amplia pressão sobre modelo gaúcho
Em depoimento à CPI da Assembleia do RS, Marcos Formighieri afirmou que o Paraná virou “padrão” de problemas nas concessões rodoviárias, enquanto deputados usaram o caso para reforçar críticas às tarifas, ao free flow e à falta de obras no Rio Grande do Sul.
Por Gazeta do Paraná
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A CPI dos Contratos de Concessão de Rodovias Estaduais da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul ouviu nesta quarta-feira, 8 de abril de 2026, o diretor do jornal Gazeta do Paraná, Marcos Formighieri, em uma sessão marcada por críticas ao modelo de pedagiamento e pela tentativa dos parlamentares de usar a experiência paranaense como alerta para a realidade gaúcha. Antes da oitiva, o presidente da comissão, deputado Paparico Bacchi (PL), informou que o secretário da Reconstrução Gaúcha, Pedro Capeluppi, pediu o adiamento de seu depoimento, originalmente previsto para o mesmo dia, e registrou ainda ofício da Casa Civil reiterando a disposição do governador Eduardo Leite em colaborar com os trabalhos da CPI. Segundo Bacchi, o governo foi autorizado a indicar a melhor data para a participação do governador. A comissão também encaminhou a reorganização de seus trabalhos, com a proposta de reuniões semanais às quartas-feiras, após a prorrogação da CPI por mais 60 dias aprovada pelo plenário na véspera.
Convidado por sugestão do movimento Pedágio Não, Formighieri abriu sua fala dizendo que acompanha o tema desde 1997 e sustentou que o Paraná, primeiro estado a implantar o sistema de pedágios no país, se transformou em um exemplo do que, na visão dele, não deve ser repetido. “Ao longo de todos esses anos, a partir de 1997 para cá, com o jornalismo da Gazeta do Paraná, acompanhei detalhadamente tudo o que aconteceu com relação ao pedágio no Paraná. E o Paraná foi o primeiro Estado a implantar esse sistema de pedágio no Brasil”, afirmou. Na sequência, passou a descrever o antigo Anel de Integração como uma “tragédia”, citando tarifas elevadas, ausência de duplicações e falta de modernização das rodovias. Em um dos trechos mais duros do depoimento, disse à comissão que, no caso paranaense, “eles implantaram o roubo no Paraná” e afirmou que houve “23 anos de tarifas escorchantes”, além de contratos com anexos que, segundo ele, dificultavam o acesso às fórmulas de cálculo das tarifas.
O depoente também levou à CPI acusações mais graves, ao afirmar que “2% da receita bruta do pedágio é pago em propina”, declaração que, segundo ele, estaria documentada em reportagens da Gazeta do Paraná. “Isso está documentado na Gazeta do Paraná. E todos se calaram. Não teve um governador para dizer que está mentindo. Nenhum”, declarou. Ao longo da oitiva, Formighieri ainda afirmou que as denúncias relativas ao Paraná se referem, sobretudo, aos contratos anteriores a 2021, embora tenha sustentado que o novo modelo preservaria distorções antigas, especialmente na formação das tarifas. Segundo ele, o cálculo adotado nos contratos mais recentes teria partido da tarifa final do modelo anterior, com correção monetária e juros, sem uma reconstrução integral da conta tarifária. A página oficial da Assembleia registra que esse foi um dos pontos centrais do depoimento e destaca que o jornalista também respondeu a questionamentos sobre free flow, modelagem, agência reguladora e conselho de usuários.
Boa parte da sessão foi ocupada por perguntas de deputados que buscaram aproximar a experiência do Paraná das críticas já feitas dentro da própria CPI aos contratos gaúchos. A deputada Sofia Cavedon (PT) mencionou que a comissão vem “decifrando” fórmulas e siglas presentes nos editais e contratos, e relatou que, no caso gaúcho, o free flow não reduziu tarifas e já resultou em mais de um milhão de multas. Em resposta, Formighieri afirmou que, no Paraná, o sistema chegou ao ponto de prever cobrança em trechos inseridos em perímetro urbano. “Essa foi uma das razões porque… Bom, os compadres lá em Brasília diziam, não, é demais. Agora para com isso”, disse, ao mencionar a suspensão da cobrança em situações desse tipo no estado vizinho. Também afirmou que a Agepar, agência reguladora paranaense, estaria “controlada pelo governo”, e disse que o conselho de usuários “não funciona”.
Os deputados gaúchos aproveitaram o depoimento para reforçar os ataques ao desenho das concessões no estado. Guilherme Pasin (PP) afirmou que o bloco já concedido na Serra Gaúcha teve leilão na B3 com um único participante e relatou que, em sua região, há temor de isolamento de municípios pelo free flow e de aumento do custo logístico. Ele voltou a defender um projeto que prevê compensação de tarifas de pedágio no IPVA, citando justamente o precedente paranaense. Capitão Martim (Republicanos) disse que o Rio Grande do Sul vive um momento de reconstrução após enchentes e estiagens e criticou o uso de recursos do Fundo de Reconstrução do Estado para subsidiar concessões. Segundo ele, o governo estaria destinando R$ 1,5 bilhão ao bloco 2 e outros R$ 1,5 bilhão ao bloco 1 para reduzir a tarifa por quilômetro. Já o relator Miguel Rossetto (PT) afirmou que, no bloco 3, a concessão caminha para o quarto ano com reajustes sucessivos, sem quilometragem duplicada e sem cronograma atualizado de investimentos. “O usuário paga e ele não sabe quando os investimentos vão ocorrer”, disse.
Em outro momento, Paparico Bacchi questionou diretamente se o Paraná poderia ser tratado como modelo de concessão bem-sucedida, como, segundo ele, o governador Eduardo Leite costuma citar. Formighieri respondeu em tom contundente: “É um modelo, sim. É um modelo que explica para o Brasil como é que se rouba no pedágio”. Também afirmou que, na sua avaliação, o estado vizinho não é exemplo de boa concessão, mas de “dilapidação do patrimônio público”. A manifestação levou o relator Miguel Rossetto a ampliar o foco da discussão para outras privatizações, como energia, saneamento e gás, dizendo que o Parlamento gaúcho recebe semanalmente reclamações sobre serviços públicos prestados em regime de monopólio natural. Ao final, Rossetto afirmou que o depoimento seria incorporado aos trabalhos da CPI e que a comissão seguirá investigando um modelo que, segundo ele, transfere renda da população para grupos econômicos com baixo retorno em investimento e qualidade dos serviços.
A sessão terminou com agradecimentos ao depoente e com a indicação de que a CPI entrará em nova fase de organização interna após a prorrogação aprovada pela Assembleia. A página oficial da ALRS informa que estiveram presentes na reunião, além de Paparico Bacchi e Miguel Rossetto, a deputada Sofia Cavedon e os deputados Halley Lino, Capitão Martim, Beto Fantinel, Guilherme Pasin, Dr. Tiago Duarte e Rodrigo Lorenzoni. A comissão agora aguarda a definição da data para ouvir o governador Eduardo Leite e o reagendamento do depoimento do secretário Pedro Capeluppi, enquanto tenta consolidar, no relatório final, a crítica de que a experiência gaúcha corre o risco de repetir problemas apontados no Paraná.
Foto: Raul Pereira
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