CNI mantém projeção de crescimento de 2% para o PIB e alerta para impacto de juros altos na economia
Entidade aponta que indústria extrativa e agronegócio sustentam a atividade, mas alerta que juros altos, inflação e cenário fiscal limitam uma recuperação mais forte
Por Gazeta do Paraná
Créditos: CNI/José Paulo Lacerda/
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) manteve a projeção de crescimento de 2% para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026, indicando que a economia seguirá em trajetória de expansão moderada, sustentada principalmente pela indústria extrativa, pelo agronegócio e pela resiliência do setor de serviços. A estimativa foi divulgada nesta quarta-feira (22), no Informe Conjuntural do segundo trimestre.
Apesar da manutenção da previsão para o PIB, a entidade avalia que o ritmo de crescimento continuará limitado por fatores como juros elevados, inflação persistente, aumento dos custos de produção e avanço das importações, que reduzem a competitividade da indústria nacional.
Segundo o diretor de Economia da CNI, Mario Sergio Telles, a economia continuará sendo impulsionada pelos setores ligados às commodities e pelos estímulos à demanda. No entanto, ele ressalta que a política monetária restritiva e as incertezas fiscais impedem uma aceleração mais consistente da atividade econômica.
A confederação também revisou para cima a projeção da inflação oficial, medida pelo IPCA, que passou de 4,4% para 5%. A expectativa é de que alimentos, combustíveis e os serviços continuem pressionando os preços ao consumidor ao longo do ano.
Na área fiscal, a avaliação é de que, apesar da expectativa de aumento de 5,8% na arrecadação federal acima da inflação, o crescimento das despesas públicas — estimado em 4,5% — manterá as contas do governo deficitárias. A CNI projeta déficit primário de R$ 55,3 bilhões em 2026 e dívida pública equivalente a 82% do PIB.
A indústria teve sua perspectiva revisada para cima, com expectativa de crescimento de 2,1%, ante projeção anterior de 1,6%. O principal destaque continua sendo a indústria extrativa, cuja estimativa saltou de 7,8% para 9,1%, favorecida pelo aumento da produção de petróleo e pela menor sensibilidade aos juros elevados.
Já a indústria de transformação permanece em cenário desafiador. A previsão de crescimento passou de 0,3% para apenas 0,6%, refletindo os impactos do aumento das importações, dos custos de produção elevados e dos efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio. De acordo com a CNI, apenas sete dos 24 segmentos industriais apresentam expectativa de crescimento.
Na construção civil, a projeção subiu de 1,3% para 1,5%, impulsionada por programas de crédito habitacional e investimentos em infraestrutura.
O agronegócio também teve revisão positiva. A expectativa de crescimento passou de 1,1% para 1,8%, sustentada pela previsão de uma nova safra recorde de soja e pelo avanço da produção animal, mesmo diante do aumento dos custos de fertilizantes e outros insumos.
Em contrapartida, o setor de serviços teve a projeção reduzida de 2,1% para 1,9%. Embora o mercado de trabalho e o varejo continuem dando suporte à atividade, o aumento da inadimplência das famílias, o maior endividamento e os juros elevados reduziram as perspectivas para o segmento.
No cenário monetário, a CNI passou a prever uma queda mais lenta da taxa Selic. A expectativa agora é de apenas dois cortes de 0,25 ponto percentual ao longo de 2026, levando os juros básicos de 14,25% para 13,75% ao ano até o fim do período. A entidade estima que os juros reais permaneçam em torno de 9,2%, muito acima do chamado juro neutro, calculado em 5%, mantendo a política monetária em nível restritivo.
No ambiente internacional, a guerra no Oriente Médio segue como o principal fator de risco para a economia brasileira, devido aos impactos sobre os preços de combustíveis, energia e fertilizantes. Além disso, a CNI demonstra preocupação com o avanço das importações de bens de consumo e com a possibilidade de novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o que poderá afetar o desempenho das exportações nos próximos meses. Mesmo assim, a entidade projeta superávit comercial de US$ 77,9 bilhões em 2026, com exportações de US$ 383,9 bilhões e importações de US$ 306 bilhões.
